Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

O ROSACRUCIANISMO E O MARTINISMO : ALGUNS CONFLITOS DOUTRINÁRIOS OCULTOS.

Por Mario Sales,FRC.:,S.:I.:,M.:M.:




Como é de domínio público, a história do Martinismo é complexa.
Tudo indica que é vontade de Deus que esta Ordem permaneça viva e ela tem como a Fênix, a capacidade de desaparecer e ressurgir, de tempos em tempos, independente do passamento sempre súbito e inesperado da maioria de seus líderes (tome-se o exemplo de Pasqually e de Pappus, ou mesmo seu sucessor, Téder).
Numa dessas intrincadas situações históricas do misticismo, uma de suas ramificações tornou-se tutela da Antiga e Mística Ordem Rosacruz, AMORC, a Tradicional Ordem Martinista, que hoje é uma ordem extremamente velada e só permitida à rosacruzes acima do primeiro grau de Templo.
Tal situação gerou uma situação no mínimo curiosa, qual seja a convivência entre a visão do Misticismo como entendido pela Ordem Rosacruz (e principalmente pelos rosacruzes modernos) e a visão do Martinismo, em um só grupo, embora sejam discursos absolutamente distintos.
Se bem que exista um esforço oficioso e oficial para desfazer esta sensação de divergência, com a visão de que a via cardíaca de Saint Martin complementa o trabalho introspectivo de aperfeiçoamento interior dos rosacruzes (a chamada verdadeira alquimia), algumas questões místico-filosóficas não harmônicas saltam aos olhos. Senão vejamos:
1. O Martinismo de Pappus é uma construção feita a partir de três pontos: a Ordem dos Cavaleiros Maçons Sacerdotes Eleitos (Ellus Cohen) do Universo, de Martinez Pasqually, por um lado; o trabalho filosófico de Louis Claude de Saint Martin, e, por último, o trabalho de Jean Baptiste de Willermoz, como terceira ponta deste triângulo inicial.
Até aí, aparentemente nada demais. Só que nestes três pontos já existem conflitos. Vejamos: o trabalho de Martinez de Pasqually, o Martinezismo como é chamado é altamente Ocultista. E aí devemos parar para estabelecer um critério de comparação. Existem a meu ver três tipos de características que identificam as ordens secretas. Chamaremos a primeira de Esoterismo; a segunda, Ocultismo, e a terceira característica o Misticismo.
Expliquemos: Esoterismo é a característica mais óbvia das sociedades secretas, a norma de conservar velados, total ou parcialmente, seus ensinamentos;
Ocultismo por sua vez refere-se a práticas de técnicas de magia (para coisas da Terra) ou teurgia (para coisas do Céu).
Tais técnicas tiveram seu período de ouro nos séculos XVII e XVIII, e se compõem de procedimentos verificáveis e reprodutíveis de ação sobre o mundo visível e invisível, área de especialidade de Magos por toda a história do Ocidente e Oriente; e finalmente o Misticismo, que é a área de mergulho interior em busca do contato com o Mais Sublime em nós, característica de todos aqueles que sinceramente buscam Deus em seus próprios corações, sem intermediários, meta última de todo verdadeiro Iniciado, para a qual todas as outras características são apenas meros acessórios.
Digamos que quaisquer dessas características podem ser classificadas em pouco, medianamente ou muito intensas.
Feita esta pequena digressão podemos dizer que a Maçonaria é uma Ordem pouco esotérica, pouco ocultista e pouco mística.
Que a Rosacruz, AMORC, é, hoje em dia, pouco esotérica, medianamente ocultista e muito mística.
Já o Martinismo é muito esotérico, muito Ocultista, e muito místico.
Ora, dito isto, já vemos algumas diferenças. A importância do Ocultismo para os Rosacruzes é menor do que para os Martinistas. Nem sempre foi assim, no entanto. No mesmo século XVIII, muitos rosacruzes dedicaram-se ao Ocultismo com afinco e mostraram seus estudos aos maçons, ensinando-os como fazê-lo, já que muitos rosacruzes eram também membros da Maçonaria.
Para isso era necessário ter conhecimentos de alquimia, simbólica, cabala e principalmente, ler os grimoire, que em francês quer dizer gramáticas, livros de magia famosos por trazerem as receitas de bolo da magia operativa.
O que aconteceu então? Os rosacruzes literalmente desencantaram-se com o Ocultismo. E por quê? Porque aperfeiçoaram suas técnicas e entenderam que muito, mas muito deste aparato metodológico era desnecessário à sua finalidade primordial, qual seja, a elevação de seus espíritos como seres humanos a um nível de excelência.
Rosacruzes, ontem como hoje, querem ser cada vez melhores como seres humanos, e servir mais intensamente a mesma humanidade da qual fazem parte.
Esta é a verdadeira alquimia: a transformação do ser humano chumbo, homem ou mulher, em ser humano ouro.
A Magia pela Magia, o Ocultismo pelo Ocultismo, entre os Rosacruzes modernos, digamos assim, saiu de moda.
Não posso negar que foi um avanço do ponto de vista psicológico. Os membros da Rosacruz moderna sabem que nada mais é necessário senão uma mente clara, desejos definidos, e uma visualização nítida e dirigida para conseguir o que desejarem, sem a necessidade de complexos e estranhos rituais e palavras secretas. E o que há de interessante nisso em relação ao Martinismo? Pelo que sabemos da história dos martinistas, a evolução descrita nos trabalhos rosacruzes equivale à diferença entre o Martinezismo dos Cavaleiros Ellus Cohen, e o Martinismo, de Louis Claude de Saint Martin, pós martinezista. Não pode haver nenhuma ilusão: esta é a primeira grande diferença entre o Martinismo Moderno e seus ancestrais dos Ellus Cohen. Daí o relato de testemunhas que sempre repetem a insatisfação de Louis Claude de Saint Martin com a complexidade dos rituais de Martinez de Pasqually nos Ellus Cohen, dizendo: “- Será que tudo isto é realmente necessário para se ver Deus?” Desta forma, o Martinismo não é uma continuação pura e simples do Martinezismo, embora lá tenha suas raízes históricas. Ele é uma guinada na direção do Misticismo mais puro, e é isto que a expressão “Via cardíaca”, representa. Neste ponto, o Martinezismo se parece mais com as antigas técnicas rosacruzes enquanto o Martinismo está mais de acordo com as posturas modernas da AMORC.
Hoje as escolas esotéricas, como sempre foram, são escolas de aperfeiçoamento humano, mas ao contrário dos tempos passados, não vêem o ensino do Ocultismo como se praticava no século XVIII como fundamental à transformação alquímica do ser humano.
Sabemos hoje onde reside Deus e onde reside o Demônio, onde está o mal e o bem: dentro de nós mesmos.
As batalhas místicas que povoam a imaginação dos não iniciados não ocorrem mais com encantamentos e poções e raios que saem de bastões, porém dentro de cada místico, no silêncio de seu santuário, pertença ele à Ordem que pertencer.
Porque se for uma boa Ordem seu objetivo será levar este indivíduo a se aperfeiçoar e para isto o indivíduo em questão precisa antes de tudo dele mesmo, e de Deus dentro dele para conseguir tal coisa.
Mais nada.
E o Martinismo de Pappus e Stanislas de Guaita? Também centram no homem ou na mulher as energias de transformação? Não. Os intelectuais esoteristas da Paris dos 20 últimos anos do século XIX e início do século XX davam muito valor à erudição esotérica e o outro nome de erudição esotérica é Ocultismo. Pappus era médico e um incansável escritor e leitor. Guaita lia tudo que podia e procurava ansiosamente por mais informações, pois as que tinha em mãos logo se exauriam.
Eram homens de livros.
O grande volume de informações sobre Cabala presente na Tradicional Ordem Martinista, tutelada pela AMORC, é uma conseqüência disso.
E aí vemos de novo a convivência de duas estratégias completamente opostas na mesma busca pelo contato com Deus.
Uma, o Ocultismo Martinezista, refletido na estrutura interna da Ordem Martinista de Pappus, Péladan, Augustin Chaboseau e Guaita; e outra, o Martinismo estrito, com forte influência de Bohéme e Svendenborg, anterior a eles, mas, a meu ver, mais avançado tecnicamente no que interessa a causa suprema.
Por causa disso alguns rosacruzes estranham os textos martinistas como presentes em seu ritual. Estas duas tendências, não opostas, mas assincrônicas, convivem como se fossem parte de um único corpo de doutrina.
Para os Rosacruzes modernos, o Ocultismo do séc.XVIII é um capítulo de erudição esotérica, não uma técnica necessária à evolução espiritual. Um conhecimento curioso, mas para nós, hoje, na busca de Deus, pouco prático.
E isto causa, de forma indefinível para muitos, desconforto psicológico, embaraço místico, e em silêncio repetem com seus lábios a mesma pergunta de Saint Martin:
“- Será que tudo isto é realmente necessário para ser ver Deus?”


O Viés Maçônico de Willermoz


Por outro lado, ainda existe a considerar o Martinezismo Willermoziano, que foi organizado mais ao modo de Lojas maçônicas e com encontros que lembravam os Ellus Cohen, sem, no entanto a presença magnética de um Ocultista do quilate de Pasqually. De um grupo centrado em um homem, o Willermozismo distribuiu o conhecimento e em parte o poder de todos que freqüentaram as lojas diferenciadas que construiu, bem como os encontros que promoveu, os conventos.
Leia-se para referência esta passagem retirada do site Hermanubis, no endereço http://www.hermanubis.com.br/artigos/BR/ARMARTINE005OsDiretOriosEscocesesNaFranCa.htm onde pode ser acessado na íntegra:


“O Convento De Gaules (Lyon, 1778)
Uma reunião, chamada "O Convento de Gaules", se desenvolveu de novembro a 10 de dezembro de 1778, em Lion, por provocação de Willermoz. Dedicou-se a reformar a "Província Auvergne da Estrita Observância" e foi nesta ocasião que os Templários da França e Alemanha adotaram o nome de CBCS. Na realidade esta Convenção começou a ser gestada em 1776 e sua realização foi marcada para o mês de outubro de 1778. O sucesso das lojas do Rito Escocês Retificado foi total na França, principalmente porque elas eram
oriundas das tradições templárias e, sobretudo porque seus chefes eram nobres autênticos, príncipes, duques, barões, e as iniciações eram muito seletivas. Nessa mesma época, estava se instalando o Grande Oriente da França, que fez questão de agrupar os Diretórios Escoceses sob sua égide e um tratado foi assinado nesse sentido. Esses diretórios não tinham uma direção central na França e uma união era preconizada por todos. Entretanto as desavenças em vez de diminuírem, aumentaram. O próprio Willermoz escreveu ao Príncipe Charles de Hesse, queixando-se que Weiler não conhecia nada sobre "as coisas essenciais".
O grande superior Ferdinand de Brunswick procurava desesperadamente a doutrina e a coesão que faltava. Os Lyoneses detinham há 11 anos o sistema de Martinez de Pasqually, doutrina que poderia interessar aos Diretórios. Willermoz e Louis Claude de Saint-Martin de maneira muito oculta, prepararam as coisas com cuidado.
Eles conseguiram iniciar Jean de Turkeim e Rodolphe de Salznan na Ordem dos "Ellus Cohen", homens de grande importância no seio da Estrita Observância Templária do Diretório de Estrasburgo. E esses dois homens desempenharam um papel muito importante quando os ocultistas de Lyon apresentaram sua proposta dos conventos que iriam realizar no futuro. Com os espíritos preparados, segundo a doutrina de Martinez, os Lyoneses convocaram o Convento de Gaules em 1778, em Lyon. As grandes figuras da Estrita Observância Templária estiveram presentes em Lyon, mas preocuparam-se essencialmente com o futuro administrativo da Maçonaria. Willermoz demonstrou, desde logo, que a preocupação deveria nortear-se sobre o verdadeiro objetivo da Maçonaria, suas diretivas de estudos que deveriam orientar-se na busca da Divindade. No transcurso dos trabalhos, decidiram distinguir as lojas simbólicas das lojas da Ordem Interior e substituir por Cavaleiro Benfeitor da Cidade Santa (CBCS) a palavra Templário. Os rituais apresentados pelos Lyoneses foram aprovados, assim como as instruções secretas de Willermoz, tiradas do "Tratado da Reintegração dos Seres Criados"' de Martinez de Pasqually. O objetivo primeiro da Maçonaria seria comunicado somente aos iniciados nos dois últimos graus, aqueles de "Professo" e do "Grande Professo". A denominação de Superior Incógnito, que tinha sido condenada anteriormente, foi ressuscitada no convento, e era designada àqueles portadores de alta doutrina da Ordem. Entretanto, o verdadeiro objetivo da Maçonaria, permanecia desconhecido por todos aqueles que não tinham entrado realmente dentro da iniciação, embora portassem títulos de nobreza e mesmo os altos graus do "Rito Escocês Retificado". Além disso, havia várias tendências maçônicas e de outras sociedades espiritualistas que colocavam uma grande confusão nas mentes dos vários grupos maçônicos, oriundos de regiões diferentes. Havia assim, a necessidade da realização de um outro convento. E este seria o Convento de Wilhemsbad.


Convento De Willelmsbad De 1782


Foi assim que quatro anos mais tarde, em 1782, realizou-se outro convento em Willelmsbad na Alemanha, com um número maior de participantes em relação àquele efetivado na cidade de Lyon em 1778. As reuniões duraram 45 dias(?!!) e lá estavam presentes Willermoz e Saint-Martin, bem como representantes dos Filaletes, dos Iluminados da Baviera, etc., todos ligados à Estrita Observância Templária.
A diversidade de idéias e de opiniões, impediu que se chegasse a um denominador comum e que se definisse com precisão a doutrina da Ordem. Desta maneira, acabou-se mantendo as mesmas resoluções do Convento de Lyon, inclusive a doutrina de Martinez. Abandonou-se definitivamente a pretensão da descendência direta dos Templários, evocando-se, entretanto uma filiação espiritual, oriunda do Mundo Invisível.
As classes de Professo e Gran Professo desapareceram oficialmente na Convenção de Wilhemsbad em 1782 e, de lá para cá temos: Lojas Azuis, ou de São João: 1) Aprendiz; 2) Companheiro; 3) Mestre. Lojas Verdes: 4) Mestre Escocês de Santo André. Ordem Interior: 5) Escudeiro Noviço; 6) CBCS (Cavaleiro Benfeitor da Cidade Santa)
Neste trecho vêem-se duas coisas. A primeira, as gestões feitas em conjunto por Willermoz e Louis Claude de Saint Martin, mostrando que trabalharam juntos na tentativa de manter vivo o Martinezismo, e o tempo que duravam essas reuniões, ou conventos, levando até 45 dias. Por isso as reuniões modernas de hora e meia são chamadas conventículos, pois não passam de pálidas lembranças daqueles períodos longo de deliberações que ocorriam àquela época.
Outra coisa que fica claro é que não existia uma Ordem denominada como Martinista, mas todas as gestões ocorriam dentro de ambiente eminentemente maçônico, com a característica maçônica de discussão entre seus membros e votação de propostas como em qualquer assembléia de homens “livres e de bons costumes”, como os maçons costumam se chamar. Há um forte caráter administrativo no trabalho, e embora exista grande interesse místico (como mostra o trecho onde se diz “que a preocupação deveria nortear-se sobre o verdadeiro objetivo da Maçonaria, suas diretivas de estudos que deveriam orientar-se na busca da Divindade”) tal objetivo, voltar-se para a busca de Deus em nós, os rosacruzes modernos bem sabem, não é algo a ser discutido como um protocolo coletivo, mas um caminho extremamente solitário, que não é o mesmo para duas pessoas, quanto mais dezenas.
Creio que foi essa percepção, para nós rosacruzes tão sensata quanto verdadeira, que fez Saint Martin optar pela iniciação individual, pessoa a pessoa, no seu ministério que se desenvolveu nos anos seguintes. Não somos, nós rosacruzes, uma Ordem de debatedores dialéticos como os maçons.
Somos isto sim, uma Ordem de buscadores silenciosos de Deus. Isto os Rosacruzes sempre foram, de várias maneiras, e sempre serão. Este é o foco. O resto é acessório.
Daí estranharmos os templos muito iluminados e claros, cicatrizes do Willermozismo, e de desconfiarmos em silêncio de que isto possa de per si, levar a uma melhor percepção do Todo Poderoso.
Os Martinistas, como ex-maçons, pedem silêncio aos seus membros. Os rosacruzes estranham: eles sempre foram silenciosos. É a sua natureza. É o seu modo de ser.
Tudo posto esta característica organizacional, paramaçônica, nem seria problema algum e poderia servir de alargamento de horizontes para os silentes Rosacruzes buscadores da Luz.
Só que, dentro desta estrutura templária surge a questão mais grave, a meu ver, e a mais delicada: a oposição religião versus religiosidade.
Os Rosacruzes são por definição, panteístas. Não situam a Divindade em nenhum lugar ou época, seguindo a risca as três características aceitas para o Todo Poderoso: Onisciente, Onipotente e Onipresente.
O corolário disto é que nenhum Avatar que passou pela Terra, e graças ao Pai, foram muitos, mesmo considerando-se sua raridade, pode ser considerado o único representante desta mesma divindade. Na visão rosacruz aceita, embora raramente discutida, todos nós somos portadores desta mesma divindade, desta filiação divina, sendo apenas uma questão de tê-la mais ou menos manifestada, de sermos mais ou menos conscientes dela. O que, aliás, condiz com um aforismo martinezista que diz em seu Tratado da Reintegração dos Seres que diz que “todos aqueles que estão dentro do Eixo Fogo Central Incriado, homens e anjos, até a última centelha de Deus, sairão do Círculo pela evolução juntos em direção à Luz, ou não sairão.”
A Luz Divina, para os Rosacruzes, está em todos nós, em todas as pessoas, em todas as coisas. E o que é um Avatar, um Iluminado? É aquele que atingiu um alto grau de consciência dessa Luz dentro de si e a manifesta de maneira quase plena, muito além do comum dos mortais. Eu digo quase plena porque a manifestação plena impediria que este mesmo indivíduo se manifestasse entre nós em carne, já que seria pura energia, puro espírito, completamente separado deste ciclo de encarnações. Desta forma, Jesus, o Cristo, está para os Rosacruzes como um desses Avatares, ao lado de muitos outros, e a discussão sobre quem foi o maior entre todos, só serve a fanáticos e religiosos, não aos místicos. Místicos não são religiosos; são seres imbuídos, isto sim, de extrema religiosidade, e sabem em seus corações que o trabalho de purificação interior, como já foi dito, é solitário, uma responsabilidade pessoal e intransferível.
Portanto, a existência destes homens sagrados só nos estimula e serve de exemplo, mas em nada nos diminui a responsabilidade quanto ao nosso próprio destino e evolução.
Não cultuamos estes seres como a única manifestação de Deus, ou a principal manifestação de Deus, ou como o próprio Deus, isoladamente manifesto.
Entre místicos existe um consenso de que Deus é muito, mas muito maior que seus profetas. E por ser Onipresente, não poderia estar, por definição, isoladamente em ninguém em particular, mas sim em toda parte. Se estiver em alguém, homem simples ou santo, estará ali também e não só ali.
E o que nos diz o Martinismo moderno?
- Que se trata de uma ordem cristã. Até aí tudo bem. E que todo seu trabalho visa a Glória do Grande Arquiteto do Universo, antiga fórmula maçônica para evitar conflitos religiosos em suas lojas, personificando neste termo o Ser Supremo.
Por último afirma: “Para o Martinismo, diferentemente da Maçonaria, o Grande Arquiteto do Universo é Jesus, o Cristo, e não um Deus impessoal, já que Jesus é Deus”.
Pausa para reflexão. Isto não condiz com o Panteísmo rosacruz nem com a impessoalidade mística da Divindade Suprema como entendida, senão por todos, pela maioria dos rosacruzes.
E ao contrário das questões anteriores, não há como compatibilizar as duas visões.
Ou Deus é onipresente, está em toda parte e em todos, ou não está e concentrou-se em um único ser: O Cristo, Jesus.
Não é apenas uma questão filosófica, bizantina.
Trata-se da mais importante condição da prática mística que diz que todos nós poderemos um dia atingir a iluminação e tornarmo-nos unos com Deus, e repetir com Jesus; “-Deus e eu somos um”. Se assim não for,não poderemos.
Dentro do Martinismo, pelo menos suponho, não estamos dentro de uma religião, mas de uma Ordem Mística, na acepção da palavra.
Todos os martinistas da TOM, embora tenham aulas sobre Ocultismo, estão mais preocupados em seguir a Via Cardíaca para ampliar seu contato com a Vontade Divina, e tornar-se cedo ou tarde esta mesma vontade, e embora reconheçam a Divindade inegável do Cristo Jesus, seriam incapazes de aprisionar nele a única manifestação da Divindade, de forma que, de um golpe, Deus estaria historicamente datado, distante no Espaço e no Tempo, preso a uma época e a um lugar.
Isto é misticamente inconcebível, inaceitável.
Talvez aí esteja a mais notória discrepância entre o pensamento rosacruz e o pensamento Martinista.
Reverenciamos como místicos rosacruzes todos os Mestres, e não apenas ao Cristo. Reverenciamos a presença de Deus em todos os seres e não apenas a presença de Deus no Cristo. Se formos forçados a isto não poderemos cumprir a diretriz da carta de Stanislas de Guaita aos SI que é lida no Início do Grau, para todos os alunos da classe, a qual diz:
“Não queremos aqui te impor convicções dogmáticas. Pouco importa que te consideres um materialista, espiritualista ou idealista; que professes fé no Cristianismo ou no Budismo; que te proclames um Livre pensador ou que defendas até mesmo o ceticismo absoluto.Não atormentaremos teu coração com problemas que só podes resolver perante tua consciência e no silêncio solene de tuas paixões aquietadas.”
E continua, sempre com brilhantismo:
“Se te sentes envolvido pelo amor verdadeiro de tuas irmãs e irmãos humanos, não procures nunca dissolver os laços de solidariedade que te unem estreitamente ao reino hominal, considerado em sua síntese. Tu fazes parte de uma religião suprema e verdadeiramente universal, pois é ela que se manifesta e que se impõe (de uma forma múltipla, é verdade, mas idêntica em sua essência) sob os véus de todos os cultos exotéricos do ocidente quanto do Oriente.”
Magistral. Um verdadeiro discurso rosacruciano.
Vale ressaltar que ambas as abordagens, em si contraditórias, estão presentes nos textos da mesma Ordem, a TOM.
E isto talvez seja mais uma seqüela maçônica. A TOM é, dentro de si, não uma doutrina mística homogênea, mas uma intersecção de várias linhas de pensamento e de compreensão, um amálgama filosófico, ora moderno, ora démodé, ora religioso e direcionado para uma visão cristã ou eminentemente bíblica do mundo, ora verdadeiramente místico e plural. Os rosacruzes acostumados a conviver com várias formas de manifestação da verdade, não estranham em seus corações esta diversidade de posturas. O que lhes causa espécie, eu suponho, é a tentativa de fazer deste conjunto heterogêneo de facetas, uma mesma esfera, lisa e regular.
Ainda precisamos pensar o Martinismo a luz do Rosacrucianismo e esta intervenção crítica será provavelmente o primeiro passo da Rosacrucianização do Martinismo moderno, como organizado na TOM.
Agora, depois de achar que já havia encerrado o elenco de noções conflitantes entre as duas correntes de pensamento estudadas, me veio à mente, lendo uma monografia avançada da AMORC, outro problema: o da Unidade versus a ausência de Dualidade.
Embora colocado assim pareça redundante, eu procurarei elaborar o tema.
Sem intenção de violar o segredo o qual jurei guardar sobre todos os textos monográficos algumas considerações me parecem impossíveis de não transcrever. E como estarão fora do contexto, não haverá ruptura do sigilo.
Portanto, ouçamos a voz oficial da AMORC:
“ Um dos conceitos místicos básicos é a convicção da Unidade da Realidade. Trata-se da doutrina de que há um substrato por trás da miríade de manifestações que percebemos na natureza.A despeito da variação dos fenômenos da natureza, seja ela animada ou inanimada, há uma substância integral subjacente que não apresenta diversidade....Isto é comumente chamado de Unidade. Do ponto de vista semântico e filosófico, a palavra “unidade” , porém, quando analisada,não se aplica a essa doutrina.Isto porque Unidade implica a reunião de partes separadas de modo que constituam ou pareçam constituir um só todo. Aquilo que é verdadeiramente uno em si mesmo, portanto, não é uma Unidade, (não integrou partes antes separadas). Por conseguinte, não podemos logicamente afirmar que há uma unidade na diversidade, dado concebermos que a essência ou realidade subjacente não é diversificada ( dual) em sua natureza.” E segue o texto por esta linha de raciocínio.
E quanto ao Martinismo? Como é o nome do Livro base dos conceitos de Martinez de Pasqually? “Tratado da Reintegração dos Seres Criados”. Ora, para se falar em Reintegração, pressupõe-se, obviamente, que houve uma anterior Desintegração, ou melhor, uma separação que será desfeita após determinado processo místico ou teúrgico.
Visões novamente divergentes. Para os Rosacruzes, não há possibilidade de reatar aquilo que nunca foi separado, didaticamente ensinado pelo genial modelo da ligação em série de 7 ou 8 lâmpadas, de forma a demonstrar a presença em todas as lâmpadas da mesma energia elétrica a fluir e integrar a todos, mesmo que acenda uma luz vermelha aqui e outra azul ali. Para o Rosacruz, Deus está dentro dele, sempre esteve e sempre estará. Parado, em seu Sanctum no lar, ele contempla seu próprio reflexo em um espelho, para compreender que é nele mesmo que está aquilo que ele busca. Não há movimento para fora nesta busca. Há apenas expansão da Consciência de uma presença que sempre esteve e estará lá, e que por causa da qual, ele se manifesta neste mundo com a ilusão de autonomia, de independência. Já para o Discurso Martinista, ou pelo menos para parte deste discurso, o contato com Deus é algo a ser alcançado, em direção ao qual devemos nos dirigir. Deus não está em nós, mas no Cristo, Jesus, nosso intermediário. Novamente a distância e a separação. Por isso faz todo sentido falar em Reintegração a alguma coisa da qual supomos e postulamos estarmos distantes e separados.
Pior: reencontro este que pressupõe um terceiro elemento, um intermediário, sem o qual não poderá ser realizado.
O encontro do Graal dentro de nós não é mais possível. Só o Cristo pode encontrá-lo e nós o seguiremos, contemplando o cálice sagrado em suas sagradas mãos, à distância.
Qual a acepção correta: Distância ou proximidade?
Contato direto, ou indireto e intermediado?
Houve realmente uma queda ou apenas um processo normal e voluntário de expansão da consciência cósmica em busca de conhecimento? Pode-se, em sã consciência, chamar tal movimento, legítimo, e provavelmente cíclico do Cósmico, de uma “Involução”, ou é assim que o Todo Poderoso normalmente Evolui, e nós com ele, já que somos, todos nós, Ele mesmo?
São questões a considerar, e que deixam claro que, se existe nobreza na prática Martinista isto em nada modifica o fato de que Martinismo, Martinezismo ou Pappusismo não são Rosacrucianismo.
E isto deve ser claro a todos que são membros de ambas as ordens, até para que possam transitar sem traumas entre elas.