Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sábado, 21 de janeiro de 2017

SUTILEZAS IMPERCEPTÍVEIS



Por Mario Sales FRC, SI




Recebi este trecho para meditação de um muito querido Frater e amigo, um defensor da Ordem Rosacruz indiscutível, artesão da Ordem como eu.
O trecho, de rara beleza, esconde, entretanto, um detalhe que me preocupou sobre maneira.
Meu último post para o blog (Discursos), não me agradou na forma embora eu reitere o conteúdo como importante. No entanto, ao relê-lo, achei que não tinha sido claro o suficiente nas minhas colocações. Foi, portanto, oportuno a chegada deste trecho de uma monografia para exemplificar de forma indiscutível o tema que eu debatia naquele texto.
Estamos transformando de maneira sutil e discreta, nossa Ordem, de uma escola esotérica em uma religião, e isso é muito preocupante.
É claro que “ o amor a Deus é indissociável do misticismo e só pode senti-lo quem vive em harmonia com as leis divinas.” O diferencial de uma Ordem Esotérica é a percepção deste aspecto sem as vestes de um grupo religioso, sem seu dogmatismo, sem rituais aonde a vela é mais importante do que a luz que ela representa.
Portanto falar em Fé Rosacruz, partindo do princípio de que os rosacruzes não creem na Ordem como devotos, mas sabem de seu papel na formação do espiritualismo internacional, é uma afirmação delicada, preocupante e equivocada quanto a natureza de nosso trabalho nestes últimos milênios.
Ao longo destes quarenta anos de envolvimento com o trabalho rosacruciano na AMORC, tenho me esforçado, como palestrante e membro, a mostrar, com dificuldade, a diferença entre as visões de um grupo meramente religioso e outro, de natureza esotérico mística.
Nem todas as pessoas têm claro para si esta peculiaridade, esta sutileza de diferençar uma e outra coisa.
Tal equivoco me fez por exemplo publicar um ensaio chamado “Desconforto”, em 26 de dezembro de 2010, aonde eu comentava o mal-estar para membros da Ordem budistas, umbandistas, hinduístas ou judeus, ao ver uma imagem de capa na revista O Rosacruz, de dezembro de 2010, em que a nave do Sanctum Celestial é reproduzida pelo artista Nicomedez Gomez, mas ao invés de no altar se visualizar um triângulo de vértice para baixo violeta, via-se a imagem do Cristo, como se estivéssemos em uma igreja católica.



Talvez muitas pessoas achem um excesso de zelo preocupar-se com tais detalhes, mas recebi comentários de budistas rosacruzes que disseram terem sentido o mesmo desconforto, o desconforto que atinge todos que se vêem preteridos em suas crenças particulares, no momento em que uma dessas crenças recebe um destaque especial, destaque este que dentro de uma Ordem Esotérica com um grupo heterogêneo de pessoas não faz o mínimo sentido.
Não somos uma fé.
Não existe uma fé rosacruz, mas uma tradição preservada por nossa Ordem que é, como de resto todas as tradições são, resultado do cruzamento de várias culturas e compreensões de mundo, desde o Egito Antigo, passando pela Grécia, Roma, pelos Essênios, pela Europa do Sul e do Norte, com a participação ativa de pensadores de linha protestante na elaboração dos Manifestos do século XVII, nos quais reproduziam símbolos universais, atemporais, e como tal capazes de ser absorvidos por esoteristas pertencentes a qualquer linha de crença religiosa.
As palavras têm um peso e um significado, e mesmo aqueles que não se dão conta disso, são influenciados e levados a determinadas visões de mundo por causa dessas palavras.
Por isso é preciso muito cuidado com o que escrevemos para evitar equívocos, para não cairmos em discursos que lembrem uma fala religiosa, principalmente em função da história perversa ligada a crenças e a diferenças de visão de mundo. Precisamos nos esforçar, nós os responsáveis pelo trabalho e pelos textos da AMORC, tenhamos ou não cargos burocráticos na sua administração, de manter estes textos em um nível de neutralidade suficiente para impedir que nossos fratres e sorores se sintam desconfortáveis.
É preciso lembrar que nem todos nós, membros da Ordem, embora respeitemos o trabalho do Cristo, temos o cristianismo como religião. É preciso lembrar que alguns de nós não tem religião alguma e se sentem confortáveis em pertencer a um grupo em que sua sensibilidade espiritual não está submetida a dogmas.
É preciso, finalmente, não esquecer que o rosacruz não tem fé em seu conhecimento, mas confiança, oriunda de verificação de efetividade e aplicabilidade desses conhecimentos e técnicas que compõem nosso saber tradicional.
Esta fala não é minha, mas de Spencer Lewis, e está disponível em todas as monografias que li, e que acredito que todos os artesãos como eu leram,  ao longo desses últimos quarenta anos.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

DISCURSOS,DISCURSOS,DISCURSOS

Por Mario Sales FRC, SI

Emil Cioran



Estimular comportamentos éticos é sem dúvida um objetivo meritório. É a primeira função dos educadores e líderes sociais,principalmente com seu exemplo pessoal.
Existem, portanto, duas formas de provocar modificações positivas de caráter em outras pessoas: pela demonstração prática ou por elaborações teóricas convincentes, a técnica da persuasão.
Dentre as técnicas teóricas podemos distinguir também dois tipos: através de provocações teóricas intelectualmente instigantes ou pelo método do discurso moralista.
Em uma coletividade de pessoas voltadas para a finalidade de autoaperfeiçoamento, manda a boa estratégia que se use o primeiro tipo de abordagem teórica, aquela que provoca reações mais profundas. Para isso, não é preciso reinventar a roda.
A humanidade dispõe de um acervo de reflexões intelectuais de grande beleza e elegância, acervo este construído do trabalho intelectual de vários e magníficos pensadores ao longo das épocas.
São filósofos e poetas, além de escritores místicos que deixaram suas ideias registradas em textos iluminados sobre variados temas importantes à convivência humana, à construção de uma personalidade digna e a estruturação de um suporte intelectual que possa fortalecer o espírito de tantos seres humanos que tem em comum, na experiência da existência, a perplexidade com a força do acaso em nossas vidas e o receio do sofrimento e da morte, seja a nossa ou de entes queridos.
Embora tenhamos várias vezes, a vaidade de acreditar termos a habilidade de organizar em palavras, a partir de nossa própria experiência, um conjunto de textos, que descrevam ideias e sensações capazes de servir de farol para a vida de outras pessoas, poucos entre nós tem este talento, este dom, de falar sobre as coisas da existência sem o apelo a uma abordagem piegas e melodramática.
Abordagens que recorrem a lugares comuns, com a profundidade de uma poça de chuva em uma estrada de terra, abundam nas livrarias e constituem uma fonte de lucros fáceis, já que embora existam pensadores que defendam que o homem supere, por seu próprio esforço, a necessidade de muletas, o inevitável constrangimento da vida social, com suas idas e vindas, principalmente no campo dos relacionamentos, faz com que o exercito de necessitados espiritualmente de orientação aumente a cada dia.
Infelizmente, este fato gera como todos sabem um mercado extremamente lucrativo para charlatães e embusteiros de todas aas espécies.
A grande maioria das pessoas tem um modo de pensar extremamente simplista, são psicologicamente infantis e emocionalmente influenciáveis. E é exatamente dessa fragilidade da qual os maus intencionados se aproveitam para criar em torno de si uma legião de seguidores dependentes, fenômeno tão comum em nossos dias como em épocas passadas. E existem charlatães em todos os meios, seja na política como no espiritualismo, no meio esotérico e mesmo entre respeitados escritores.
Mas esse é outro tema para outro ensaio. Aqui nos cabe discutir a natureza dos discursos estimuladores do caráter.
Consciente daquela herança cultural supracitada que a humanidade detém, a Ordem Rosacruz tem por hábito colocar na contra capa de suas apostilas trechos de pensadores consagrados, página esta conhecida como Concordância, no sentido de demonstrar que o assunto tratado naquela apostila encontra apoio no pensamento de filósofos ou pensadores renomados de todas as épocas.
Mesmo assim, nós, artesãos, temos visto uma piora na qualidade dos discursos internos, lidos nas reuniões reservadas da fraternidade. Muitos textos lidos em loja nos parecem mais com um conjunto de repreensões morais do que um estímulo a reflexão e a um comportamento mais equilibrado.
Em alguns momentos, aos mais antigos membros da Ordem, parece que nos tornamos um grupo de moralistas e que nossos discursos internos visam nos dizer como devemos viver ao invés de nos fortalecer com elementos conceituais consagrados que ajudem o fortalecimento de nosso espírito crítico e nos municie nesta perigosa guerra mental na qual estamos permanentemente envolvidos.
E de que tipo de guerra estamos falando? Guerra contra as ideias superficiais, contra a mediocridade, contra a charlatanice de toda a espécie. Guerra, enfim, contra a mesmice intelectual.
A única defesa contra a mediocridade é a cultura. Nossos textos internos devem, embora acessíveis, manter a característica de evitar cair no lugar comum da autoajuda, das frases de efeito, das recomendações banais acerca de um comportamento social deste ou daquele tipo.
Não são todos os textos que apresentam estes vícios, mas alguns são difíceis de crer que tenham sido preparados para uma reunião de elevação espiritual.
Sempre me orgulhei de pertencer a uma Ordem que não discutia assuntos de natureza pessoal, que fazia considerações sobre escolhas pessoais, orientação política ou sexual. Nosso objetivo como rosacruzes é nos tornarmos seres humanos melhores a partir do ponto em que estamos, e não a partir de um critério de perfeição determinado por alguém em alguma sala fechada.
O espírito se manifesta de variadas formas, ou como lembra o Bhaghavad Gita, o mesmo Krishna tem milhares de bocas e rostos. O que importa, portanto, é estimular nossos membros a consumirem alimento espiritual de boa qualidade, a lerem os filósofos, mesmo aqueles que como Cioran[1] “nasceram sem o órgão da fé”. Não importa. Muitas vezes o raciocínio de um ateu é mais interessante e preciso do que o discurso piegas de um crente. E um raciocínio adequado, com ideias claras e distintas, ajuda as mentes a construírem uma personalidade imune aos cantos de sereia dos vampiros de almas espalhados pelo planeta.
A Ordem Rosacruz, ao contrário das religiões, não consola sofredores, mas os instrui, para que se fortaleçam e cresçam em capacidade mental e espiritual.
Nossos discursos lidos em ambiente reservado devem ser, portanto, didáticos e claros, mas sempre livres do apelo fácil das recomendações de conduta, focando estimular cada um dos membros a procurar, por seu próprio esforço, as respostas aos seus questionamentos, não só na tradição esotérica, mas, principalmente, na tradição intelectual filosófica e científica, que em si representa o esforço coletivo da humanidade para libertar-se da ignorância, essa sim, nossa verdadeira e mais perigosa inimiga.
Contra ela voltemos todas as nossas forças.


[1] Emil Cioran (Rășinari8 de abril de 1911— Paris20 de junho de 1995) foi um escritor e filósofo romeno radicado na França. Em 1949, ao publicar "précis de decomposition", passa a assinar E.M. Cioran, influenciado por E.M. Forster -esse "M" não tem nenhuma relação com outros nomes do filósofo (como Michel, Mihai, etc.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

COMENTÁRIOS SOBRE O TRATADO DA PEDRA FILOSOFAL, de LAMBSPRING


Por Mario Sales, FRC, SI

A pedido de uma sóror de Santos, SP, começamos a estudar um texto clássico da Ordem, “O Casamento Alquímico de Cristian Rosencreutz” (1616), que junto com Fama Fraternitatis, também intitulado Fama Fraternitatis Roseae Crucis oder Die Bruderschaft des Ordens der Rosenkreuzer (1614) e Confessio Fraternitatis (1615) compõem a Trilogia de manifestos rosacruzes. Temos usado para este estudo, via Skipe, a publicação da AMORC que reúne os três manifestos, ainda sob a coordenação e supervisão de nosso antigo e saudoso Grande Mestre, Charles Vega Parucker, de 1998.


Jamais imaginei que depois das dificuldades que nos últimos três anos tenho encontrado para me acostumar com a terminologia e arcabouço de conceitos teosóficos, com a ajuda paciente e fraterna de Mestre Flavio, eu encontraria outro texto de natureza hermética equivalente.
Equivalente, por sinal, em complexidade, não é um adjetivo justo para o Casamento Alquímico, mas minha afinidade pela alquimia era mínima e minha ignorância de sua simbologia, imensa.
Durante a primeira leitura, saltava aos olhos o simbolismo quase ingênuo de certas imagens, mas como um hermeneuta prudente ainda me sentia inseguro de concluir pela interpretação deste ou daquele signo sem o apoio de um texto base.
Américo Somermann

Para minha felicidade, e atendendo a minha visualização, por motivos de estarmos no mesmo evento neste fim de semana, em Ribeirão Preto, confraternizei com Américo Somermann, este Editor corajoso que facilitou a todos os esoteristas brasileiros, acesso a textos fundamentais para Rosacruzes, mas muito mais para Martinistas, considerando que a espinha dorsal da Obra de Jacob Boheme foi traduzida. 
Américo levou para divulgação vários exemplares das publicações da Polar, mas dois ou três me chamaram atenção, já que os outros eu já possuía. 
Entre estes, cito especificamente O Tratado da Pedra Filosofal, de Lamb-spring, ou Lambsprink provavelmente um pseudônimo, em dois volumes.
Patrick Paul
A edição como tudo que a Polar publicou, é de uma elegância e beleza inspiradoras,traduzida por Marly Segreto, da de Patrick Paul (Livre docente em Ciências da Educação, doutor em Medicina e em Ciências da Educação, mestre em Ciências [Microbiologia] e em Antropologia, atualmente é Professor Visitante da Faculdade de Medicina da USP) ; o texto, do século XIV ou XV, é primoroso, publicado em dois volumes, e foi referência no estudo alquímico para famosos esoteristas ao longo dos séculos. Patrick Paul, por sinal, é uma figura constante na Ed. Polar (vide O Paradoxo do Nada, em 2011). 
Imediatamente vi que estes eram os tais textos de apoio que necessitava para continuar minha exegese do Casamento Alquímico. Ontem e hoje os folheei, curioso.

Marly Segreto
O interessante é que, embora minha expectativa fosse ter suporte para um estudo alquímico, fui surpreendido pelo fato de que o Autor, dada sua erudição, descreve e explica as imagens alquímicas do livro lançando mão de conceitos cabalísticos.







É o caso da página 195 aonde lemos: “ O Centro Frontal enunciado na Ioga está aberto. Essa mesma passagem corresponde, na Cabala, à entrada no mundo de Briah e ao acesso à Tiferet. Ela é considerada, na Cabala, como a travessia de um véu (o Parohet)[1]que separa as quatro sephirot inferiores das seis superiores (as quais, por sua vez, são separadas de três em três por outro véu, o dos Abismos). Essa travessia, que abre acesso a outro nível de realidade, é chamada de Obra em Branco. ”[2]
Para minha alegria, descubro um texto explicado em termos cabalísticos, o que, para usar uma expressão típica da minha terra, o Rio de Janeiro, é mais a minha praia. Muito bom. Acredito que será uma grande leitura, enriquecedora e esclarecedora. Mãos a obra.




Para informações, acesse o site da Polar Editorial http://polareditorial.com.br/


[1]Que eu, Mario, chamo de Paroketh.

[2] Meditações sobre o Tratado da Pedra Filosofal de Lambspring, pág.195. Ed Polar, vol 1, 2014