Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sábado, 12 de março de 2011

O OCULTISMO E A TEURGIA ESTÃO FORA DE MODA 3

Por Mario Sales, FRC.:,S.:I.:,M.:M.:

Acredito que toquei na ferida. As reações apaixonadas, poucas, aliás, que recebi ao longo da semana na defesa do Ocultismo, mostram que ainda temos um longo caminho pela frente neste debate. Temos tempo, no entanto. E pelo jeito em ambiente democrático, todas as posições são bem vindas, até para esclarecer as emoções, como gostava de falar o psicólogo americano Carl Rogers.

Carl Rogers
Talvez o coração deste debate não seja o Ocultismo em si, mas a estratégia eleita para seu uso. O Ocultismo, como lembrou o frater de pseudônimo AEC, é uma forma de cultura, indubitavelmente, inscrita na história da sociedade humana e cujas manifestações simbólicas se estendem por séculos de civilização. Só que como comentei antes trata-se de um fenômeno datado (séc. XVII e XVIII), que teve um repique no séc. XIX, com a instituição da Ordem Hermética da Aurora Dourada (Golden Dawn), em 1880, e, claro com a fundação da Sociedade Teosófica por Helena Petrovna Blavatsky e outros, em 1875. Sei que suas origens remontam aos primórdios da civilização mas estas datas citadas são aquelas em que atingiu seu auge.
Helena Blavatsky

A Inglaterra é o epicentro desta movimentação de reorganização do Ocultismo, e, relatam os nossos historiadores esotéricos, tal situação tinha uma finalidade específica: contrabalançar o avanço de teorias materialistas, como a filosofia Marxista, chamada de Comunismo, e a filosofia Positivista de Augusto Conte. É narrado por Spencer Lewis que em função desta estratégia, Blavatsky apoiaria em um primeiro momento o trabalho de Alan Kardec na fundação do Movimento Espírita, na intenção de reforçar o combate a iniciativas materialistas e ateístas, para mais a frente, quando as instituições estavam mais sólidas, retirar discretamente este apoio.

Isidore Auguste Marie François Xavier Comte
Longe destas análises políticas sobre o Ocultismo e seu papel na tentativa de coibir o avanço do Materialismo Ateu, ele persevera no Imaginário de muitos místicos como um caminho para a iluminação.
Nós, rosacruzes, somos e fomos ocultistas, em todas as épocas, preservadores dedicados da tradição esotérica do mundo civilizado. O que quis evidenciar com meu ensaio, propositadamente provocativo em suas imagens, é que a estratégia de uso do Ocultismo como um caminho para a iluminação foi denunciada há muito como desnecessariamente complexa e enganosa, no mínimo dúbia. O que os Ocultistas do passado queriam com suas práticas mágicas ou teúrgicas, não podemos garantir, pois eles não estão mais entre nós, (e mesmo assim estão) para nos dizer com clareza. O que verdadeiramente importa, no entanto, é o que eles diziam para si mesmos. O campo mais profundo do esoterismo e do Ocultismo, e esta é a minha tese central, minha “piéce du resistance”, é o homem e suas causas psicológicas para dedicar-se a tais práticas.
Dizer que a prática do Ocultismo sempre foi uma busca de Poder pode ser um reducionismo, concedo, só que é um reducionismo fundamentado. Ninguém dedicar-se-á a estudar Magia e Teurgia, durante anos, com prejuízo de sua vida pessoal e profissional, por vêzes, em busca, apenas, de auto conhecimento.
O Ocultismo provê ferramentas para determinadas operações e ao realizá-las, liberta energias com as quais é preciso lidar, seja para usá-las em determinada finalidade, seja para comprovar, pura e simplesmente, sua real existência. De qualquer forma, em minha opinião, repito, ninguém buscou o Ocultismo, em todas as épocas, apenas e tão somente como forma de cultura pessoal. Falemos com franqueza, existia uma intenção mais prática nesta busca. Só que o Ocultismo traz consigo uma perigosa tentação. A Vaidade. Não há como escapar desta verdade.
Aleister Crowley
Esta Vaidade é que pode solapar o caminho da espiritualidade. A sensação de poder que advém de práticas ocultistas muitas vêzes é inevitável. E com isso vem a Vaidade.
É um sofisma dizer que os atos são sempre bidirecionais e que o que está dentro está fora, e portanto todo ato do Ocultista reflete uma busca pelo auto aperfeiçoamento. O Misticismo verdadeiro, que é diferente do Ocultismo, é um movimento eminentemente para dentro, em busca do Graal, do Cálice Sagrado, que se esconde dentro de nossos corações. O Ocultismo em si e por si é um movimento para o Externo, para o que está fora, já que busca um relacionamento com energias exteriores a nós, seres fantásticos e energias do Universo cujo domínio é delicado e às vêzes perigoso.
Sim, é claro que os movimentos se compensam e existe uma dinâmica dentro e fora do indivíduo, como lembra a Tábua de Esmeralda.

Só que este é um jogo de espelhos, um na frente do outro, que oculta a origem do primeiro raio de luz. É aí, nesta origem, no sentido que apontamos o primeiro raio, que reside e se oculta a Intenção do praticante de Ocultismo. Sim, porque o Ocultismo é uma prática, não só uma teoria. E ninguém se esforça na busca de uma habilidade qualquer para não usá-la. Ninguém em sã consciência vai estudar Magia e Teurgia por anos sem a intenção de pô-la em prática e usufruir os possíveis benefícios que advém desta habilidade. Novamente, o que importa neste debate é, portanto, a Intenção por trás da prática ocultista, e não o Ocultismo em si. Foi citado no debate que a prece é uma prática ocultista, já que nos conecta com o mundo das forças espirituais. Concordo. Só que a prece é um exemplo diferenciado. Na prece, e aí me refiro ao tipo de prece que o homem faz na intenção de encontrar com seu Deus interior, temos a única prática oculta que mostra como sentido inicial aquêle para dentro.
E aí o raio de luz começa a se refletir no espelho interior do espírito humano e resvalar para fora do homem, iluminando a criação a sua volta e refletindo nela a sua luz interior que então, novamente reflete na criação e retorna para o homem na forma de bênçãos intermináveis, principalmente as bênçãos espirituais, aquelas que garantem bem estar e serenidade, equilíbrio familiar e pessoal. Já os praticantes de Ocultismo por excelência não tiveram uma vida pessoal que demonstrasse esse tipo de bênção. E a lista de exemplos é longa e antiga. Começa em John Dee. John Dee (Londres, 13 de julho de 1527 - Richmond upon Thames, 1608 ou 1609) foi um matemático , astrônomo, astrólogo, geógrafo e conselheiro particular da rainha Elizabeth I. Devotou também grande parte de sua vida à alquimia, adivinhação, e à filosofia hermética. Quero transcrever aqui, da Wikipedia, um trecho de sua biografia:
John Dee
“No começo da década de 1580, crescia a insatisfação de Dee com seu pouco progresso em aprender os segredos da natureza e com sua própria falta da influência e do reconhecimento. Começou a se voltar para o sobrenatural como meio de adquirir conhecimento. Especificamente, tentou contactar anjos através do uso de um "scryer" ou bola de cristal, que agisse como um intermediário entre Dee e os anjos. As primeiras tentativas de Dee não foram satisfatórias, mas em 1582 encontrou-se com Edward Kelley, que o impressionou extremamente com suas habilidades. Dee pôs Kelley a seu serviço e começou a devotar todas as suas energias a suas perseguições sobrenaturais. Estas "conferências espirituais" ou as "ações" eram conduzidas sempre após períodos de purificação, de preces e de jejum. Dee foi convencido dos benefícios que eles poderiam trazer à humanidade. (o caráter de Kelley é mais difícil de avaliar: alguns concluíram que agiu com completo cinismo, mas a desilusão ou a decepção consigo mesmo não estão fora de questão). Dee dizia que os anjos lhe ditaram muitos livros desta maneira, alguns em uma espécie de língua angélica ou enochiana. Em 1583, Dee conheceu o nobre polonês Albert Laski, que convidou-o para lhe acompanhar em seu retorno a Polônia. Através de alguns sinais dos anjos, Dee foi persuadido a ir. Dee, Kelley e suas famílias foram para o continente em setembro 1583, mas descobriram que Laski estava falido e aquém dos favores da côrte de seu próprio país. Dee e Kelley começaram uma vida nômade na Europa central, mas continuaram suas conferências espirituais, que Dee registrou meticulosamente.
Edward Kelley
Tiveram audiências com o imperador Rodolfo II e com o rei Stefan I de Polônia e tentaram convencê-los da importância de suas comunicações angélicas. Foram ignorados por ambos os monarcas. Durante uma conferência espiritual na Boêmia (que corresponde atualmente a parte da República Tcheca) em 1587, Kelley disse a Dee que o anjo Uriel ordenou que os dois homens compartilhassem suas esposas. Kelley, que nessa época estava se tornando um alquimista proeminente e era muito mais procurado que Dee, pode ter desejado usar isto como uma maneira de acabar com as conferências espirituais. A ordem provocou em Dee uma profunda angústia, mas ele não duvidou de sua autenticidade e aparentemente deixou que ela fosse em frente, mas pouco depois abandonou as conferências e não voltou a ver Kelley. Dee retornou a Inglaterra em 1589.”
Obviamente, Kelley era um indivíduo mal intencionado. E Dee só não percebeu isso, porque em sua ingenuidade se deixou levar por um enganador. O que é estranho e que muitos não conseguem entender, é como um homem de tamanho conhecimento se deixou enganar por um reles charlatão, provavelmente hábil com as palavras e capaz de alguns feitos impressionantes, mas nem por isso menos charlatão. Isto é simples de responder: Dee deixou-se cegar pela Falsa Luz. Tão alardeada e comentada, esta Falsa Luminosidade que engana os tolos provém do acúmulo de conhecimento puro na ilusão de que o conhecimento de per si traz sabedoria. Não é bem assim. Como o Intelecto, o Ocultismo é fascinante em sua complexidade e em seus efeitos. Da mesma maneira como o intelecto pode nos iludir com suas piruetas, o Ocultismo também pode. Dee estava totalmente fascinado pela Magia e pela Teurgia e não poderia ter percebido que, ao seu lado, sua própria esposa seria vítima de um escroque, que na sua malícia justificou-se na própria Teurgia para justificar seus atos. Ao homem envolvido com práticas ocultistas sugere-se prudência e cuidado, de forma que não perca o foco de sua real intenção em buscar o Ocultismo. É sabedoria que ele busca? Ou apenas Conhecimento? E este Conheciemnto uma vez conseguido, lhe trará progresso espiritual ou aumentará sua própria vaidade e sensação de autonomia dos desígnios divinos?

Saint Martin
Quando Saint Martin opta por um trabalho discreto (“Descobri que fazer alarde não faz bem, assim como fazer o bem não deve fazer alarde”) manda uma mensagem a todas as gerações de Ocultistas, que além de Ocultistas eram Místicos, de que se concentrassem na Via Cardíaca, dentro de si mesmos, e que buscassem com fervor apenas um mistério, o maior de todos eles, aquele que em si sintetizava todo a busca esotérica e Ocultista: a busca de Deus em nós mesmos. E alertava que para tal busca não eram necessários complexos rituais, nem jejuns especiais, nem encantamentos obscuros. Bastava-se para isso voltar-se para a Luz Maior que emana de nós mesmos e procurar refleti-la em todos os nossos atos pela prática da Misericórdia, transformando-nos em “agentes de Deus na Terra”.

AMORC
Não foi acidental que AMORC se tornasse a protetora do empreendimento de Saint Martin como reelaborado por Pappus. Não deixamos de prestar reverência a Willermoz nem de honrar a memória de Martinez de Pasqually, da mesma forma que Saint Martin honrou. Só que o caminho de Saint Martin é absolutamente diferenciado daquele do Ocultismo Martineziano, aonde bebe apenas por deferência ao seu mestre, mas do qual não precisaria para organizar seus próprio método de busca do Divino, dentro de si mesmo. Isto está em perfeita consonância com o trabalho Rosacruz ao longo dos séculos.
Alquimista

O que nos difere, nós, frateres e sorores, é que se alguma prática ocultista e alquímica fizemos ao longo destes séculos, e com certeza não há maiores ocultistas do que os rosacruzes na história do esoterismo, sempre o fizemos com foco na busca por Luz Espiritual. Este era e ainda é nosso objetivo. Quando percebemos, por consenso, que o Ocultismo era uma prática desnecessária a esta busca, enveredamos por outro caminho, por outra estratégia, a estratégia de adequar a nossa busca por conhecimento ao modelo proposto pela ciência do século XX. Este foi o papel histórico de Harvey Spencer Lewis: fazer estra transição de estratégia sem traumas. Os rosacruzes, desta forma, evoluíram em suas práticas, e despiram a busca esotérica de sua roupagem romântica, dando-lhe uma objetividade e uma verificabilidade que lhe garante um caráter científico extremamente moderno. Os Rosacruzes hoje representam uma nova classe de Ocultistas e como a Alquimia deu as bases para a Química, embora uma não seja superior a outra, apenas menos subjetiva, da mesma maneira o Ocultismo deu lugar ao Trabalho Esotérico Científico, do qual a maior expressão é a Universidade Rose Croix, aonde experimentos de caráter positivista, investigam em ambiente e condições controladas os mesmos fenômenos que Dee investigava de forma confusa em seu tempo.

Nem deveria ser de outra forma. Muito sofrimento mostrou que práticas ocultistas liberam energias com as quais na maioria das vêzes, seres humanos comuns não estão aptos a lidar. É preciso cercar a investigação de cuidados iguais àquêles que cercam quaisquer procedimentos de investigação na ciência ortodoxa. Cuidados que visam preservar a integridade dos pesquisadores e produzir um conhecimento epistemologicamente confiável, e não um número descomunal de interpretações pessoais que carecem de comprovação ou fundamento.
Kant dizia que sensação é o estímulo organizado, percepção é a sensação organizada, concepção é a percepção organizada, ciência é o conhecimento organizado, sabedoria é a vida organizada.
O Moderno Misticismo Rosacruz, do qual o Ocultismo é um subproduto, uma subdivisão, beneficia-se desta forma kantiana de pensar, procurando dar organização ao seu conhecimento para transformá-lo em ciência e orientando os rosacruzes da AMORC a usar esta ciência em suas próprias vidas, de forma a demonstrarem com a organização de suas próprias existências, a Sabedoria de seus ensinamentos. Em última análise, é o sucesso pessoal, profissional e psicológico de um indivíduo que demonstra o acerto ou o erro de suas opções pessoais.
Se a prática do Ocultismo trouxesse estes três tipos de conseqüências para seus praticantes, eu me calaria. Só que não é assim. Ao contrário, na sua grande maioria, adeptos de práticas essencialmente ocultistas viram sua vida entrar em desequilíbrio e drama, como a de John Dee na Inglaterra do séc. XV.
Dirão alguns: “Este é um exemplo isolado, não representa um padrão.” Muito bem, vejamos então a história de um mago mais recente e um Ocultista da época das celebridades: Aleister Crowley.
Crowley
Recebi comentários baseados em seus ensinamentos. Transcrevo uma parte de sua biografia retirada da Wikipedia: “Aleister Crowley, nascido Edward Alexander Crowley (12 de Outubro de 1875 – 1 de Dezembro de 1947), foi um membro da Ordem Hermética da Aurora Dourada e influente ocultista britânico, responsável pela fundação da doutrina Thelema . Ele é o co-fundador da A∴A∴ e eventualmente um líder da Ordo Templi Orientis (O.T.O.). Ele é conhecido hoje em dia por seus escritos sobre magia, especialmente o Livro da Lei, o texto sagrado e central da Thelema, apesar de ter escrito sobre outros assuntos esotéricos como magia cerimonial e a cabala.
Livro da Lei
Crowley também era um hedonista , usuário recreacional de drogas, e crítico social. Em muita de suas façanhas ele "iria contra os valores morais e religiosos do seu tempo", defendendo o libertarianismo baseado em sua regra de "Faz o que tu queres". Por causa disso, ele ganhou larga notoriedade em sua vida, e foi declarado pela imprensa do tempo como "O homem mais perverso do mundo." Além de suas atividades esotéricas, ele era também um premiado jogador de xadrez, um alpinista, poeta, dramaturgo e foi alegado que ele também era um espião para o governo britânico.”
Thelema é uma filosofia mal compreendida.A leitura mais atenta de seu teor mostra uma preocupação com a valorização do ser humano e a pseudo liberdade desenfreada que lhe é atribuída não se confirma no texto. Existe um chamado a responsabilidade pessoal . De qualquer forma, a maneira teatral e midiática como Crowley procedeu as suas operações ocultas deixou espaço para o equívoco e o erro. Todos concordarão comigo, ele nunca foi uma pessoa discreta. De qualquer forma, posso ser acusado de muitas coisas, mas não de ser uma pessoa conservadora ou moralista. No entanto o que chama atenção neste Mago Pop Star é o seu Ego. Suas pregações sempre foram despidas de quaisquer preocupações éticas e ele é o espelho de tudo que eu disse sobre o perigo da Vaidade na prática ocultista. Outros magos tão importantes e célebres autores como Eliphas Levi não buscaram a notoriedade e nem pregaram a destruição de valores ("Faz o que tu queres") de forma tão irresponsável.
Eliphas Lévy
Sim, porque alguém que consegue a fama que Crowley conseguiu poderia ter se aproveitado disso para promover a busca de valores mais elevados. Não era o seu caso. O Hedonismo foi mais forte e ele também cedeu a falsa luz, talvez de modo mais consciente do que seu antecessor e também inglês, John Dee. Esta é uma atitude compatível com os objetivos rosacrucianos? Com certeza não. Repito, não somos moralistas, não fazemos julgamentos de quaisquer pessoas ou comportamentos, pois isso compete a Deus e ao Karma de cada um. Só que nosso caminho é outro, temos outros objetivos. E com certeza, no campo da espiritualidade e do esoterismo, a vida de um homem deve ser um referencial mais importante para corroborar seus ensinamentos do que esses ensinamentos de per si.
Crowley não é, portanto, um modelo a ser seguido ou consultado por nenhum membro lúcido e comprometido tanto da Ordem Rosacruz quanto da Ordem Martinista. O compromisso de rosacruzes e martinistas é com as coisas de Deus e não com as coisas do homem. Crowley arrastou consigo um sem número de pessoas desprovidas de bom senso. Ele fez suas escolhas; deverá portanto, responder por elas ao Universo.
A escolha dos rosacruzes e dos martinistas é outra.
Acho que é isso.