Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

quinta-feira, 24 de junho de 2010

CAMINHANDO PARA A LUZ

por Mario Sales,FRC, M.:M.: ,S.:I.:



INTRODUÇÃO


Da Distância, Da Proximidade e Da Identificação.

Junho de 2006 , final do outono do Hemisfério Sul



“O cristianismo,
esta mistura da moralidade judaica
com a filosofia grega,
viverá sempre este impasse, esta dúvida.
E só a fé verdadeira conhece a dúvida”

Salomão Schvartzman







Existem idéias que precisam ser consolidadas ao longo de uma ou de várias existências, dada a complexidade do conceito e a dificuldade de fazê-lo passar de conceito a vivência.


Experienciar algo que antes foi apenas uma idéia é a diferença e a transição entre conhecer e ser.


Este é o caso de um conceito clássico em Teologia que discute se somos criaturas de Deus,(o que supõe um Deus pessoal, uma entidade separada de nós) ou se somos parte de Deus ,(o que supõe que somos Sua extensão, partes integrantes D’ele, membros de seu corpo).


A maioria das religiões escolhe a primeira opção: Deus é uma entidade separada do Homem, e o Homem é sua criatura, tendo esta criatura uma autonomia em relação ao todo poderoso no sentido do livre arbítrio, escolhendo segundo sua vontade o seu caminho neste mundo.


Essa opção lembra Santo Agostinho, que no capítulo X de “Confissões” intitulado “Quem é Deus?”, cita no versículo nove, o seguinte trecho:


“Quem é Deus?” Perguntei a Terra e disse-me: “Eu não sou”. E tudo que nela existe respondeu-me o mesmo; interroguei o mar, os abismos e os répteis animados e vivos e responderam-me: “Não somos o teu Deus; busca-o acima de nós.(...)” “Já que não sois meu Deus, falai-me do meu Deus, dizei-me ao menos , alguma coisa D’Ele” ; e exclamaram com alarido: “Foi ele quem nos criou”.


Estas afirmações permeiam o corpo doutrinário da igreja católica e de todas as igrejas auto intituladas de inspiração cristã, numa grave interpretação e modificação da afirmação do próprio Jesus que, dando exemplo, dizia: “Deus e eu Somos Um”.


Enquanto o Cristo demonstrava a sua íntima relação com o Criador, Santo Agostinho pregava sua convicção de que Homem e Deus estavam irremediavelmente separados pelo fenômeno da Criação.


Para consolidar a Doutrina da Santa Madre Igreja, o Cristo foi considerado um caso a parte, irreprodutível, de forma que nenhum ser humano poderia conseguir tamanha intimidade com o Criador a não ser o próprio Cristo, já que este era Deus manifesto na forma de homem, e não um homem que atingiu a fusão com a Divindade, o que chamamos em misticismo de Iluminação.



O ponto de vista místico


Já a postura dos místicos é diversa.
Em primeiro lugar, o misticismo parte do princípio Panteísta de que Deus está sim em todas as coisas que existem, e que não se pode falar em uma Entidade Criadora separada da sua Criação.
Este conceito está harmonizado com as culturas pré-cristãs nórdicas, com todas as tradições mitológicas e com muitas abordagens orientais da experiência religiosa.
Ao contrário de Santo Agostinho e de outros pensadores religiosos, o místico não aceita que o Cristo seja um fenômeno isolado, crê que seu caminho pode ser repetido e busca criar as condições necessárias em si mesmo para conseguir esta Yoga, esta Fusão com a Consciência Cósmica, fenômeno do qual o Cristo , em sua vida, deu testemunho e demonstrou.

Panteísmo é uma doutrina que identifica o universo (em grego: pan,tudo) com Deus (em grego: theos). A reflexão deve partir de um conhecimento da realidade divina e depois especular sobre a relação entre o divino e o não-divino. A este ponto de vista chama-se panteísmo acósmico. Inversamente, quando a reflexão começa de uma percepção de toda realidade finita, das entidades passíveis de mudança e é dado o nome Deus a sua totalidade, denomina-se panteísmo cósmico.O panteísta é aquele que acredita e/ou tem a percepção da natureza e do Universo, como divindade. Etimologicamente falando, o termo panteísmo deriva das palavras gregas pan ("tudo") e teismo ("crença em deus"), sustentando a idéia da crença em um Deus que está em tudo, ou à de muitos deuses representados pelos múltiplos elementos divinizados da natureza e do universo. Em diversas culturas panteístas, freqüentemente a idéia de um Deus que vive em tudo, complementa e coexiste pacificamente com o conceito de múltiplos deuses associados com os diversos elementos da natureza, sendo ambos, aspectos do panteísmo.
Ainda em Confissões, S. Agostinho continua sua seqüência de interrogações com a seguinte questão:
“- Dirigi-me então a mim mesmo e perguntei-me: “E tu, quem és?” “Um Homem”,respondi.
Para o Místico, tal resposta seria impensável. Negar a existência de Deus em nós, de sua centelha formadora, isto sim seria um sacrilégio.
Na verdade, esta contradição é compreensível.
A lâmpada pode ter a ilusão de ser individuo e não parte de um circuito em série, como se fosse o que é porque emite luz e não porque uma corrente passou por ela e provocou a luminosidade ao deparar-se com a resistência dentro dela.
Cada homem, e S. Agostinho entre eles, supõe-se um ser à parte porque, sendo apenas um homem, tem uma visão limitada da sua realidade, já que é uma entidade entre tantas do circuito.
A cultura mística, no entanto, desfaz essa ilusão de separação, afirmando, como Aristóteles, que “vivemos cada dia pela graça de Deus” literalmente, ou seja, é Deus em nós que nos faz vivos, e não que nós tenhamos uma vida independente do Todo Poderoso.
É a sua presença em nós que nos manifesta neste mundo, e, se temos um brilho nos olhos, que desaparece dos olhos do cadáver, é o brilho da luz causada pela passagem constante da PRESENÇA DIVINA por nós, enquanto neste ou em outros corpos.
Muda a cor do vidro das lâmpadas, muda até o tamanho das lâmpadas, mas a energia que flui por elas vem da mesma fonte, tem a mesma natureza, causa o mesmo efeito: Luz.
Assim, o Cristo, sabedor e consciente deste fato, vivenciando este conhecimento, disse: “-Eu e o pai somos Um”. E Paulo apóstolo, mais tarde diria, em Gálatas “... logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim...” ou em Atos XVII-28: “- Pois nele vivemos, nos movemos e existimos, como alguns dentre os poetas de vocês disseram:"Somos da raça do próprio Deus"”
É isto que buscam os yogues e os místicos: IDENTIFICAÇÃO.
Não há distância maior que aquela que vai da ignorância ao conhecimento e, depois, à vivência deste conhecimento.
Não se trata de um problema de espaço a ser percorrido entre o Homem e Deus, ou entre o homem comum e os homens que atingiram uma Iluminação indiscutível, entre eles, o Cristo, Jesus.
Trata-se de uma questão de consciência.
Mais consciência, mais iluminação; menos consciência, maior sensação de separação de Deus e de distância de Sua Presença em nós.
Citando um frater, que recentemente passou pela transição, Euclides Bordignone, em seu famoso discurso, Preciso de Ti, encontramos a afirmação de que “de todos os ensinamentos recebidos na senda rosa-cruz, o mais profundo é o de que não somos criaturas criadas por Deus como uma cadeira foi criada pelo homem, mas sim que Deus e eu somos um , como a minha mão não é criação do meu corpo, mas parte integrante dele”
Esta é a essência do pensamento rosa-cruz, como a AMORC o tem defendido.
Todos aqueles que chegam aos portais da AMORC, imbuídos de outras concepções diferentes desta, levam anos para compreender este que é o ensinamento mais profundo do misticismo rosa-cruz, pois, não há distância maior que aquela que vai da ignorância ao conhecimento e, depois, à vivência deste conhecimento.
Não há como conciliar, no meu modesto ponto de vista, estas duas posições: ou estamos distantes de Deus (e, por decorrência, da experiência testemunhada pelo Cristo Jesus e não temos chance alguma de atingir sua compreensão) ou sim, esta Compreensão, chamada pelos místicos de Iluminação,é possível e esta distância não existe, mas trata-se de uma situação ligada a quantidade e qualidade de nossa consciência atual da inexistência desta separação e desta distância entre nós e o Todo Poderoso; mais do que isto: com esforço e trabalho, ao longo de várias encarnações, nas palavras do Teósofo português Félix Bermudes, todos estamos condenados a ser Deus.
Todas as doutrinas que ministrarem ensinamentos contrários a esta concepção, embora possam autodenominar-se cristãs, são na verdade apenas doutrinas Agostinianas , nem mesmo Paulinas poderiam se dizer.
E a doutrina Agostiniana não é uma doutrina de cunho místico, no sentido de que, antes de tudo, nega o panteísmo.
E como o Agostinianismo trabalha contra o Panteísmo, ele interfere, decididamente, no aumento de consciência dos místicos tocados por sua concepção, da experiência de Deus em si mesmos.
Aqui, a filosofia impede a prática.
O conceito interfere com a prática.
O mundo e nós mesmos somos o que acreditamos.
São as concepções de um homem que o levam a ser como ele é, a fazer suas escolhas na senda do carma.
Para o místico, questões como esta, da distância, da proximidade e da identificação não são apenas questões filosóficas, mas a base para o seu caminhar firme na senda da Iluminação.
E é sobre o caminho para a Iluminação que vamos discorrer agora.



CAMINHANDO PARA A LUZ



Contam os antigos que em um distante país do Norte, deuses impacientes queriam acelerar o Tempo.
E como eram deuses, disseram entre si: vamos ao futuro para descobrir quais as maravilhas que realizaremos em mil anos.
E assim fizeram.
Aceleraram as épocas e viajaram para mil anos a frente, supondo encontrar um mundo mais complexo, curiosos de como seriam os seres daquela época.
Qual não foi a surpresa quando viram que mil anos a frente todos sem exceção eram deuses também, e eles não passavam de seres comuns.
Assim é a história: todos, sem exceção, evoluímos, em direção à plenitude, que quando atingida não será a plenitude, mas apenas um estágio a mais.
E que tipo de estágios são estes?
Degraus como em uma escada? Níveis pelos quais ascendemos em direção ao topo de uma pirâmide?
Não me parece que seja assim.
Na minha concepção, que gostaria de compartilhar, a passagem por estágios sucessivos de evolução não implica deslocamento espacial, mas um movimento interno, como alguém que desperta do sono em sua cama e vai, pouco a pouco, percebendo a pressão da cama sobre o corpo, a temperatura do quarto, a intensidade da luz que chega pela janela, os ruídos de panelas na cozinha, as conversas na sala ao lado. O que muda, na verdade, é a sua consciência do ambiente e de si mesmo.
O quarto, imóvel, aguarda pelo reconhecimento da mente, espera pacientemente por ser percebido, em todos os seus detalhes, odores, cores, texturas, etc.
Da mesma maneira, a perfeição nos circunda. Não estamos exilados, como preferem alguns autores, porém sonolentos, como lembra o apóstolo Paulo.
E aos poucos, despertamos, percebendo o que sempre esteve ali, a nossa frente, à nossa volta, mesmo quando dormíamos.
Portanto, o Entendimento, a Iluminação que todos queremos como místicos, não é um lugar ou uma região determinada do espaço. Antes é um estado de percepção no qual estaremos ou não dependendo de nossa lucidez e discernimento.
Incrementar esta lucidez é o objetivo do místico sincero.Libertar-se de superstições e crenças equivocadas, superar a própria formação familiar e alguns aspectos ligados a sua história pessoal são alguns dos portais a serem atravessados dentro de nossa própria mente.
A Luz tudo esclarece, tudo revela, tudo evidencia.
Ela desfaz as sombras e com elas, ilusões.
Isto, entretanto, pode ser de certo modo, doloroso.
As sombras que nos acompanham são parte de nossa história pessoal e por isso, apegamos-nos a elas.
Nem sempre nos desfazemos delas com facilidade.
Elas nos confortam e protegem nossa visão da força da luminosidade.
Sim, até a Luz em excesso pode nos causar desconforto, temporário, mas significativo.
Por isso aquele que se aproxima do momento em que seus olhos estarão absolutamente abertos, deverá fazê-lo com prudência, sem pressa, com ritmo.
As sombras são menos intensas como experiência, por isto são envolventes; sombras nos cegam, porém não causam dor nem desconforto.
Da mesma maneira a Luz intensa também pode cegar.
A visão do iniciado precisa de tempo para se adaptar.
Por isso o processo de conscientização é gradual. A percepção da Luz é proporcional a cada um, e tem que ser proporcional para que se respeitem as peculiaridades de cada indivíduo, as limitações de cada olhar.
Não somos ou deixamos de ser iluminados: estamos, isto sim, todos nós, em processo de iluminação permanente e temos hoje a quantidade de luz que a qualidade de nossa alma e evolução nos permite ter, quantidade esta que vai se modificando paulatinamente ao longo de nossos dias e iniciações.
Agora, gostaria de fazer algumas considerações sobre o aspecto dual da realidade, o que inclui a compreensão do que as pessoas normalmente chamam de “As Trevas”.


Jacob Boheme e a Dualidade




Boheme sempre nos lembra que luz e calor são atributos inerentes ao fogo, do qual não podem ser separados.
Assim, quem buscar o calor da chama que arde, receberá junto com sua luminosidade, seu calor.
Só que o calor pode queimar.
O mesmo calor que vem junto com a luz pode dar conforto e desconforto, de acordo com a intensidade e a circunstância.
O mesmo fogo se for intenso, poderá causar graves injúrias tanto quanto uma fabulosa luminosidade.
O poder de iluminar do sol depende de explosões nucleares tão intensas quanto destrutivas.
Luminosidade, entretanto é entendida ingenuamente apenas como clareza, brilho, brancura.
E o Branco, habitualmente, é associado ao Bem assim como o Preto ao Mal
E isto me lembra a origem etimológica da palavra branco, a cor que geralmente atribuímos a Luz, e para isso peço a condescendência dos meus irmãos e irmãs, frateres e sórores, para me acompanharem neste raciocínio lingüístico.
Em um livrinho chamado “Dentro do Dentro”, de M.F. Whitaker Salles, Ed. Mercuryo, encontramos a seguinte descrição.
“Branco é uma palavra que não existia em grego nem em latim, essas duas línguas mãe do português: na primeira, branco era Leukos, e na segunda era “Albus”, caso fosse branco sem brilho ou “Candidus”, se fosse brilhante. Nada de se espantar, já que, segundo consta, a língua inuit ( dos esquimós) tem mais de quarenta termos diferentes para descrever o branco da neve.
Nossa língua o adotou ainda na Idade Média (como blank), vindo das tribos germânicas (godos) que habitaram a península ibérica - inclusive o território que depois se tornou Portugal - em progressiva substituição aos antigos ocupantes romanos.
Este vocábulo germânico ocidental, “blank”, significa “brilhante”, “luminoso”, e “branco”, em dialeto frâncico. Vinha de uma raiz indo-européia, com a idéia de “fogo”, “luz” , “ brilho intenso” , e que originou, mais ao sul, por derivação latina, as palavras fulgor, fulminar, flagrante, inflamar, e , por derivação grega, fleugma.
A palavra inglesa “black”, “preto”, nasce neste mesmo “blanck” germânico, que é irmã do nosso “branco”.
Como foi que o branco brilhante originou preto? Simples. O luminoso fogo, queimado, criava a negra fuligem. Assim caminham as idéias – e as palavras que as contém.”
O Luminoso Fogo, Queimado, Criava A Negra Fuligem.
Perfeito.
Luz e Trevas e não Luz ou Trevas.
Esta é a natureza dual da criação que não pode ser desprezada por nenhum buscador sincero que quer se aproximar com segurança e sucesso do estado em que sairá da condição de estudante rosacruz para a condição de verdadeiro Rosacruz, tocado pela graça.
Para que atinjamos a percepção clara da Luz Maior, devemos aceitá-la em sua dualidade.Ver por inteiro não é ver apenas a parte.




As Forças duais na Natureza




Olhemos como exemplo a natureza.
Lindos os pássaros que nos circundam, lindo o céu num dia de Sol e com a cumplicidade da brisa em nosso rosto, dizemos: “que paz, que sossego” e nos sentimos bem.
A mesma natureza que nos embevece neste cenário de paraíso pode, entretanto mostrar-se de outra forma.
Ventos extremos, raios e trovões, terremotos e maremotos que devastam tudo por onde passam, deixando atrás de si morte e caos.
E por acaso esta face da Natureza é menos natural? Podemos em sã consciência dizer que a natureza em fúria não é a mesma das brisas e dos dias azuis?
Não.Ambas as faces pertencem ao mesmo rosto. Se quisermos nos harmonizar com o todo e com este estado, que chamamos Iluminado, temos que aceitar todas as manifestações da realidade como legítimas, e partes integrantes deste todo.
O Luminoso Fogo, Queimado, Cria A Negra Fuligem.
Blanck e Black, Branco e Negro, vêm da mesma fonte. Do mesmo Fogo.
E o que acontece quando aceitamos a dualidade, sem resistências, sem juízos de valor, sem repulsa ou antipatia por esta ou aquela área do que chamamos realidade?
Automaticamente tudo se integra em uma única manifestação, como a combinação de cores do disco de Frater Isaac Newton.
Ou se desagrega , ao contrário, quando perde dinamismo, revelando sua heterogeneidade interna, aparentemente uniforme.
De perto, todas as coisas são mais complexas.
As quarenta nuances do branco da língua esquimó são apenas branco para nós,por que não compartilhamos de sua peculiar relação com a neve, neve que, para nós, aparentemente, é sempre a mesma.
Assim também ocorre com o Despertar Espiritual.
Supomos que vamos das trevas para a luz, mas as trevas vão em nós ,diluindo-se em nossa luz, juntas com nossa clareza, em direção a harmonia , onde todas as distinções desaparecem num estado de percepção e consciência exacerbadas.
E superadas as ilusões da fase anterior, o ser, no despertar da Consciência Cósmica,renovado pelo fogo, o fogo branco, luminoso, que gera o negro, Blank and Black, vê diante de si a Uniformidade do Mundo Espiritual, apenas porque acabou de chegar, porque acabou de acordar. Para ele, tudo no mundo espiritual é UNO, e, como a neve, aparentemente igual.
Após a Iluminação, no entanto, não se espantem.
Os habitantes daquele espaço diferenciado, daquela dimensão, vão nos ensinar 40 novos níveis de compreensão daquilo que chamamos Dimensão dos Iluminados.
Assim, o processo continuará.
Diante de nós, com certeza, abrir-se-ão novos portais, novos níveis hierárquicos de consciência e de aproximação com o Ain Soph, o espírito por trás e dentro de todas as coisas, também chamado o Imanifesto Incognoscível






A Luz e a Sombra Dentro de Nós




A Luz, com suas inevitáveis sombras está dentro e sobre todos nós, neste momento em que conversamos, aqui, como esteve durante todos os momentos de nossas vidas.


“A Luz não veio das Trevas, pois as Trevas são a Ausência da Luz”
As Trevas ou Sombras são um efeito colateral da Luz, não tem existência em si, mas existem apenas enquanto a Luz existir.
A realidade é fundamentalmente Luz , mas como no relógio de Sol, o Movimento natural da Luz em torno de nós, faz com que a sombra também se movimente e assim teremos fragmentos de espaço e de tempo em que a sombra ora se manifestará, ora desaparecerá.
O Todo será o conjunto destes fragmentos e é preciso que entendamos que episódios isolados , mesmo que nos pareçam particularmente sombrios são apenas parte do movimento natural da Luz em torno de nós.
Precisamos ser pacientes e não nos precipitarmos antes de termos todo o quadro para fazermos julgamentos de valor daquilo que nos acontece.
Do Livro “As mais belas parábolas de todos os tempos”, Editora Leitura, tiramos a história abaixo.
Consta que em uma aldeia, existia um homem velho e pobre, mas até reis o invejavam porque ele tinha um lindo cavalo branco. Reis lhe ofereciam quantias fabulosas pelo cavalo, mas o homem dizia:
“-Este cavalo, para mim, não é um cavalo, é como se fosse uma pessoa, um amigo. E como se pode vender uma pessoa, um amigo?”
O homem era pobre, mas jamais vendeu o cavalo. Numa manhã, descobriu que o cavalo não estava na cocheira.
A aldeia inteira se reuniu, e algumas pessoas lhe disseram:
“-Seu velho estúpido! Sabíamos que um dia o cavalo seria roubado. Teria sido melhor vendê-lo. Que desgraça!”.
O velho disse:
“-Não cheguem a tanto. Simplesmente digam que o cavalo não está na cocheira. Este é o fato; o resto é uma dedução. Se se trata de uma desgraça ou uma bênção, não sei, porque este é apenas um fragmento. Quem pode saber o que virá a seguir?”.
As pessoas riam do velho. Elas sempre souberam que ele era um pouco louco. Quinze dias depois, no entanto, de repente, o cavalo voltou. Ele não havia sido roubado, ele havia fugido para a floresta. E não apenas isso: ele trouxera uma dúzia de cavalos selvagens consigo. Novamente as pessoas se reuniram e lhe disseram.
“-Velho, você estava certo. Não se tratava de uma desgraça; na verdade, provou ser uma bênção”.
O velho disse:
“-Novamente vocês estão se adiantando. Apenas digam que o cavalo está de volta. Quem sabe se é uma bênção ou não? Este é apenas um fragmento. Nós acabamos de ler apenas uma palavra de uma sentença: como podemos a partir disso deduzir todo o livro?”.
Dessa vez as pessoas não puderam dizer muita coisa, mas interiormente, sabiam que ele estava errado. Doze lindos cavalos tinham vindo. O velho tinha um único filho, que começou a treinar os cavalos selvagens.
Bem, apenas uma semana depois este filho caiu de um cavalo, fraturou a coluna e ficou paralítico. Novamente as pessoas se reuniram, e mais uma vez, deduzindo, disseram:
“-Você tinha razão novamente. Foi uma desgraça. Seu único filho perdeu o uso das pernas, e na sua velhice ele era seu único amparo. Agora você está mais pobre do que nunca”.
O velho disse:
“-Vocês estão obcecados por deduções. Não se adiantem tanto. Digam apenas que meu filho fraturou as pernas. Ninguém sabe se isto é uma desgraça ou uma bênção. A vida vem em fragmentos, mais que isso nunca é dado”.
Aconteceu que, depois de algumas semanas o país entrou em guerra e todos os jovens da aldeia foram forçados a se alistar. Somente o filho do velho foi deixado para trás, porque era aleijado. A cidade inteira estava chorando, lamentando-se, porque aquela era uma luta perdida e sabiam que a maior parte dos jovens jamais voltaria. Elas vieram até o velho e disseram:
“- Você tinha razão, velho, aquilo se revelou uma bênção. Seu filho pode estar aleijado, mas ainda está com você. Nossos filhos se foram para sempre”.
O velho disse mais uma vez:
“-Vocês continuam deduzindo. Ninguém sabe! Digam apenas que seus filhos foram obrigados a entrar no Exército e meu filho não foi. Somente Deus, a totalidade, sabe se isso é uma bênção ou uma desgraça”.
E continuou:
“- Não deduzam apressadamente porque dessa maneira jamais se tornarão unidos com a totalidade. Vocês ficarão obcecados com fragmentos, pularão para as conclusões a partir de coisas pequenas. Quando alguém deduz apressadamente deixa de crescer. Dedução precipitada significa pensamento estagnado. E a mente sempre quer deduzir e concluir coisas, porque estar sempre em processo é arriscado e desconfortável.
Na verdade a jornada nunca chega ao fim. Um caminho termina, outro começa; uma porta se fecha, outra se abre.
Atinge-se um pico; sempre existe, no entanto, um pico mais alto. Só os serenos e corajosos, não se importando com a meta e se contentando com a jornada, ficam satisfeitos de viver o momento e de nele crescer. Somente estes são capazes de caminhar com a Totalidade”.
Tal percepção assustadora da proximidade de Deus espanta os não iniciados, e alguns iniciados também.
Pois como a iluminação, a iniciação também é um processo em andamento.
Devemos ter em mente de que as iniciações templárias são apenas o início de um sem número de transformações pessoais e místicas ao longo da existência.
Por isso nem todos os iniciados receberão, aceitarão e compreenderão a notícia de que Deus está ao seu lado sem esboçar algum temor.
A Luz, portanto, tão desejada, tão decantada em prosa e verso, em textos secretos ou revelados, está, irmãos e irmãs, a distância de um côvado de nós.
Para que a percebamos, primeiro, mantenhamos a calma.
E nos voltemos lentamente em sua direção.
Este não é um movimento físico, mas uma mudança de perspectiva mundana e iniciática.
Voltarmos-nos para a luz implica abdicar de queixas, lamentos, murmúrios.
Implica na aceitação de nossa vida, em sua totalidade, com alegria e desapego, com confiança, conscientes como Jó de que o Senhor Nosso Deus não nos ameaça, embora nos assuste com sua grandeza, mas, antes, pode ser nosso servo tanto quanto nós somos seus servos.
Esta aparente blasfêmia se sustenta no casamento entre nossa vontade e a Sua Vontade.
Quando a Vontade de Deus e do Homem são uma, o Homem entende que ele e Deus são apenas um.
Sua força está nesta união de interesses, nesta Yoga, que faz com que o homem cavalgue a força do universo, com destreza e agilidade.
O Deus invisível, que sempre foi nosso secreto e imperceptível sustento, será então por nós percebido como algo sólido e íntimo, um companheiro próximo e não mais distante, sólido e palpável ao nosso toque.
Nada mais estará oculto aos nossos olhos, pois enxergaremos pelos olhos do Altíssimo e finalmente reconheceremos a semelhança entre o Lótus e a Lama da qual brota; entre a Beleza da Rosa e seus espinhos, entre aquilo que chamávamos opostos e que neste instante compreenderemos como componentes da mesma Luz que antes pareceu tão distante e que finalmente agora podemos perceber que sempre esteve dentro de nós mesmos.