Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

DUAS COMPREENSÕES SOBRE O PAPEL DE MALKUT

Por Mario Sales



“O papel da sefira de Malkut é receber e transmitir para as sefirot. A conexão entre a sefira Malkut com Yesod é em duas direções. Malkut recebe de Yesod e transfere aos seres criados, e por sua vez recebe destes e retransmite a Yesod. A sefira de Yesod transmite o que recebe de Malkut em direção as alturas espirituais, até alcançar a raiz mesma de cada ação. ”
O Zohar, traduzido, comentado e explicado,
in Introdução ao Estudo da Cabala em Geral,
As Sefirot, pág. 52, 4ª edição de julho de 2014, volume 1,
 tradução: projeto Amós, Ediciones Obelisco, Barcelona, Espanha


Eu sempre defendi que, sendo a criação o espelho de Deus, o raio de luz da criação proveniente do Altíssimo retornava a Ele, levando seu reflexo.
Foi com tristeza que li os comentários de Arieh Kaplan nas explicações de um versículo do Bahir, em que o rabino defendia a tese de que Malkut recebia e recebia, apenas, inseminada pelas sefirot mais elevadas por intermédio de Yesod. Que Malkut era passivo, feminino, enquanto o Zeir Anpin acima dela era masculino, ativo, e sua ação sobre Malkut era predominante.
Tristeza porque um dos axiomas que trago comigo é que o Universo é fluxo, movimento, de forma que qualquer que seja a instância discutida, pessoas ou dimensões, estas não podem apenas receber, mas com certeza esboçam, em função deste estímulo, alguma reação, mesmo que não igual em intensidade ou qualidade.
Ler, em uma autoridade indiscutível do Cabalá, que Malkut, aonde vivo, é área só de recepção, não fazia nenhum sentido.
E aí começo a ler este presente dos Deuses que chegou as minhas mãos, dezenove volumes de uma coleção de trinta e dois planejados, da Ed. Obelisco de Barcelona.
E logo na introdução, aonde eles têm o cuidado de dar noções básicas sobre a Cabalá, produzem este belo trecho em epígrafe que autoriza minha interpretação, já que se trata de um grupo realizando o exaustivo trabalho de revisão do Zohar desde 2006.

A mensagem é clara: existe troca, retroalimentação, de forma que Malkut também se expressa e devolve como informação aquilo que recebe como estímulo a vida.

sábado, 23 de setembro de 2017

REFLEXÕES CABALÍSTICAS

SOBRE OS CONFLITOS HERMENÊUTICOS NO “GRUPO DE ESTUDOS CABALISTICOS” DAS SEXTAS FEIRAS
Por Mario Sales


“Mostrarei compaixão quando escolher mostrar compaixão apesar de que não o mereça”

Talmud, Berajot 7ª, citado nos comentários ao Zohar, Hakdamá, seção de Bereshit, Ediciones Obelisco, pág 44



“Pergunta o autor se essa “justiça” é a caridade. Caridade é o conceito de dar alguma coisa gratuitamente, sem que isso seja merecido. A resposta é não. O conceito de dádiva gratuita é como uma “cota de malha”, usada sobre o “corpo”. O “corpo” é Tiferet-Beleza, que é o conceito de dar, comedidamente. (Ora) Se Deus concedesse Seu bem gratuitamente, sem que fosse merecido, não seria um bem perfeito”

Comentário do Rabino Arieh Kaplan, ao verbete 75 do Sepher Al Bahir, ed. Imago, 1ª edição 1980, pág. 173



Vejam como são as coisas.
Não fosse o esforço de leitura de vários textos e de diferentes fontes, o estudante de Cabala ingênuo acreditaria estar diante de uma explicação definitiva quando lesse alguma das duas versões acima.
Não é tão simples, no entanto.
Estudar Cabala é mergulhar não só em uma cultura específica, com um raciocínio lógico peculiar e estranho, como logo se percebe nas primeiras páginas, mas que está longe de ser um campo homogêneo aonde certos conceitos gozam de interpretações padrão aceitas por toda a comunidade.




Cota de malha


É comum em textos judaicos a referência a um trecho da Torah, como forma de justificar determinada linha de pensamento, mas isto não implica segurança de que aquela interpretação encontra respaldo indiscutível.
Ninguém seria tolo de negar autoridade ao Rabino Arieh Kaplan para promover a interpretação do Bahir, como o faz em sua edição comentada. Da mesma maneira, devemos dar ao Talmud o mesmo tipo de atenção e respeito.
Nos trechos acima evidencio o conflito entre duas visões, entre duas interpretações, feitas em textos de caráter referencial na Cabalá. A ponto de, ao fazermos a leitura ontem a noite do Bahir, eu ter defendido a tese de que a interpretação sobre a Natureza da Caridade do Rabino era a imagem clara de uma perspectiva característica do judaísmo ao contrário da visão Cristã, mais conhecida, de dar por dar, sem olhar a quem.
O termo “comedido”, no comentário do rabino Kaplan, significa moderado, eu diria mais, cuidadoso, dando a impressão de alguém que pensa, reflete antes de dar, como se avaliasse o receptor da dádiva, ou seja, estabelecesse a partir de um critério particular se este seria ou não merecedor da dádiva antes de oferecê-la.
Mais à frente, em seu desdobramento, o Rabino esclarece:
“Para que esse bem seja perfeito, deve ser merecido. Esse é o conceito de “justiça” (Tzedek) onde uma recompensa justa é concedida a uma ação justa para obtê-la. ” (Idem, pág 173)
Mais clareza e conflito entre duas interpretações é impossível. Ao que se depreende, o contexto interpretativo às vezes define a linha de interpretação, que não parte de princípios gerais, mas de circunstâncias do texto em análise, o que torna a leitura dos textos cabalísticos e sua interpretação atomizada, às vezes sem obedecer a princípios gerais e consagrados.
Este tipo de conclusão é absurda, senão não teríamos como falar em um campo de saber definido, mas a tentação de se fazer este julgamento, pelo menos a partir da minha enorme ignorância, é forte.
O belíssimo texto em espanhol que introduz o Zohar, traduzido pelo Projeto Amós, em 2006, em Barcelona, continua em sua linha dizendo que:
“Desde esse ponto de vista, tanto a sefira de Hockmah como a de Biná representam um grande nível de bondade, devido ao seu alto nível espiritual”
Já o rabino Kaplan rebate com o seguinte raciocínio:
“Se Deus concedesse Seu bem gratuitamente, sem que fosse merecido, não seria um bem perfeito. Por que não sendo merecido, seria o “pão da vergonha” (Maguid Mesharim, Bereshit). Além disso, uma vez que o receptor está recebendo sem dar, quando recebe não se assemelha, de forma alguma, a Deus...Para que esse bem seja perfeito, deve ser merecido. Esse é o conceito de “justiça” (Tzedek) onde uma recompensa justa é concedida a uma ação justa para obtê-la.”
E continua:
“Diz-se que esse conceito de “justiça” está na “cabeça”, que é definida como “verdade” (EMeT). “Verdade” já foi definida nesse contexto, consistindo de Hockmah-Sabedoria, Biná-Compreensão e Daat-Conhecimento.”
Para os cabalistas de Barcelona, a tríade superior da Árvore representa a bondade infinita de Deus, caracterizada pela dádiva indiscriminada.
Para o Rabino Kaplan, a mesma tríade, se bem que com a Participação de Daat, configura a Justiça, e o critério de discriminação entre dádivas merecidas e não merecidas.
Deus dá a todos generosamente, e como lembra Paulo apóstolo em Atos, 10-34, “Deus não faz acepção de pessoas”, ou deve haver sim um critério para a dádiva, baseado na Verdade oriunda da Justiça?
Talvez uma conciliação possível dessas duas visões seja a de que o rabino fala sobre o Receptor, que como ele mesmo lembra, mais a frente, “o homem deve fazer por ser merecedor desse bem” enquanto que os cabalistas de Barcelona referem-se a Deus, o Doador, e não ao homem, quando dizem que Deus escolhe mostrar compaixão mesmo que aquele que a recebe não o mereça.
O Doador, portanto, é sempre dádiva, mas o receptor deve esforçar-se para tornar-se digno desta dádiva, o que de certa maneira, torna-o harmônico com a dádiva em si.
Quanto melhores formos como seres humanos, mais assemelhar-nos-emos ao Criador e mais aptos estaremos a receber e compartilhar de Sua infinita bondade, sendo que esta semelhança entre o homem e Deus garante a eficácia da dádiva ou graça perfeita. 
O Bem doado a um indivíduo despreparado (ou indigno) para recebe-lo é como uma energia que não encontrando um bom condutor se esvai e desaparece sem causar benefício real.
Esta interpretação, no entanto, é um esforço pessoal meu de tentar conciliar posturas hermenêuticas aparentemente antagônicas.
Nunca é demais supor que meu juízo de valor possa estar comprometido pelo meu pouco conhecimento deste campo tão rico e heterogêneo.
Que o Senhor do Universo me inspire em minhas leituras.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

PRESENÇA E HARMONIA: FILOSOFIA



Aos meus leitores duas palavras: cometi dois equívocos, durante a gravação do programa que considero significativos e por isso quero corrigi-los.
O primeiro é que a época dos pré socráticos começa no séc VI AC e não no séc IV como afirmei, sendo que no séc IV é o período correspondente a atividade socrática e o trabalho literário de Platão.
O segundo equívoco foi quando afirmei que Platão tinha o nome de Aristóteles, em homenagem ao seu mestre. O que eu deveria ter dito era que o nome de Aristóteles era em homenagem ao seu mestre, Aristóteles, conhecido também pelo seu apelido de Platão, ombros largos, que passou a História. Dito isso, desfrutem do programa. Abraços

domingo, 30 de julho de 2017

A IMPORTÂNCIA DA ILUSÃO


por Mario Sales




Maya (tradição hinduísta) sempre foi definida como um problema a ser resolvido, não como uma condição a ser entendida, contextualizada, capaz de ter um significado e uma razão de ser, dentro da dinâmica da existência. 
Tenho falado várias vezes da importância da ilusão, do papel fundamental de Malkuth (tradição hebraica), de que a visão que aqui é o inferno e que o paraíso está fora daqui é uma visão equivocada. 
Maya é ilusão sim, mas é também laboratório de evolução.
Sem ilusão não há evolução.
É isso.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

FIGURA DIVINA, UM SIMBOLO ALQUIMICO, XIIa PARTE


por Mario Sales

NAS REGIÕES INFERIORES



ESQUEMA XXV


O esquema acima mostra a região da qual estamos saindo e que eu denominei o “tórax” do Grande Símbolo.
Nossas análises nos fizeram inventariar quatro (sempre quatro) sub símbolos dentro desta região que é inclusive delimitada para definir sua especificidade e orientar o interpretador de tempos futuros, o hermeneuta.
No entanto não encerramos totalmente nosso inventário.
Resta ainda descrever e revelar um pequeno trecho composto na maioria de frases que mais lembram rótulos.
Retiremos os sub-símbolos e tudo que possa nos distrair e teremos esta imagem.



ESQUEMA XXVI



O trecho que nos interessa está na parte inferior do “tórax” e consta dos seguintes textos:

ESQUEMA XXVII


PHILOSOPHIA e CHIMIA, a primeira palavra abaixo do pulmão esquerdo, o pulmão dos elementos astrais, e CHIMIA abaixo do pulmão direito, o pulmão das coisas materiais.
A relação é clara: filosofia aqui representa um conhecimento mais elevado e refinado, próprio para o estudo de coisas mais sutis enquanto Chimia, a Química, ficaria restrita ao estudo dos elementos componentes da natureza.

ESQUEMA XXVIII

Da sua combinação teríamos o a ESTRELA FILOSOFICA, o nome do DUPLO TRIÂNGULO que acabamos de estudar.
É quando este equilíbrio é alcançado, ao término da reação alquímica, que se encontra a Pedra Filosofal, ou Mercurius Philosophorum.
Da lixivia desta Pedra que obtemos a AQUA VITAE[1], o composto resultante da lavagem do composto final do trabalho alquímico, o soro da eterna juventude, o soro da transmutação e aperfeiçoamento espiritual, transformando o homem-chumbo no homem-ouro.
Era também a panaceia, o remédio que curaria todas as moléstias e garantiria a vida eterna ao seu possuidor.
Agora estamos falando propriamente de alquimia, aqui onde se transita para o mundo inferior, aonde descemos para a prática na Natureza como a conhece o homem comum.
De nada adiantaria dominar a Arte se o Alquimista não pudesse praticá-la em sua própria existência, em sua própria sociedade e se toda a sua vida, por vezes, era marcada pelo retiro e pelo estudo, esta era apenas a preparação necessária para que pudesse, renovado, servir como guia, como modelo para aqueles que o cercavam.
Havia na busca alquímica não só a procura pela elevação individual, mas um genuíno e altruístico desejo de, melhorando-se, melhorar toda a humanidade.
É aqui, nesta altura do símbolo, que começamos verdadeiramente o processo alquímico, pelo CALCINAR, DISSOLVER/SUBLIMAÇÃO, SEPARAR [FILTRAGEM] (SEPARATIO/NON SEPARATIO), CONJUNÇÃO, FERMENTAÇÃO, e DESTILAÇÃO, para depois COAGULAR e, finalmente, chegar a TINTURA.
Tanto é assim, que este ponto de virada está identificado pela esfera, aonde os gases fundamentais borbulham, junto com o Mercúrio, o Enxofre e o Sal (ou Arsênico).
Queria aqui fazer algumas reflexões. Vejam que os vapores sobem, vêm de baixo para cima. Ascendem, a partir das regiões inferiores, e buscam níveis mais elevados.
O processo alquímico reconhece, neste desenho, que como o Lótus, a bela flor oriental que brota da lama, a evolução do espírito em direção ao Divino, objetivo primeiro do processo alquímico, provém, se origina, nas regiões inferiores, no que existe de mais humano.

ESQUEMA XIX





Símbolos identificando os vapores que provém da Natureza

Só ascende aquele que está embaixo, ou dito de outra fora, é preciso ser imperfeito para buscar a perfeição.
Essa é uma lição de humildade e realismo, um alerta aqueles que julgavam e julgam que o processo alquímico não passava de um conjunto de fantasias religiosas.
A Ascensão psico-espiritual é um processo seríssimo, ainda mais em uma época de ignorância, medo e superstição.
E ainda hoje, precisamos de alquimia em nossas vidas, de transmutação interna, como tão bem intuiu Jung.
Nosso laboratório, hoje, é interno, e mais que nunca, as soluções para os nossos dilemas e a força para superar nossas limitações estão dentro de nós mesmos.




Símbolo alquímico da Água de Pedra ou Pedra Filosofal




[1] Supunha-se que Aqua vitae era um lixiviado a partir do composto sólido resultante da Grande Obra, que era a pedra da transmutação do filósofo. Para este aqua vitae foi atribuído a propriedade de transmutar "homem chumbo" no "homem de ouro filosófico"; reconhecido também como o elixir da eterna juventude.