Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

quinta-feira, 15 de junho de 2017

FIGURA DIVINA, UM SIMBOLO ALQUÍMICO : VIIIa PARTE

por Mario Sales




FRASES E MAIS FRASES





Do nosso estudo anterior, separei propositalmente as frases que fazem a transição do sub-símbolo do ESQUEMA 14 para o seguinte.
A primeira:
“VINDE A MIM -------------------------------AQUI TU QUE QUERES MEU SEGREDO. ---------EU TE ILUMINAREI
E REFRESCAREI. ”


Esta frase, me parece óbvio, se destina tanto aos alquimistas quanto aos cientistas. Homens de saber em geral tornaram-se ao longo dos séculos cada vez mais avessos a considerações espiritualistas. Achavam-nas supersticiosas, sem utilidade para a ciência em si. Alquimistas, ao contrário, tinham para si, no mais puro espirito rosacruz, como secundário o processo científico ortodoxo, considerando-o um auxiliar de sua busca, eminentemente espiritual. É parte da tradição rosacruciana recolocar na equação do conhecimento a variável da Divindade. A sentença relembra que conhecer, verdadeiramente, passa pela percepção de uma inteligência subjacente e inerente a todas as coisas, que organiza e propicia a existência. O trecho “...meu segredo...” tanto serve a crentes como a ateus. Deus é parte fundamental dessa busca, aceite-o ou não, segundo o simbolista. Só com a sua participação, o balanceamento de toda equação é possível. A sua ausência, embora não pareça a alguns, mais atrapalha que ajuda, além de retirar da atividade científica o balizamento ético necessário no serviço à toda a humanidade e às hostes da luz.

A segunda: [na tradução da Renes, AMORC] 
“O grande, superior, móvel, mundo superior” do lado esquerdo. Em inglês “O grande, superior, móvel, superior mundo das Causas”

A terceira: [na tradução da Renes, AMORC] 
“O pequeno, inferior, repousado, mundo corpóreo, em seu Centrum” e em inglês “O pequeno, inferior, movimentado, corpóreo mundo dos Efeitos, em seu Centrum” do lado direito.
Também me parecem frases de sentido óbvio, e a tradução em inglês me pareceu muito mais fiel ao sentido, mostrando a oposição dos dois mundos componentes da Criação, seguindo o padrão de Platão, com um mundo das Causas superior, espiritual, e um mundo material dos Efeitos abaixo.
Chama a atenção os adjetivos “móvel”, quanto ao superior, e “mexido”, “movimentado”, quanto ao mundo inferior, que entendo como sinônimo de “movimentado no seu íntimo”.
A estabilidade quase total da matéria, já que existe movimento nos átomos, mesmo em perfeito repouso, é coerente com o termo escolhido, movimentado, ao invés de imóvel, o que surpreende considerando a época em que este texto foi escrito. É como se o Alquimista soubesse dessa condição de instabilidade permanente da natureza, menor nos sólidos, maior nos líquidos e gases, mas sempre lá, determinando que a mudança e a instabilidade são normas em toda a criação, ou seja, que a mudança e o movimento são as únicas coisas que nunca mudam na matéria. É uma compreensão química e atômica demasiado profunda para um homem do século XVI, só que não sei como evitar de fazer essas suposições. Novamente estou aberto a críticas, já que seria impossível esgotar as possibilidades de símbolo e sub-símbolos tão ricos de detalhes.
Me chamou a atenção também a expressão “Centrum”, em vez de simplesmente “centro” na segunda frase, mantida em Latim pela Ed. Renes e pelo tradutor do símbolo em Inglês.
Parece uma pista deixada pelo simbolista do significado da palavra na frase “Natura atque res omnes ex centro in Centrum” que me deu tanto trabalho de interpretar.
Eu tinha chegado à conclusão de que se tratava de uma expressão representativa do Criador, “o Centro do Centro”, mas aqui, Centrum está relacionado com o mundo inferior, o mundo material, o que possibilita a interpretação de que não é correta a tradução “Centro do Centro”, mas sim “do Centro para dentro do Centro”, (“ex centro in Centrum”) sendo que o primeiro Centro refere-se a Origem Divina da Natureza e o segundo Centro ao coração da criação material.
É uma possibilidade que não se deve desprezar e que demonstra o quanto é delicado este processo de hermenêutica de símbolos esotéricos, onde devemos estar abertos a revisões desde que novos fatos surjam os quais sugiram um novo arranjo das partes do conjunto.
Símbolos esotéricos são menos como linhas retas e mais como esferas. Sua interpretação deve sempre pressupor três dimensões, embora sua representação seja bidimensional.
E manter o equilíbrio das partes componentes em três dimensões é muito mais difícil que em duas.
Embora já estejamos avançados na interpretação nada impede que novas descobertas nos façam retornar a pontos anteriores e revisá-los, portanto.
As próximas frases estão já na altura do próximo sub-símbolo e devem estar mais relacionadas com ele. Estamos mais fundo na criação material, nos afastando da cabeça, mais e mais, em direção a parte baixa do Grande Símbolo.


Quarta frase: [na tradução da Renes, AMORC]
“ Casa celestial, e palácio espiritual da Natureza. ”, do lado esquerdo. Em inglês igual, sem a vírgula depois de “celestial”.


Quinta frase: [na tradução da Renes, AMORC]
“Morada terrena e corpórea da Natureza”. Em inglês “Morada terrena e habitação corpórea da Natureza”.

A quarta e a quinta frases parecem continuar na confirmação da existência de dois planos de manifestação da Criação, um perceptível e palpável e outro impalpável, invisível, conceito que está presente em várias tradições.
É sempre interessante mostrar que o chamado “mundo invisível”, no mundo contemporâneo, cresceu enormemente com a melhoria dos aparelhos de medição e observação. Mundo invisível este que, por ser invisível, de modo algum pode ser concebido como espiritual, mas apenas com uma fase material menos densa, como um gás em oposição à um sólido, ambos reais e pertencentes ao assim chamado “pequeno mundo inferior”.
As mentes do século XVI, que às vezes com sua intuição e sensibilidade podem nos impressionar com propostas demasiado avançadas para uma ciência desarmada como a daquela época, não deixam por causa disso de serem mentes de seu tempo, e sua compreensão do mundo é tão simples às vezes como se espera, no senso comum.
A situação atual do conhecimento, se aceitarmos a ideia de dois planos, um etéreo e um denso, empurra os limites do espiritual cada vez mais para o alto.
Ao que parece, o que a ciência de hoje revela é que não apenas dois, mas milhares de planos de densidade ainda devem ser contemplados pela melhoria dos aparelhos de identificação de vibrações cada vez mais sutis.
Mesmo assim, intuímos que em algum lugar essa fronteira será transposta, entre o que consideramos material, mesmo que sutil, e o que consideramos espiritual, mesmo que perceptível a sensibilidade de pessoas de espírito refinado. Só que já não sabemos aonde esta fronteira estará. Ou mesmo se ela existe.
Dito isso, estamos prontos para trabalhar o próximo sub símbolo, na posição direita da figura e esquerda de quem olha, o que me leva a considera-lo um dos pulmões, uma região material que abriga uma matéria pouco densa e invisível, o ar que nos sustenta.

sábado, 10 de junho de 2017

FIGURA DIVINA, UM SIMBOLO ALQUIMICO: VIIa PARTE

por Mario Sales






3° SUB SIMBOLO: O CÍRCULO AZUL DOS ESTADOS DA MATÉRIA DENTRO DO LOSANGO OU O PESCOÇO PARTE 2

Mais uma vez relembro que este belo conjunto está ornado pela frase “Ó Natureza! Tu és verdadeiramente uma” do lado esquerdo, e do lado direito, “imagem criada a semelhança de Deus”.
Temos imediatamente a tentação de atribuir um sentido a esta divisão, mas como lembrava Freud, “às vezes um charuto é apenas um charuto”, podendo não haver razão especial nenhuma para esta separação em duas partes desta frase, a não ser no arbítrio estético do simbolista.

NATURA ATQUE RES OMNES EX CENTRO IN CENTRUM.

Das 12 frases divididas em duas partes elencadas pelo ESQUEMA 5 a 11ª é “Natura atque res omnes”, do lado esquerdo, e depois “ex centro in centro”, do lado direito, que em uma tradução livre seria “ A Natureza e todas as coisas vem do centro e vão para o centro. ” Esta frase me causou grande angustia interpretativa e linguística porque até amigos que conhecem a língua latina foram unanimes na avaliação de que a frase não faz sentido, a forma de escrever está errada em Latim, e é fato que esse Latim vulgar e tosco era comum em documentos alquímicos, algo como uma forma não culta de redigir em língua latina, o que acrescenta um complicador a mais. Exatamente por isso os tradutores automáticos enlouquecem e fornecem versões sem sentido para a frase, que a colocam fora de contexto lógico, como por exemplo, “e que as coisas estão todas fora do centro, no centro da natureza do”, ou em inglês, “Nature and every matter (thing) is from the Center and goes toward the Center”[1], que em tradução livre seria “Natureza e cada matéria está no Centro e vai para o Centro”, o que, cá entre nós, não faz o menor sentido.
Curioso é que há pouco eu dizia que a colocação de frases divididas em duas partes não tinha nenhum motivo profundo ou estratégico. Só que, estranhamente, ao me debruçar nesta frase em particular, percebi que se traduzisse a parte da esquerda de maneira separada da direita, surgiria um conjunto de maior compreensibilidade.
Vejam, a tradução da frase inteira aproximadamente seria “E as coisas estão todas fora do centro, no centro da Natureza”, mas se isolamos o trecho “Natura atque res omnes” fica “E as coisas são todas da Natureza”, o que me lembrou Espinoza, que considerava a Natureza, Deus, a Substancia que suporta e de onde provém todas as coisas, ou em suas palavras em Latim, Natura Naturante. Todas as outras manifestações da matéria seriam Natura Naturata, ou variações sobre o tema.
E o trecho “ex centro in centrum” fica “ a partir do centro do centro”. Ora, para o Alquimista, que antes de tudo é um homem que busca a união com o Altíssimo, o Centro do Centro é Deus. Então arrisco concluir que esta frase descreve o fato de que todas as coisas são naturais e enquanto naturais provêm de Deus, o Centro no Centro, a mesma fonte, embora manifestem-se em diversas e variadas aparências. Faz sentido, no contexto Alquímico.
Mesmo vendo uma compreensão espinozana nesse trecho e embora sejam produtos culturais (o símbolo e a filosofia de Espinosa) contemporâneos (século XVI) é impossível afirmar com segurança haver relação entre o trabalho do filosofo e o que o Simbolista colocou neste símbolo; mas é uma especulação possível e sensata.
Convém lembrar que o símbolo das águas

está presente em cada um dos círculos que compõem este sub símbolo, (ver ESQUEMA 14) e, se tomarmos como correta a interpretação de que ÁGUA representa a criação material, colocar este símbolo como moldura dos modos desta matéria se manifestar é bastante coerente. É preciso esclarecer que, a rigor, este não é o símbolo alquímico para a ÁGUA, (ver ESQUEMA 15) mas sim o símbolo do signo de Aquário, sendo o símbolo da água este:

Tomei a decisão audaciosa, admito, de entender o simbolo
como representando “AS ÁGUAS” em caráter mais amplo, porque não encontrei sentido em entendê-lo como manifestação do signo astrológico de Aquário, seu outro significado.
Estou aberto a críticas.
Só que, como falei no início deste ensaio, O, L, A, B, sempre serão o que são, mas combinados darão origem a outros conceitos. E estamos tentando contextualizar os simbolos componentes deste subsímbolo dentro de uma compreensão harmoniosa, e que possa expressar uma noção inserida na simbologia Alquimica, o ambiente aonde estamos trabalhando. Por isso optei por esta alternativa, para a qual, repito, aceitarei de muito bom grado, comentários que possam enriquecer esta interpretação.



ESQUEMA 14




Antes de seguir em frente, comentemos a frase abaixo desta que acaba de ser analisada.

Refiro-me à “O Sol Criado em sua Atividade e Qualidades”, frase que está separada em duas partes e que tem no mesmo nível, entre suas duas partes a expressão em Latim, “LUMEN NATURAE”, “a luz da natureza”, em português.

Ora, o Sol é o símbolo de Deus, no céu astronômico. Os rosacruzes dizem, lindamente que o Sol, que os egípcios chamavam Rá, era a Luz Menor, símbolo da Luz Maior.
Quando o simbolista se dá ao trabalho de adjetivar o Sol de “Criado”, ele procura ser específico e o confina à sua condição astronômica, de Luz Menor, de símbolo do que foi produzida pela Luz Maior, o Sol Criador, portanto.
Uma vez estando definido que se trata do astro Sol, ele afirma que sua luz tem efeito sobre a natureza criada, tema do sub-símbolo que a frase circunda, pois, a proximidade no desenho geral, de um determinado texto e uma determinada imagem também são indicativos de conexão entre ambos.
O simbolista insinua, pois, que a Luz do Sol tem um papel na atividade e no funcionamento da natureza, o que é um fato científico, seja através do calor que beneficia os animais, racionais e irracionais, ou da radiação que beneficia os vegetais pela fotossíntese. Esta é a sua atividade que determinam qualidades de ação diversas sobre toda a criação. Embora novamente nos venha a tentação de uma compreensão biológica e astronômica desta afirmação, relembramos aquela advertência anterior: “Entende de acordo com a filosofia Celeste e não (a) Terrestre”.
Mesmo que todas as afirmações estejam de acordo com a moderna ciência devemos nos lembrar da presença da Vontade Divina e de sua Divina Interferência nesses processos que, não os que não crêem, mas os que não conseguem sentir, supõem um delírio religioso. Deus e sua divina presença é uma percepção, não uma crença, e aqueles que não o sentem não devem ser julgados ou condenados da mesma maneira que não é sensato condenar o cego por não ver as cores. Faltam-lhe instrumentação para isso, que nada tem a ver com o intelecto, mas sim com a sensibilidade espiritual, que mais uma vez afirmo, nada tem a ver com fé ou crença. Muitos que dizem ter fé em Deus jamais o sentiram ao seu lado, e muitos que se calam por pudor sentem esta presença de modo às vezes até angustiante. Portanto, fica a advertência: ao interpretar este símbolo, principalmente na área que já pertence a realidade criada da Natureza, devemos entende-lo, sempre “...de acordo com a filosofia Celeste e não (a) Terrestre”.
Resta um elemento a considerar neste levantamento: as quatro (sempre quatro) expressões nas bordas do desenho.

UM ESPÍRITO, UMA VIDA, UMA LUZ E UM FOGO.

Meditei sobre isso. A repetição do conceito de Unidade talvez seja a chave de compreensão. (ESQUEMA 14). Embora esta não seja uma fase interpretativa, mas de inventário, sem prejuízo da gradualidade e da prudência, podemos fazer algumas suposições. E como o conceito de Unidade, Um isso, Um aquilo, é enfatizado, estando como estamos no nível da criação, palco da diversidade, centenas de espécies animais e vegetais, e mantendo em mente a primeira instrução, concluímos que esta também é uma afirmação da Unidade na Diversidade. Uma declaração que envolve o trecho em análise, que o cerca, que o guarnece contra o erro e a ilusão de supor que a Heterogeneidade da forma na criação signifique Heterogeneidade também no seu conteúdo.
A mesma energia, o mesmo Fogo, sustenta todas as coisas, árvores, pássaros, peixes, homens. Em todos encontramos o mesmo Espírito, a mesma Luz, a mesma Vida. Mesmo com as manifestações de estados diversos, Frio, Quente, o Seco, o Úmido, ainda assim estamos diante de variações sobre o mesmo tema, contemplando apenas e tão somente as múltiplas e infinitas sinfonias que surgem da mesma escala musical de apenas sete notas. A Unidade é o fundamento da aparente Diversidade, lembra o simbolista.
Essa é nossa avaliação do significado deste contorno que, tal qual muralha, circunda o interior do símbolo. 

ESQUEMA 15

Comparação dos símbolos dos elementos


Vejam neste esquema que, salvo discretas variações, os símbolos dos elementos na Alquimia são os mesmos em diferentes tabelas, com exceção da ÁGUA, para o qual temos dois símbolos, destacados abaixo, à direita.


sábado, 3 de junho de 2017

FIGURA DIVINA, UM SÍMBOLO ALQUÍMICO: VIa PARTE


por Mario Sales







3° SUB SIMBOLO: O CÍRCULO AZUL DOS ESTADOS DA MATÉRIA DENTRO DO LOSANGO OU "O PESCOÇO" PARTE 1


Abaixo lê-se ainda “RUACH ELOHIM (o espírito dos deuses, em uma tradução mais fiel, já que o sufixo IM torna a palavra plural) anda sobre as águas. ”
Segundo o esquema abaixo a correlação entre os textos faz com que leiamos:
“Deus torna-se Natureza através de Suas palavras”

ESQUEMA 9




Como estamos na parte de baixo da estrela, estamos entrando no Corpo Material da Criação, e estamos no território da ação do som e da vontade sobre a existência. No Gênesis encontramos, repetidas vezes: “E Deus disse”, e em seguida algo acontece.
A frase acima, “Temporal visível terrestre Santíssima Trindade”, já estabelece esta entrada, este fim de transição. Mantendo em mente a advertência de que devemos entender o símbolo “...de acordo com a Filosofia Celeste e não a Terrestre”, estamos aqui iniciando uma descrição pictórica da área material da Criação.
A Natureza, insinua o simbolista, mesmo considerada no seu aspecto denso e material, jamais existiria ou mesmo se manifestaria sem o suporte e a presença de Deus em seu interior. Pois “Deus torna-se Natureza”, simples e misticamente, apenas “...por Suas palavras. ”
Nenhuma tecnologia interfere no processo.
Nenhum instrumento, nenhuma poção; apenas o Som Criador, manifestação de Sua Divina vontade, união no pescoço das forças que vem da cabeça, no alto, e do coração, abaixo.
E durante todo o processo “o espírito dos deuses anda sobre as águas”, zelando por sua criação.
E lembra o simbolista: Deus & Natura Nihil fasciunt fristra, nada do que foi criado deixa de ter importância no drama cósmico, como peças de uma delicada engrenagem.
Aqui me vem à mente o conceito biológico de cadeia alimentar e do enorme prejuízo decorrente da interferência humana em habitats em perfeito equilíbrio, interferindo com o equilíbrio natural e liberando com sua irresponsabilidade doenças de toda espécie.
Assim o Ebola, vírus extremamente mortal, só atingiu recentemente a civilização por ter sido libertado pelo desmatamento progressivo de sua jaula biológica; ou no desastre de Mariana em Minas Gerais, aonde com a ruptura de uma barragem de rejeitos, um rio foi destruído com toda a sua fauna, matando os peixes e os sapos que comiam as larvas do mosquito vetor da febre amarela, e permitindo uma explosão de casos desta doença pela multiplicação descontrolada de seu vetor. "Deus & Natura Nihil fasciunt fristra", ou “Deus e a Natureza nada fazem em vão”, diz o simbolista. Fato.
Num instante de deslumbramento, ele, simbolista, olha para a Criação e brada:
“Ó Natureza, tu és verdadeiramente uma imagem criada a semelhança de teu Deus”.
Estas três últimas expressões (“Deus torna-se natureza...”; “Deus e a Natureza nada fazem em vão” e “ Ó Natureza...”)
ficam de um lado e de outro do primeiro segmento da área que entendemos como o início do mundo material, uma região na forma de losango que faz intersecção com a parte de baixo da estrela de seis pontas.
Ela está encimada pela expressão “prima criatura” (primeira criatura) talvez referindo-se ao início da criação da vida, não sei bem se humana ou não.
Logo abaixo a palavra “Aqua”, água em latim. A palavra água tanto podia representar o elemento como a Criação em conjunto, numa contaminação conceitual da Cabala Judaica na Cabala Cristã, irmã xipófaga da Alquimia. Na tradição Judaica, as águas são os mundos, e fala-se mesmo em “Águas de Cima” e “Águas de baixo”, representadas pela primeira letra do alfabeto, o Aleph.
Esta é a representação do Aleph:


ESQUEMA 10




Os especialistas vêem na forma do Aleph uma composição com dois YODs (marcados em vermelho) separados por um VAV (marcado pelas linhas amarelas) meio deitado.
Esta seria a representação da separação entre o céu e a terra, as “Águas de Cima” das “Águas de Baixo”.
Esta Aqua, do nosso símbolo, pode ser o nome desta parte da Criação, a Natureza, a Água de Baixo, ou simplesmente, a Água.
Dentro desta água, deste losango, vemos um círculo dividido internamente em cinco camadas. Nos cantos do Losango, as expressões: Um Espírito, Uma Vida, Uma Luz, Um Fogo.
Como interpretar tal imagem?

ESQUEMA 11




Primeiro, lembremos que pelo protocolo de interpretação que estabelecemos, esta ainda é a fase de inventário.

Estamos esclarecendo o que está escrito em cada parte do símbolo, pura e simplesmente, para depois tentarmos fazer a integração e interpretação.
Repito: mesmo ao interpretarmos estes símbolos, não montamos uma narrativa linear, mas sim uma narrativa possível composta de vários conceitos colocados lado a lado como um mosaico, com poucos pontos de encadeamento.
Senão, vejamos este trecho agora em análise. Chamo a atenção para o fato de que a figura está envolta por um losango, uma figura regular de quatro lados, e o número quatro aparecerá de forma recorrente ao longo de todo o símbolo. Isso nos remete a Empédocles de Agrigento e a Pitágoras, ambos cultuadores do quatro como símbolo de estabilidade. Os alquimistas seguiram esta determinação e assim, quatro eram os elementos básicos, fogo, terra, água e ar. Quatro eram as condições básicas como úmido e seco, quente e frio. Associavam-se esses conjuntos como se vê no quadro abaixo:

ESQUEMA 12







No segmento do símbolo que ora traduzimos, encontramos a partir deste contorno em losango este mesmo culto ao quatro, sendo que ao centro encontraremos a palavra HYLE, que é um conceito Aristotélico.
Desse modo, “Aristóteles sustentou que o composto, a proté ousía (por exemplo: esta árvore) resulta da união de dois princípios universais, a hylé ou matéria-prima universal, indeterminada (não é água, nem ar, nem fogo, nem terra, etc.) que não existe, com as formas das espécies (eidos), neste caso, com a forma comum de árvore. ”[1]
O Alquimista simbolista está apenas aristotelizando seu símbolo, dizendo que ao centro do círculo, que está cercado pelo losango, está a substancia que é a matéria prima de todas as outras e que nelas se diferencia, associando-a de tal forma as outras quatro manifestações que coloca um pequeno losango aos pés de HYLE, dentro do seu círculo central.
Os outros quatro níveis que se expandem a partir desse centro de círculo tem seu significado marcado por palavras divididas em quatro partes, espalhadas de forma a corresponder aos quatro pontos cardeais, Norte, Sul, Leste e Oeste.
Assim, no círculo mais externo, temos uma pequena armadilha, duas palavras espalhadas ao redor do centro.
Colocadas nos pontos cardeais, no entanto, em alemão antigo, a palavra T (oeste) – RU (norte) – CK (leste) - EM (sul). [TRUCKEN no alemão antigo ou TROKEN no contemporâneo-SECO]
Entre cada uma destas partes, vemos partes da palavra Natureza, NATURA, como NA, no Noroeste, TU no Nordeste, R no Sudeste e A no Sudoeste.
Depois temos, círculo por círculo, as palavras em forma de cruz, K A L T, F EU CH T e W A R M, portanto frio, úmido e quente.
Um problema do livro publicado pela AMORC Brasil é que os estados da matéria dentro dos círculos do símbolo não estão em alemão, muito menos em português, mas sim em inglês, sendo que na linha mais externa, correspondendo a seco, (TROKEN), em vez de DRY, seco em inglês como era de se esperar, encontramos uma aparente (eu supus) variação do alemão antigo, TERUCIN, enquanto os círculos mais internos estão todos em inglês, COLD, DAMP (úmido) e WARM. O que verifiquei, entretanto, foi que não pude traduzir este termo, T ERU C IN, já que não encontrei correspondente nem em alemão, nem em inglês, levando a suposição de erro de tradução e/ou de impressão puro e simples.
No trabalho de interpretação ou mesmo ainda no inventário, este é um percalço desnecessário para o hermeneuta e deveria se prestar mais atenção quando da edição, em uma obra deste quilate.
Os esquemas 12 e 13 esclarecem a estrutura do símbolo.


ESQUEMA 13






Estamos quase no final do inventário deste trecho que fica em situação central da figura, (que eu insisto, tem traços que seguem o modelo do corpo humano), área que me lembra a região da transição do “pescoço” se o sub símbolo da estrela de seis pontas for realmente a boca.



[1] http://filosofar.blogs.sapo.pt/tag/hyl%C3%A9

sexta-feira, 26 de maio de 2017

FIGURA DIVINA, UM SÍMBOLO ALQUIMICO: Va PARTE


por Mario Sales


2º SUB SÍMBOLO: A ESTRELA DE SEIS PONTAS OU A BOCA DO FIAT


É deste Deus onipresente e Onipotente que provém o Ato Criador, manifestado pela Graça. Aqui no símbolo Ele é chamado de Luz da Graça.


A estrela, com textos em inglês.

Já na estrela de seis pontas, símbolo do encontro entre o que vem de cima com o que está embaixo, a graça criadora se manifesta sempre como Luz da Graça, atributo da Eterna Invisível (e) Celestial Santíssima Trindade, frase escrita ao alto da estrela, em dois trechos, um a direita e outro a esquerda; esta Luz da Graça ou LUMEN GRATIAE oculta-se no segmento triangular que tem o vértice para cima, ao alto, protegendo ao centro o Verbo, a palavra (WORD), o som da criação, que os Hindus chamam de Om, e no Ocidente é conhecido pelo comando divino “Faça-se”, FIAT, em Latim. É importante ressaltar que na cultura cristã o próprio Jesus é o Verbo, manifestação de Deus na carne. No extremo inferior direito, encontramos o Espírito Santo e no extremo inferior esquerdo uma palavra ilegível em português na edição da Renes, mas não em alemão (VATER= PAI).
O outro triangulo que se entrelaça com este tem as palavras espírito a esquerda, ao alto; Deus, à direita, ao alto; e filho, abaixo, tocando a parte mais inferior da estrela, sendo que ao centro existe um interessante comentário lembrando que “a eternidade produz o tempo da natureza”.
Esta é uma frase poderosa que dá margem a muitas especulações.
Primeiro, a noção de que o tempo linear, que fundamenta nossa noção de história, é um, e apenas um segmento do eterno, como falamos que um terreno é um pequeno pedaço do espaço, ou que um segmento do círculo é apenas uma parte deste círculo, e que parece linear e reto apenas por que o círculo, imenso, tem um ângulo extremamente suave, que nos parece uma linha plana, ocultando sua condição de curva que ascende para depois cair.
O Eterno não tem limitações, mas o tempo linear tem. Mesmo que falemos em milênios, em determinado momento esses milênios, e este trecho da eternidade que é nossa história, se encerrarão, enquanto que o eterno permanecerá, impávido.
Impressionante.
Nota-se ainda que no desenho, deste círculo interno à estrela saem duas linhas que delimitam a ponta alta de um losango linhas estas que dirigem-se para baixo, especificando na imagem que o efeito da criação, do tempo e dos ciclos naturais e estações vêm, todos, do eterno, e se referem a um movimento do alto para baixo, um ato de criação e de interferência da chamada Criação, dando-lhe características próprias de temporalidade.
Esta reflexão não é original e foi lindamente representada no quadro “O Ancião dos Dias”, de Willian Blake. Estas linhas transcendem a parte inferior da estrela e vão abarcar todos os desenhos abaixo da estrela, demonstrando que tudo abaixo da estrela está contido no que hoje chamamos de espaço tempo determinado pelo Altíssimo.
Tanto a estrela exemplifica o ato criativo divino que em quatro de suas pontas a direita e a esquerda vemos as letras da palavra FIAT, o FAÇA-SE que tornou tudo que existe, real.






The Ancient of Days, de Willian Blake. Observem que da mão esquerda, a mão cardíaca, brotam raios de luz em um ângulo correspondente a alto de um losango. Os dois raios podem também simbolizar a natureza dual do mundo criado.



Ao Lado da estrela de seis pontas existem ainda alusões ao aspecto da temporalidade, e sua relação com a sua mãe, a eternidade, ou atemporalidade.
A frase é: “Nada mais é, nada mais foi, nada mais será jamais, na eternidade e no tempo. ”
É uma declaração assombrosa que reforça o que já tinha sido dito “ a eternidade produz o tempo da natureza”; é dessa inexistência de instantes, de durações, se Henri Bérgson nos permitir, que se constitui o que é eterno. A ausência de tempo é a ausência de movimento. O eterno é imóvel.
A criação não se desenvolve porque a roda não começou ainda a girar. É apenas quando um pedaço do eterno é arrancado e gira no espaço vazio que temos o movimento chamado tempo linear. Para Deus, um instante, semelhante aquele da gota que se eleva momentaneamente do lago para depois a ele retornar, como um soluço. Para nós, neste salto efêmero da gota, passaram-se milhões de instantes, de civilizações, de emoções. Nós existimos na natureza, dentro de seus ritmos, dentro desta fugidia gota; de fato, é “ a eternidade (que) produz o tempo da natureza”.
Mais então o que é eterno se torna limitado e passamos a níveis aonde a velocidade do fluxo da existência vai diminuindo e as coisas parecem mais sólidas e mais densas.
Estamos entrando no nível inferior da estrela, aonde, está escrito, estamos no campo do “Temporal visível terrestre” da “Santíssima Trindade”, colocando de outra forma, aonde A Trindade se manifesta na matéria.
Não é a toa que a ponta da estrela para baixo que penetra neste campo mais material tem dentro dela o nome do Filho, acompanhado do Fiat. O Filho está representando a manifestação da vontade (FAÇA-SE) de Deus, dando-se a conhecer aqueles que precisavam da experiência de testemunhar um Avatar, alguém que vive no tempo do Eterno, alguém que transcende a Morte, e que embora nascido de mulher, é puro espírito.

ESQUEMA 8


Abaixo da estrela está escrito “E Deus disse: ” e mais nada, como se para enfatizar que o que importa é que ele tenha pronunciado alguma coisa, o som que dá origem a criação agora material, o som do princípio.

sábado, 20 de maio de 2017

DESAFIO

por  Mario Sales

Aos leitores

Gostaria de pedir o auxílio de vocês. Embora existam prontas já 11 partes para serem publicadas, a interpretação do grande símbolo está praticamente encerrada, pois já entrei em sua fase final, mas dois obstáculos impedem esse encerramento. São imagens impossíveis de identificar, seja pela má qualidade e péssima nitidez, seja pelo hermetismo que possuem.
A primeira é a que está abaixo que se refere ao Sal Philosophorum. A unica coisa que consegui foi estabelecer que por trás desta cortina branca, seja de um vapor que sobe, ou de água que cai, existe uma torre.



Minha intenção era fazer esta interpretação sem recorrer a outros saberes, mas foi impossível evitar a comparação com esta carta do Tarô, chamada A Casa de Deus.


O problema da nitidez x tamanho é difícil de ser resolvido.



A segunda é sobre as árvores contempladas pelo Leão Verde, símbolo do Vitríolo, o dissolvente universal. Entre elas existe uma letra W de sentido ainda desconhecido para mim.
Por enquanto isso me desafia e se algum leitor tiver uma sugestão, agradeço.




FIGURA DIVINA, UM SÍMBOLO ALQUÍMICO IVa PARTE


por Mario Sales




Io SUB SÍMBOLO: A CABEÇA OU O CÍRCULO DIVINO


O círculo é maravilhoso e complexo, possuindo dentro de si cinco níveis diferentes, do mais interno para o mais externo.

ESQUEMA 7


Em alemão e português

No círculo mais interno, o Centro, está a personalidade divina, descrita como a “Eterna Natureza Incriada”.
No nível imediatamente superior, o simbolista escreveu “A eterna quinta essência”, referindo-se ao elemento invisível que antecederia em densidade, os quatro elementos conhecidos.
No próximo círculo o simbolista colocou a “Matéria Prima de Deus”, sobre a qual falaremos a frente.
No quarto nível, chama a atenção para o mistério da Trindade, escrevendo “Três uni es”, três em um, “é a essência trina da divina pessoa”.
No quinto e mais externo nível, ele escreve três frases: Espírito de Deus; Vida de Deus; Luz da Humanidade, sendo que a palavra humanidade está separada em dois pedaços (human----idade) e no meio deles está escrito “divino fogo”.
É interessante que esta quebra de continuidade da palavra preserva a palavra “human” que significa humano, sendo que a expressão “divino fogo” vem em seguida, dando a impressão a este intérprete de que o divino fogo ou espírito de Deus garante a natureza e a existência do que é humano em nós, e sua transformação em uma espécie inteira de seres. A vida em nós, aquela mesma vida que repassamos aos nossos descendentes através de nosso esperma, é apenas a vestimenta do espírito de Deus em nós, o fogo divino que nos criou, sustenta e mantém, enfim, nos faz existir.
Em meio a todos nós, concluo, Deus caminha.
Não existimos por causa da água em nossos corpos, ou do ar em nossos pulmões, ou do alimento em nosso estômago e intestinos.
Existimos, apenas e tão somente, pela presença de Deus em nós e entre nós. Deus é nous a energia que os rosacruzes reconhecem como fonte da vida.
Outra interpretação que não deve ser olvidada é que, quando falamos da trindade, a Luz da Humanidade é o Cristo, Jesus, que repetindo o mito de Prometeu, trouxe-nos em seu ministério o Fogo Divino, ato pelo qual, do mesmo modo que o deus mitológico, pagou um alto preço.
Voltemos atrás e discorramos um pouco sobre o segundo círculo, aonde se lê “a eterna quinta essência”.
O conceito de “quinta essência” é aristotélico.
Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C.), discípulo de Platão, especulou que existiria um elemento etéreo, quase imaterial, portanto invisível, distinto dos quatro tipos de manifestações materiais (terra, fogo, água e ar), o qual ele chamou de quinta essência, conhecido mais tarde também pelo nome de éter.
É, portanto, razoável, que entre a Eterna Natureza Incriada e a Criação, o simbolista pressuponha a existência desta matéria pouco densa que antecede todas as outras.
Esta quinta essência preencheria o Cosmos, fora do ambiente terrestre, mas na terra, supunha-se haver uma matéria básica da qual todas as coisas em todos os quatro estágios surgiriam. A essa matéria fundamental chamou-se a matéria primeira, ou matéria prima.
O debate sobre sua natureza começou com os Jônios (Tales, Anaximandro e Anaxímenes de Mileto, além de Xenófanes de Jônia e, finalmente, Heráclito de Éfeso), um dando para a água este título, outro ao ar, outro a terra e outro ao fogo.
Empédocles de Agrigento, médico e filósofo, supôs que nenhum elemento sozinho poderia ter esse título e só concebia a existência de todas as coisas como uma combinação dos quatro elementos básicos.
A idéia de que entre o éter no espaço e os quatro elementos na terra, existisse esta matéria prima como intermediária era muito bem quista na época dos alquimistas e assim, este símbolo e estas crenças, falam desta transição.
Existe nos cinco níveis dentro deste círculo o conceito de gradualidade, de manifestação paulatina das coisas visíveis a partir de uma causa invisível.
O curioso é que o simbolista coloca antes ainda do material o mistério da Trindade. Talvez daí o aviso anterior “ entende de acordo com a filosofia celeste e não terrestre”. Ele está falando das coisas espirituais, aonde a densidade de tudo é tão leve e sutil que falamos em um mundo espiritual.
Dentro do círculo ainda estamos dentro do próprio Deus Todo Poderoso, ainda estamos em seu mundo imediato, aonde habitam além D’Ele apenas os anjos, e entre estes, somente os que, na Hierarquia do Pseudo-Areopagita, estão mais próximos do criador: Serafins, Querubins e Tronos.
Por isso, só em um plano mais perto do humano vamos encontrar a manifestação de Deus na Terra, o Cristo, a parte de Deus que chegou a tocar o solo terrestre, na concepção religiosa católica cristã.
É apenas no quinto círculo, o mais externo, que falaremos da humanidade, mas no sentido de Adam Kadmon, a humanidade como um todo, como uma experiência de Deus, parte da tríade já anunciada no 4° círculo. Se lá encontramos a Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, aqui no 5° círculo, encontramos as frases Espírito de Deus, Vida de Deus, Luz da Humanidade, correspondendo cada uma delas a um dos membros da tríade divina. (Espírito Santo (de Deus), Deus Pai (Vida) e Deus Filho (Luz da Humanidade).
Deus no princípio, Deus no fim. Deus, o trino, vai de um ao outro Centro.





sexta-feira, 12 de maio de 2017

FIGURA DIVINA, UM SÍMBOLO ALQUIMICO. IIIa PARTE



Senão vejamos:

ESQUEMA 4





Dividindo o símbolo em três partes, a parte do alto tem como destaque uma imagem central, composta de um círculo dourado em cima de uma estrela de seis pontas.
O círculo e a estrela estão circundados pelo mesmo tipo de franja amarela, mais espessa que as que se seguirão abaixo, o que parece ter a intenção de estabelecer um vínculo entre estes dois trechos iniciais mais forte do que com os outros segmentos.
Como disse, o símbolo inteiro, lembra a forma de um corpo humano, sendo a "cabeça" este círculo ao alto, e a estrela de seis pontas a "boca" que cria (vejam que em volta da estrela lê-se FIAT).
O círculo, como comentei antes, representará principalmente o conceito de eterno, já que não tem início nem fim.
Os textos do símbolo que estão ao lado desse círculo devem também ser lidos da maneira correta para serem compreendidos.
encontramos o seguinte esquema:


ESQUEMA 5



O autor do esquema teve o cuidado de marcar com setas os trechos das frases que se interligam e que os simbolistas daquela época não tiveram o cuidado de dispor de modo mais racional sobre o desenho. São 22 textos, entre eles doze frases. Vamos nos ater a parte que estamos estudando.


ESQUEMA 6
  



Primeiro: o texto está em Latim e Alemão. Na publicação da AMORC encontramos a maior parte em português.
Segundo: no esquema acima a primeira frase é:

FIGURA DIVINA THEOSOP.                  CABALIST. NEC NON MAGICA PHILOSOPH.                             & CHIMICA

O artifício de escrever uma parte da palavra e interrompê-la com um ponto, o que não chega a ser nem mesmo uma abreviatura, mas uma simples interrupção, uma espécie de codificação infantil e primária, é uma técnica comum em textos esotéricos da época, hoje preservado apenas e principalmente pelos maçons.
Duas palavras chamam atenção no símbolo onde aparecem assim:



Vejam: há uma letra parecida com um f em ambas as palavras (theo[f]oph, philo[f]oph), mas por sua posição identificamos como S, em um modo de grafia comum em língua alemã. Entendemos então a palavra seguinte como CABALIST, e não CABALIFT, como possa parecer.
O trecho está em Latim e assim vamos traduzi-lo:
FORMA DIVINA, TEOSÓFICA, CABALISTICA, NÃO APENAS MÁGICA, FILOSOFICA E QUIMICA
Esse é o título do trabalho, que antecipa que neste símbolo serão reunidos todos os aspectos da Criação como manifestação de Deus, sua relação com o Divino, e o papel e natureza do ser humano neste drama. Chamo atenção aqui para apalavra CABALISTICA, a qual, considerando estarmos dentro do universo simbólico alquímico referir-se-á, necessariamente, não a Cabala Judaica, mas a Cabala Cristã, de Pico de la Mirandola, alter ego da Alquimia.
Ainda existem outras linhas escritas.
A segunda diz: “O sol eterno em sua natureza e poder divinos”, logo abaixo do título principal e ladeando o topo do círculo amarelo, cor do Sol, cor do ouro, identificando o círculo em questão com Deus Todo Poderoso, “O sol eterno”, Aquele que está no alto, no topo de tudo, que é circular e por isso eterno, sem princípio nem fim.
A próxima frase, também em latim, pode se traduzir:
“Deus trino foi do centro ao centro”, perto do maior diâmetro do Círculo superior, cabeça de todo o símbolo, como a atestar que Deus, a Trindade, está em toda parte, onipresente.
E logo abaixo temos a frase: “Entende de acordo com a filosofia Celeste e não (a) Terrestre”, o que orienta nossa interpretação no sentido de evitar as armadilhas do intelectualismo e manter a mente focada no significado espiritual desse símbolo.

Vamos analisar trecho a trecho.


(CONTINUA NA PRÓXIMA SEMANA)

sexta-feira, 5 de maio de 2017

FIGURA DIVINA, UM SÍMBOLO ALQUÍMICO. IIa PARTE


por Mario Sales




O símbolo que tentaremos interpretar pode ser encontrado no livro “Símbolos Rosacruzes do século XVI e XVII” pág. 44. Usaremos como apoio o mesmo símbolo em alemão e inglês, disponíveis na Internet.
Primeiro, vamos lembrar de que o contexto deste símbolo é a Alquimia e seus conceitos.
Segundo, devemos ter em mente que para interpretações desta magnitude, é mais adequado aplicarmos o protocolo de duas fases: a primeira, a fase do Inventário, aonde levantamos e identificamos as diversas imagens e textos da composição; e numa segunda fase, a fase da Interpretação, aonde tentamos dar um sentido ao conjunto de dados amealhados pelo inventário.
Lembremos também que nestes exercícios de interpretação não montamos uma narrativa linear, mas sim a narrativa possível a partir da combinação de vários conceitos colocados lado a lado, só que como um mosaico, com poucos pontos de encadeamento. Trata-se de um belíssimo símbolo com um sem número de possibilidades interpretativas. Recomendamos fortemente que se tenha o livro citado e que se acompanhe a descrição com a imagem aberta.


A primeira coisa a destacar é a sua forma que obedece como a maioria dos símbolos desta época, uma disposição de características humanoides, com uma cabeça, um pescoço, ou zona de transição, um tórax com um núcleo cardíaco, e um abdômen a completar o torso. A “cabeça” receberá a função de morada divina, o lugar mais alto do corpo, a "boca" representará a área de manifestação da vontade pela palavra, pela ordem do FAÇA-SE, do FIAT, enquanto o “pescoço” fará o papel de transição entre mundo espiritual e material; e uma vez no mundo material, haverá o território mais elevado, do ar e do sangue, e um mais baixo, dos intestinos e excrementos, enfim, a matéria mais grosseira. Finalmente a sustentação, pernas e pés do símbolo.

ESQUEMA 3

                 
                           


Para evitar o equívoco, no entanto, e garantir que a mensagem fosse passada de modo o mais fiel possível a intenção de quem elaborou, ele é guarnecido, à direita e à esquerda, acima e abaixo e mesmo entre as figuras centrais, com textos explicativos que esclarecem e oferecem novos significados e em si fazem parte do símbolo no seu conjunto.
A importância destes textos é que eles são uma das chaves que abrem as sucessivas portas do significado oculto deste magnífico símbolo.


(CONTINUA NA PRÓXIMA SEMANA)



sexta-feira, 28 de abril de 2017

FIGURA DIVINA, UM SÍMBOLO ALQUÍMICO. Ia PARTE


Por Mario Sales FRC, SI



A falta de Frater Reginaldo é sempre sentida, mas talvez exatamente nestas oportunidades, quando por mera diversão mergulho em símbolos rosacruzes antigos, é que sua ausência se faz mais notável. Ele gostava desse exercício tanto quanto eu e passávamos horas, às vezes dias, em esforços hermenêuticos atrás do esclarecimento da forma de um símbolo que, depois de diversas publicações, aparecia apagado; mas “deixemos de coisa e cuidemos da vida, pois senão vem a morte ou coisa parecida e nos arrasta moços, sem ter visto a vida”.
Vamos lá então.
A questão fundamental deste ensaio é demonstrar que um símbolo não pode ter tantas interpretações quantas quisermos lhe impor, mas sim um número de interpretações limitado, definidos em um contexto.
Já elaborei sobre isso e acredito respondi esta questão[1] mostrando que existem duas possibilidades:
1. Cada símbolo possui sim um significado definido e claro, mas ao relacionar-se com outros símbolos estabelece combinações diferentes, combinações estas que em si terão novos significados, sem que o significado do símbolo se perca.
O exemplo aqui são as letras, onde A é sempre A e B sempre B; L, sempre será um L e O, sempre e apenas O; no entanto, [ESQUEMA 1] podemos reuni-los em um conjunto, B O L A, que imediatamente trará a nossa consciência a imagem de uma esfera, algo diferente de cada letra isolada. Se recombinarmos as letras em outra sequência, como L O B A, nossa mente imediatamente visualiza um animal, que tem características próprias, definidas.



ESQUEMA 1
                                               


Claro que as mesmas letras deverão estar contextualizadas em algum idioma determinado, já que a mesma combinação de letras em inglês não daria origem as palavras supramencionadas. (BOLA sendo BALL e LOBA, WOLF).
Daí concluirmos que um símbolo tem um significado que lhe é próprio e específico, e mesmo assim, dependendo do contexto e da sua combinação com outros símbolos, ele pode dar origem a uma interpretação diferente daquela anterior.
Por isso em Alquimia o Sol é símbolo da Luz e do Ouro; já o Leão é símbolo da Matéria, do que é estável, fixo; mas no símbolo do Leão Verde comendo o Sol, este Sol representará a Sabedoria sendo absorvida, ou a Força Vital que deve ser destilada pela matéria, o VITRIOLO, o ácido sulfúrico, modificando sua interpretação.
2. Pode-se encarar o símbolo, além disso, de maneiras diferentes daquela que o seu criador supôs primitivamente, como se o simbolista compusesse o símbolo por duas vias: uma consciente e outra subconsciente, de tal forma que esta via mais subjetiva possa até passar despercebida para ele mesmo, simbolista criador.
É o caso de algumas formas geométricas como o círculo que em princípio tem em si o significado de circularidade, mas se analisado de modo mais profundo pode significar a Eternidade, já que não tem princípio nem fim.
O primeiro Círculo desenhado provavelmente não tinha em si a responsabilidade de representar o que é eterno, mas com o passar do tempo e através da reflexão sobre sua forma, este interessante significado tornou-se óbvio para quem o contemplava.
ESQUEMA 2


O que é importante é lembrar que o símbolo de per si, quando usado para transmitir uma mensagem específica, pode não ser claro o suficiente para fazê-lo, de forma que é necessário que textos acompanhem este símbolo, orientando o interpretador no caminho hermenêutico correto.
Quando os símbolos são compostos, com várias partes se articulando umas com as outras, textos são fundamentais para fazer a ligação entre estas partes.
Considerando que eu faço a imagem para ocultar o que quero dizer, acrescentar frases elucidadoras não faria o menor sentido. Portanto estes textos tentam ser tão herméticos quantos os símbolos que querem ajudar a compor, e muitas vezes recorrem, neste símbolo em particular que usarei como exemplo, a apresentações poéticas, com frases curtas, repleto de referências alquímicas, linguagem corrente entre os esoteristas da época.
Impressiona a beleza plástica dessas construções gráficas, mesmo ressaltando a simplicidade de suas inter-relações. Nem por isso, os conceitos que elas propagam, deixam de ter grande profundidade.


(CONTINUA NA PRÓXIMA SEMANA)



[1] Recomendo a leitura de três ensaios daqui do blog: “O Navio, o Oceano e o Farol” de 17 de fevereiro de 2011; "Os símbolos estáticos, os dinâmicos e os pré-dinâmicos ou suavizados" de 23 de fevereiro de 2011; e “O que simbolizam os símbolos” de 5 de agosto de 2013

sexta-feira, 21 de abril de 2017

FIGURA DIVINA, SIMBOLO ESOTÉRICO E ALQUIMICO APRESENTAÇÃO

 por Mario Sales



Este lindo símbolo será nosso objeto de estudo e divertimento nas próximas semanas. Pode ser encontrado no livro "Símbolos Secretos dos Rosacruzes séc.XVI e XVII", da Ed. Renes, publicado Ano R+C 3331, 1978 no calendário comum. 
Publicarei o ensaio em várias partes por causa do tamanho.
Ainda não sei bem o critério, mas subdividi a análise pelos sub símbolos que fazem parte do conjunto.
Semana que vem, publicarei a introdução.
Paz Profunda





sábado, 1 de abril de 2017

SÍMBOLOS, SIGNIFICADO E SIGNIFICANTE EM ESOTERISMO


por Mario Sales


Ferdinand de Saussure




Foi Ferdinand de Saussure, formulador das bases da Semiótica, salvo engano, que trouxe a luz o conceito de significante e significado, descrito como os dois lados da mesma moeda. O primeiro, uma imagem acústica, no campo da forma; o segundo, um conceito, no plano do conteúdo.
É também um de seus conceitos cardeais o conceito de Valor de um signo. Um signo só adquire valor na medida que não é (aspecto diferencial e negativo) um outro signo qualquer.
Como exemplo, ele cita o cão e o homem. A condição de mamífero não os distingue, mas a condição de quadrúpede sim, já que o homem é bípede. Podem haver outros quadrúpedes, mas nenhum será o Homem, que é bípede.
Um signo, para ter valor, portanto, deve ter qualidades próprias que o distingam de outros e impeça a confusão e o equívoco.




Wittgenstein


Estes foram os primórdios de uma área independente de pesquisa e saber, nomeada de Linguística, e que daria frutos importantes anos mais tarde com Wittgenstein ( Ludwig Joseph Johann Wittgenstein [ Viena 26 de abril 1889; Cambridge 29 de abril de 1951] ) e outros.
O que me chama mais atenção neste conceito saussiriano é a compreensão que lança sobre outras áreas de saber, entre elas a análise dos símbolos.
Ao interpretar símbolos muitas vezes temos a irresistível tendência de tentarmos interpretar o símbolo de uma tradição recorrendo aos conceitos de outra, como se um mesmo significante pudesse ter o mesmo significado em culturas diferentes.
E pode. Só que a interpretação não será prejudicada se e somente se soubermos com clareza em qual contexto estamos trabalhando, em qual terreno estamos pisando.
Este comentário tem a ver com o trabalho de leitura e interpretação, no qual estou empenhado, de um texto clássico dos rosacruzes, um de seus três manifestos primitivos, o Casamento Alquímico ou As Bodas Alquímicas de Cristian Rosenkreutz, juntamente com Sóror Lilian Hage, da Loja Santos, idealizadora deste esforço, sóror Odete Cardozo e Frater Marcos Rogério, ambos da loja São Paulo.
Alquimia nunca foi uma área de interesse para mim, confesso. Meu conhecimento neste campo sempre foi e ainda é rudimentar. No entanto com sinceridade e paciência, e com a ajuda de alguém que domine bem aquele campo, tudo pode ser compreendido e qualquer conceito torna-se claro aos nossos olhos.
Assim como foi em Teosofia nos últimos 4 anos, com a ajuda e a paciência de Flavio, Sóror Lilian insistiu para que fizéssemos a leitura, e foi agregando valor ao trabalho, trazendo para nossos encontros via Skype das noites de terça feira, dois outros rosacruzes, também palestrantes da Ordem e apreciadores deste mesmo texto.
Usamos a publicação de capa amarela da Biblioteca Rosacruz com o título “A Trilogia Rosacruz”, organizada pelo saudoso Grande Mestre Charles Vega Parucker, de 1998.
Mesmo assim, durante nossas leituras, procuramos apoio interpretativo nos textos de Jack Courtis, disponíveis no site da Confraternidade Rosa Cruz, CRC, organização fundada por nosso antigo imperator, Gary Lewis. Não existe que eu saiba, texto em português de algum membro de AMORC, que trate da interpretação deste texto.
A narrativa é dividida, como é de hábito, em sete dias, e estamos terminando a releitura do terceiro, com nossos novos companheiros de esforço.
Foi ali que encontramos um trecho que me levou a essas reflexões de hoje.
Como em outras passagens, Courtis, na tentativa de ser didático, o que é bom, recorre a conceitos cabalísticos para explicar passagens do texto, um documento clássico do movimento alquímico.
Aquilo me causou desconforto epistêmico e hermenêutico.
Hermenêutico porque a interpretação pode ser contaminada se usamos, como vimos acima conceitos de tradições diferentes como se fossem o mesmo.
E epistêmico porque nada nos garante que estamos sendo fiéis ao significado daquele símbolo ao tentar compreendê-lo através de outro viés.
A abordagem comparativa não passa de um vício interpretativo. Temos, todos nós, forte tendência a querer entender um conceito que não compreendemos através de comparações com outros que compreendemos.





O LEÃO, COMO SÍMBOLO

Tanto é possível que, ao usar conceitos de outra tradição para explicar a Alquimia, eu torne mais claro aquilo que eu quero explicar, quanto posso estar desvirtuando totalmente o conceito a ser esclarecido, já que tradições diferentes usam significados e significantes diversos.
Pior do que isso: podem usar significantes iguais com significados diferentes como é o caso das figuras de animais, recorrentes em textos esotéricos.
É o caso do Leão.
A imagem do Leão é um signo recorrente. Aparece desde o Velho Testamento, nas visões de Ezequiel, aonde surge como uma das quatro faces dos Anjos de quatro asas que sustentam o carro do Altíssimo e ainda, na mesma Bíblia, no novo testamento, como símbolo clássico de um dos evangelistas. Aparece também nos textos alquímicos, inclusive aqui no texto das Bodas.



As quatro cabeças dos Querubins de Ezequiel: Leão, Homem, Boi e Águia




Se para Ezequiel este significante (Leão) não tem um significado claro, mas um caráter profético, no novo testamento o mesmo Leão será o representante do evangelista Marcos. (O Homem simbolizará sempre Mateus; Lucas será simbolizado pelo carneiro e João pela Águia).
No trecho em estudo, no terceiro dia, lemos o seguinte:
“O jardim, que ultimamente estava cheio, logo se esvaziou; de modo que, além dos soldados, não havia mais ninguém. Quando tudo terminou, e o silêncio foi mantido por cinco minutos, veio um belo unicórnio branco como a neve com um colar dourado (tendo nele inscritas certas letras) sobre seu pescoço.
No mesmo lugar, inclinou-se sobre as duas patas dianteiras, como se demonstrasse honra ao LEÃO, que estava tão imóvel sobre a fonte, que eu o tomei por pedra ou bronze.
O LEÃO imediatamente tomou a espada nua sobre sua pata, e a quebrou no meio, em dois pedaços e afundou-os na fonte. 
Depois disso, o LEÃO rugiu muito tempo, até que uma pomba branca trouxe um ramo de oliveira em seu bico, que o LEÃO devorou ​​em um instante, e assim foi acalmado.
E assim o unicórnio voltou ao seu lugar com alegria. ”
Como interpretar essa passagem?
Jack Courtis explica o simbolismo acima com esse comentário:

“Observe o silêncio. Por que é enfatizado? O que é isso? Antes do "início", havia apenas um silêncio como esse. Significa uma mudança significativa. Nos Mistérios, tal silêncio é uma pausa no ritmo cósmico. Precisamos ouvir o silêncio. E quanto aos animais?
O unicórnio é o portador da iniciação. Sua brancura se refere ao nosso aspecto intuitivo que, por sua vez, é o próprio sujeito do processo iniciático.
O LEÃO é um símbolo do sol, Tiferet e, portanto, do Filho. O fato de possuir uma espada nos diz que o Filho está no caminho da espada, Zain, na Árvore da Vida, e nossa faculdade de insight e discriminação correta.
Ao quebrar a espada, o leão demonstra que o caminho para a Grande Mãe está agora claro. O candidato para iniciação pode agora prosseguir. Devemos observar que a espada quebrada afundou na fonte, o Terror no Limiar voltou para as profundezas da nossa consciência, não é mais um perigo. A pomba branca como um símbolo de nosso veículo de consciência, espírito, traz o ramo de oliveira como uma mensagem de um nível superior.
Ao absorver a mensagem, o aspecto de LEÃO (fogo) de nossa natureza torna-se agora silencioso.
Tendo feito seu trabalho de iniciação, o unicórnio sai. ”


Bom, talvez nesse trecho não se veja o recurso à tradição hebraica de forma tão marcante, mas em alguns pontos já se nota a inevitável correlação entre símbolos alquímicos e cabalísticos.
Aqui temos vários símbolos a considerar se levarmos em conta apenas o que o texto nos oferece.
No Jardim referido, temos:
a. A Fonte
b. O LEÃO
c. A espada quebrada sob suas patas
d. O Unicórnio
e. A Pomba
f. O ramo de Oliveira em seu bico
Seis elementos simbólicos que devem ser trabalhados e identificados com clareza para que a imagem faça sentido.
Se, esta é minha opinião, não nos ativermos ao significado alquímico desses seis símbolos, pode ser que cometamos uma interpretação inadequada.



Os quatro tipos de leão na heráldica: fonte, "Os Símbolos Místicos",Brenda Mallon, Ed. Larousse

Na explicação de Courtis, ele nos fala de pelo menos dois significados para O LEÃO: símbolo do SOL, astro rei, assim como O LEÃO é o “Rei da floresta e dos animais”; e depois O LEÃO como símbolo do aspecto FOGO.
Em Alquimia, existe ainda um terceiro significado para este significante: O LEÃO VERDE, que devora o SOL. Este é referido como o íntimo do alquimista, o processo do VITRIOL.[1]





Já o Livro dos Símbolos da Ed Taschen, diz:
O LEÃO VERDE, que devora o SOL evoca a forma como as energias mercuriais furtivas da psique instintiva podem sobrepor-se até ao calor escaldante do intelecto, sujeitando a mente a terrores violentos de escuridão e de decadência. ”[2]
Já no livro de David Fontana “A Linguagem dos Símbolos” da Publifolha, encontramos o seguinte trecho na página:
O LEÃO VERDE, que devora o SOL era um poderoso símbolo da força vital que deveria ser destilada da matéria bruta. No nível físico representava o VITRÍOLO (ácido sulfúrico) e o ácido nítrico, fortes o suficiente para dissolver até mesmo o Ouro, (simbolizado pelo SOL).
O que deduzimos destes trechos?
Que a frase “O LEÃO representa...” deveria ser substituída por “O LEÃO pode também representar...” de forma a tornar o Significante flexível a muitos Significados, a Forma, aceitando vários conteúdos possíveis.
Fica evidente então que, no caso dos símbolos, Forma e Conteúdo formam pares variáveis, de acordo com o contexto cultural religioso (O LEÃO como símbolo do Evangelista Cristão Marcos, ou como símbolo do Cristo, O LEÃO DE JUDÁ, etc) ou esotérico (as várias e diferentes apresentações do LEÃO na Alquimia, seja ele um LEÃO apenas ou o chamado LEÃO VERDE que devora O SOL)



E o que dizer da espada?; mais, da espada quebrada?
A Fonte como símbolo de nossa consciência, o Unicornio como símbolo da Magia e da Iniciação, a pomba como símbolo do mensageiro de esferas superiores de nosso ser, nossa porção do Espírito Santo em nós e o Ramo de Oliveira como uma mensagem para o Leão, aí travestido com seu quarto significado, o de representante de nosso lado material e instintivo, compreende-se bem no contexto alquímico.
A espada, entretanto, se perde.
Falar que “o Leão possuir a espada é sinal de que o Filho está no caminho da espada” deixa mais dúvidas que certezas.
Qual é este “caminho da espada”?
Em todos os livros que pude pesquisar a Espada é símbolo de força, autoridade ou justiça. Quebrá-la não é um bom sinal. Significa que uma dessas qualidades foi perdida.
Em nenhum texto que consultei encontrei qualquer referência 
ao comentário feito por Jack Courtis de que “ao quebrar a espada, O Leão demonstra que o caminho para a Grande Mãe está agora claro. O candidato para iniciação pode agora prosseguir. ”
Ao invés disso, em um livro que adquiri recentemente, “Meditações sobre o Tratado da Pedra Filosofal de Lambspring”, de Patrick Paul, publicado pela Ed. Polar em dois volumes, lemos na página 83 no final, continuando no alto da 84, do primeiro volume, que “essa força de separação, de racionalização, significa(ndo) uma possibilidade de poder sobre as atitudes negativas. Além disso, a razão, um pouco como a aposta de Pascal (veja ao final), pode nos dirigir para a intuição de uma realidade que nos escapa, mais espiritual. Nesse sentido, aliás, a espada é o símbolo da guerra santa, do combate contra a ignorância para alcançar a pura luz (cavalaria). Ela é o Verbo Espada, o tetragrama divino Iod He Vav He, ou ainda a arma do Arcanjo Miguel em seu combate para vencer o Dragão. ”
A Espada é, pois, símbolo de Força, de Ação, de Intervenção Justa e sua destruição e quebra em duas partes nunca significou algo positivo, como insinua Jack Courtis em seu comentário (relembro o episódio da mitologia britânica, da quebra de Excalibur na disputa entre Artur e Lacelot, que implicou em grave arrependimento por parte do Rei, o que comoveu a Dama do Lago que recompôs a Espada Mágica e a devolveu ao Rei).
Neste particular, lembro que o comentador recorreu, na sua explicação, à um dos caminhos da Árvore da Vida, Zain, falando da simbologia desta sefira como Intuição e Discriminação correta, como explicação dessa espada alquímica quebrada. 
O caminho representado por Zayn, entre a sefira Binah e Tiferet é chamado de “caminho da divina justiça”, justiça, divina ou não, que pode ser muito bem representada pela espada, mas no ir a Cabala e voltar para a Alquimia, quebrar a espada continua sendo uma imagem que propõe algo ruim e não um processo de libertação do medo.




Ora, a partir dessas considerações, fica mais claro o risco de tentar traduzir um esquema simbólico de um contexto através do arcabouço simbólico de outro.
Neste último texto, como disse, a intervenção da Cabala na Alquimia foi discreta.
Olhemos, no entanto o trecho abaixo, da página 194, penúltimo parágrafo da edição citada de "A Trilogia dos Rosacruzes":

“Quando o julgamento estava quase terminando, não restava mais ninguém, a não ser nós, pobres cães acorrentados dois a dois, postos de lado. Por fim, um dos capitães deu um passo adiante e disse: - Senhora, se apraz a Vossa Graça, peço que esses pobres homens que reconheceram seu mal-entendido, também sejam colocados na balança, sem que eles tenham nenhum perigo de pena, para vermos se qualquer coisa que seja certa pode ser encontrada entre eles ". Minha primeira reação foi de profunda aflição. Em meu calvário, eu havia tido ao menos o consolador pensamento de que não seria obrigado a me expor à vergonha e de que não me arriscaria a ser expulso da balança a chicotadas; e eu estava convencido de que muitos prisioneiros teriam agora preferido passar dez noites ao nosso lado no salão. ”

Esta é a interpretação de Jack Courtis do site da Confraternidade Rosa Cruz sobre este trecho de As Bodas Alquímicas:

"Um julgamento diferente deve agora acontecer. CRC será julgado, mas sem penalidade por falha. É porque ele já foi bem-sucedido? Se sim, qual foi o verdadeiro teste?
Talvez uma pista esteja na referência a ficar 10 noites no hall. Há 10 sefirot na Árvore da Vida. Se estamos trabalhando validamente com uma sefira sem saber, podemos simbolizar este trabalho pela imagem de passar uma noite no salão. Depois de 10 noites, trabalhamos com toda a Árvore e então podemos ser julgados sem risco de punição, se falharmos. Isso porque, nesta fase, o fracasso não tem uma qualidade moral. Tal fracasso não se baseia em motivos malignos e alegações falsas."

Neste trecho, sublinhado por mim, a intervenção da simbologia cabalística é intensa. É quase como se não houvesse uma linguagem ou um discurso simbólico específico alquímico para explicar um texto da Alquimia.
Era a isto que eu me referia.
Essas dez noites no salão terão algo a ver necessariamente com as dez sefirot da Árvore da Vida?
Existirá outra explicação, especificamente alquímica, possível de ser desenvolvida?
Esta é a questão.
Antes de encerrar estas reflexões gostaria de sugerir a todos um vídeo do cientista Richard Feyman que me inspirou nesta angustia epistemológica, disponível no YouTube no endereço https://www.youtube.com/watch?v=geMcbvYcVCs
Nele, Feyman, a partir de uma simples pergunta sobre ação dos ímãs, tece uma erudita reflexão sobre a natureza das perguntas e a possibilidade das respostas a partir da compreensão do interlocutor, discutindo, além disso, aspectos da didática e afirmando que, às vezes, ser didático é trair a verdade na busca pelo entendimento.


[1] http://www.gnose.org.br/leao_verde/
[2]Livro dos Símbolos da Ed Taschen, Pág 270

A aposta de Pacal
se você acredita em Deus e estiver certo, você terá um ganho infinito;
se você acredita em Deus e estiver errado, você terá uma perda finita;
se você não acredita em Deus e estiver certo, você terá um ganho finito;
se você não acredita em Deus e estiver errado, você terá uma perda infinita.