Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sábado, 28 de dezembro de 2013

INTERDISCIPLINARIDADES VIÁVEIS E INVIÁVEIS

por Mario Sales, FRC,SI,CRC





A URCI, a Universidade Rosacruz Internacional, com o apoio da Grande Loja da AMORC para a Língua Portuguesa, está envolvida, fazem alguns anos em um projeto de estudo ligado a busca de diálogo, por seus organizadores chamado Interdisciplinar, entre a Religião ou, mais especificamente, o Misticismo, e a Ciência.
Considero, desde o início, este esforço improdutivo e inviável, por várias razões, que tentarei descrever e explicar abaixo.
Imaginem o primeiro contato entre duas tribos que nunca se viram antes e que falam idiomas diferentes.
Toda vez que duas linguagens e formas de representação conceitual do mundo diferentes se encontram, reza a história, os primeiros contatos são baseados na mímica, que expressa através de gestos a nomenclatura das coisas em cada linguagem.
Assim, se uma flor chamar-se "flor" em uma língua, e "bolor" em outra, e houver uma flor por perto de dois representantes, um de uma tribo e outro de outra, um deles apontará para a flor e dirá "flor", tendo o cuidado de mostrar que se refere a planta e não ao dedo apontado, pois até os gestos que consideramos óbvios não o são em um encontro desta natureza. Mesmo os gestos de uma mímica qualquer seguem os costumes daquela cultura que faz a mímica.
Então, neste hipotético encontro, um apontará para a flor e dirá "flor", tentando associar a coisa à palavra que a designa em sua linguagem. O outro, espera-se, em resposta, considerando que o interesse em aprender um com o outro seja mútuo, (outra variável que precisamos considerar), apontará para a mesma flor e dirá "bolor", indicando que, na sua língua é assim que se denomina aquele vegetal.
Todos hão de concordar que, antes da palavra que designa a flor, o mais importante recurso desta tentativa de harmonização de línguas e culturas diferentes é a flor em si. 
Sem algo concreto comum a ambas as culturas, não se teria como estabelecer um padrão sobre o qual se trabalhar na concepção de uma linguagem comum.
São precisos, pois, fatos e objetos palpáveis e concretos comuns para depois iniciarmos a discussão teórica, verbal.
Como brilhantemente mostrou Foucault em As Palavras e as Coisas, a linguagem conta uma história do mundo, descrevendo-o e , ao descrevê-lo, transmite valores e compreensões. Mas antes de descrever o mundo é preciso que exista o mundo em si, real, ("Lebens Welt", "O Mundo da Vida", a expressão consagrada do mestre da hermenêutica alemão, Jürgen Habermas[1]), a ser descrito, uma experiência comum a ambas as tribos, mesmo que cada tribo atribua a este mundo concreto valores e nomes diferentes.



Esta é uma questão radical ( ou seja, da raiz) na discussão do tema Interdisciplinariedade.
Primeiro, como foi dito, para que duas comunidades ou dois saberes, A e B, procurem conversar e chegar a uma linguagem comum, tem de haver interesse comum neste encontro. 
E o interesse comum pressupõe que A veja em B, e vice versa, algum lucro neste encontro.
Se a comunidade A supor que a comunidade B nada tem a lhe trazer de interessante, manter-se-á distante.
Existem interesses que movem estas aproximações.
Assim, um outro aspecto, é que não é possível construir-se linguagens comuns a não ser com interesses comuns bem definidos e específicos.
Outro aspecto é que o Todo não conversa com o Todo, mas apenas partes de cada Todo conversam entre si.
Eu explico. Vejo muita preocupação em estabelecer-se uma conversação entre a religião e a ciência, por exemplo. Ora, tais coisas (religião e ciência) não existem, são abstrações. 
O que realmente existe de concreto são "as Religiões", cada uma mais peculiar que a outra, e "as Ciências" (física, química, biologia, antropologia, geologia, etc), com suas especificidades.
Quem imagina a possibilidade de um diálogo entre o Todo do Universo Religião e o Todo do Universo Ciência, pressupõe que dentro de cada Universo se fale uma única e mesma língua comum, o que não ocorre, nem dentro do Universo Científico, nem no Universo Religioso, ou mesmo no Místico. 
Estamos ainda, e acho que sempre estaremos, na fase em que partes internas do Universo Ciência estão começando a conversar entre si, levadas a este diálogo por assuntos e interesses reais concretos e comuns.
Como exemplo, desde o início do século passado, por causa do estudo da radioatividade, que levaria ao campo da física nuclear, o "planeta" Química e o "planeta" Física, dentro do Universo Ciência, estabeleceram um diálogo que não para de crescer em intensidade e riqueza. Por motivos semelhantes, de interesses comuns, o "planeta" Química, através de uma de suas "luas", a farmacologia, estabeleceu um rico diálogo interdisciplinar com o "planeta" Biologia.
Do que vimos, e até Foucault concordaria, é preciso haver interesses comuns concretos, acerca de uma realidade concreta, para que nasça depois o desejo de realizar este encontro e este diálogo.
E lembrando nossas hipotéticas tribos citadas acima, no encontro entre os "planetas" Química, Física e Biologia, muitas coisas concretas já tinham nomes definidos em comum com as três linguagens, além da simples "flor", que foi o meu exemplo. Os átomos são os mesmos, os elementos químicos são os mesmos, a mesma tabela periódica a unir três mundos diferentes no Universo Científico.
Podemos concluir que:
1. É impossível e inviável um diálogo entre Universos, considerando a diversidade e complexidade interna de cada um ( seja o Universo da Ciência, seja o da Religião); 
2. Desta forma, é preciso que pequenas partes de cada Universo ("planetas") conversem com pequenas partes de outro Universo ( a biologia, por exemplo, tentando um diálogo com as religiões de fundamentação bíblica, no quesito específico Criacionismo X Evolucionismo Darwiniano);
3. É necessário que, para que esse diálogo comece, exista um campo de interesse concreto comum (como o estudo Físico, Químico ou mesmo Biológico, do comportamento dos mesmos elementos químicos), e não apenas uma intenção, fruto da vontade ingênua da tribo A ou da tribo B.
Por causa de todos este argumentos, penso que não há nenhuma esperança para o diálogo entre o Universo Ciência e o Universo Místico, que em si já é um Universo diferente do Universo Religião. Primeiro, pelo aspecto falta de interesse comum. Não há elementos concretos que motivem esta intenção. O interesse neste diálogo é eminentemente do lado da tribo Mística a qual, falando francamente, busca neste encontro algo que sempre ambicionou mesmo tentando ocultar, desde os textos de Helena Blavatsky: uma validação cientificista de suas espantosas afirmações. Meus caros, convenhamos, o Universo Científico não tem interesse neste encontro, não necessita desta validação que já possui, e que não outorgará a nenhum outro campo a não ser que este campo se mostre apto a receber esta outorga.
E esta aptidão se ocorrer, só se dará nos moldes e nas condições do próprio Universo Científico, ou seja, é preciso que os interessados nesta validação apresentem fatos concretos sobre os quais possa-se tecer considerações, elaborar teorias e experimentos, ou seja, fundamentar-se como saber científico.
Um Universo, como o Universo Místico, que se baseia apenas em afirmações vagas, a maioria das vêzes não demonstráveis, em informações colhidas de depoimentos de terceiros, e cujas experiências e evidências são eminentemente pessoais e não compartilháveis, não tem como almejar ser compreendido pelo Universo Científico, que trabalha em um diapasão completamente diverso.
E se encontros eventuais entre "planetas" ou "luas", de cada Universo ocorrem, isto não significa um diálogo entre os dois Universos como um todo. São ocorrências localizadas e específicas que não ultrapassam as fronteiras limitadas de sua realidade.
Interdisciplinaridade  entre "planetas" do mesmo Universo é possível e desejável. Assim, as religiões buscam com algum sucesso diálogos entre si, como Islâmicos e Cristãos, Judeus e Cristãos, Budistas e Xintoístas, e assim por diante.
E no Universo Ciência, como vimos, Física e Química, Química e Biologia, Antropologia e Filosofia, como no caso da Antropologia Fenomenológica, Filosofia e Economia, conversam de modo intenso e produtivo.
Estas são conversas interdisciplinares úteis e sensatas, movidas por interesses concretos e objetivos, e com chance de produzir frutos interessantes para o Universo da Ciência e para o Lebens Welt, o Mundo da Vida.
Tentar um diálogo entre Universos que não possuem dentro de si mesmos uma mesma linguagem, além de inviável do ponto de vista operacional é um projeto descabido e inútil, uma enorme perda de tempo e esforço material e humano, um erro do ponto de vista prático e teórico.
Existem pois interdisciplinaridades, diálogos, viáveis e inviáveis, aqueles que podem e produzirão bons frutos e outros, que por estarem fundamentados em falsas premissas, não levarão a lugar algum.
O adiamento do Encontro da URCI sobre Interdisciplinaridade na Saúde, para abril do ano que vem, por falta de número mínimo de interessados, deveria servir de alerta à Grande Loja do equívoco deste caminho.
Pelo menos assim espero.


[1] Mundo da vida (em alemão: Lebenswelt, em inglês: Lifeworld) é um termo da filosofia ligado principalmente com a fenomenologia de Edmund Husserl, que assim o define: "O “mundo-da-vida” é o terreno a partir do qual tais abstrações [da ciência] derivam, é o campo da própria intuição, o universo do que é intuível, ou ainda, um reino de evidências originárias, para o qual o cientista deveria se voltar para verificar a validade de suas idealizações, de suas teorias, posto que, a ciência interpreta e explica o que é dado imediatamente no “mundo-da-vida”." O termo também está ligado à interpretação sociológica de Jürgen Habermas, como sendo a esfera privada onde os sujeitos chegam a um entendimento sobre as outras esferas do sistema social através do processo comunicativo.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

VOTOS DE FIM DE ANO

por Mario Sales, 75939PM, filiado desde 1975


Artesãos das regiões SP2 e SP7, em reunião anual, realizada no capítulo Suzano.  Eu estou no centro de suéter vermelho. À minha direita, o Grande Conselheiro, Frater Wilson Aguiar.


Tudo o que nós Artesãos desejamos para AMORC, Grande Loja de Língua Portuguesa, de 2014 em diante é mais objetividade nos assuntos subjetivos, e subjetividade nos assuntos objetivos, de modo que, ao tratar das coisas do espírito sejamos simples, sintéticos e fujamos dos discursos extensos e moralistas que tanto enfado provocam em nossas ritualísticas; e da mesma forma, bondade e carinho nas lidas administrativas de rotina, de modo que, toda vez que um rosacruz procure a GLP, seja um membro de sanctum ou um simples oficial administrativo e/ou ritualístico de um pequeno pronaos ou de um capítulo distante, seja tratado, sempre, com o amor e a atenção que dispensaríamos à um irmão e a um membro de nossa própria família.
São os meus votos.




Artesãos do Recife. Mestre Reginaldo Leite é o segundo da esquerda  para a direita , no grupo de pé, logo atrás dos que estão sentados. E o sétimo, bem ao centro, de camisa branca, o Mestre da Classe e meu bom amigo , Frater José Marcelo.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

PORQUE OS MÍSTICOS ROSACRUZES DE AMORC PRECISAM ABRAÇAR A CIÊNCIA ORTODOXA

por Mario Sales,FRC,SI,CRC



A AMORC foi reaberta para os trabalhos deste período de atividade na América do Norte, sob a égide de um visionário que sempre foi, além de um homem de seu tempo, um homem de todas as épocas.
Sedimentou sua maior contribuição ao misticismo mundial retirando seu aspecto religioso e esoterista e desenvolvendo um sistema de educação a distância composto de textos didáticos e acessíveis aos membros da sociedade contemporânea. Desfez os véus desnecessários, manteve em sigilo temporário as informações fundamentais mas buscou, de todas as maneiras, dividir as informações que alcançou com todos que podia captar com seu magnetismo pessoal.
Propôs mais do que isto: sugeriu que os membros de AMORC e sua Universidade buscassem dar um caráter científico ao seu trabalho, criando padrões metodológicos reprodutíveis, construindo máquinas, laboratórios, e até um planetário, dezenas de anos antes do Hubble.
Não sei se ele explicitou isso, mas para mim, salvo melhor juízo, a mensagem mais importante de Harvey Spencer Lewis foi: o misticismo de AMORC deveria servir como modelo de pragmatismo e como tal, deveria ter, logo que pudesse, um encontro com a ciência ortodoxa, em um mesmo plano de igualdade.
Este encontro, se a morte não o tivesse colhido tão precocemente, teria sua mão e sua liderança.
Não era pois, infelizmente, a vontade do Altíssimo, que tal fenômeno acontecesse naquela época, tamanha a magnitude e importância deste encontro, aonde os valores espirituais e os valores da racionalidade científica se abraçariam, como irmãos, e não mais como adversários.
Lewis tinha uma opção quando recebeu sua missão como restaurador do movimento rosacruciano: ou mantinha os padrões e o estilo esotérico que literalmente proibia o acesso de muitos ao legado de conhecimento da tradição, ou realizava o up-grade deste conhecimento, ou melhor, dos modos de reeducar a sociedade humana, que em função de rupturas bruscas do processo de civilização, viu conquistas científicas e informações poderosas de outras ciências, de outras épocas se tornarem ocultas na poeira da história.
O grande segredo, que não podia ser revelado era este: o misticismo e o esoterismo eram apenas os disfarces da antiga sabedoria científica, que foi conseguida com tanta dificuldade e trabalho quanto a que temos hoje. Esta antiga sabedoria científica não era e nunca foi inimiga da ciência. Ela era apenas uma outra forma de ciência, diferente em concepção e modus operandi.
Fontes de energia e tecnologia diferente, mas ciência , como outra qualquer. Ciência das estrelas e da Terra. Ciência do Homem.
Spencer tinha pressa, sabia que seu tempo era curto para recuperar o tempo que separava estas duas linhas de trabalho, isoladas uma da outra por diferentes paradigmas de constituição.
O paradigma da antiga sabedoria, calcado no Som, na Luz e no reequilíbrio de uma energia sutil chamada Nous, base da vitalidade e da saúde, elemento fundamental na utilização dos dons; e o paradigma da ciência contemporânea, fundamentado na trilogia mecânica-eletro-química.
Agora, décadas após a transição de Lewis, vemos a Ordem paralisada por um comportamento interno que lembra, muitas das vêzes, não um movimento esotérico que busca cada vez maior cientificidade com religiosidade, mas sim algo semelhante a um viés religioso, exatamente o tipo de coisa da qual todos os místicos procuram se afastar.
O rosacrucianismo não é uma religião, e apenas por isso abriga em seu seio diversas pessoas de orientação religiosa diversa, que encontraram entre nós a tolerância e os valores comuns a todas as religiões, a busca por mais espiritualidade e de sensatez baseada em racionalidade e prudência.
Não é por bondade que nós, rosacruzes, nos preocupamos com a prática do bem: somos o que somos por causa de nossa ciência que nos diz que não há outra maneira de preservar e desenvolver nossa espécie e nosso mundo, o único que temos. Tal qual os cientistas, não encaramos os homens e mulheres do planeta Terra como franceses, estado-unidenses, canadenses, brasileiros ou espanhóis. Todos nós, seres humanos, somos terrestres, e precisamos da ciência, produto da razão, e de Deus, base da espiritualidade.
A AMORC, com Lewis, recebeu um legado, uma mensagem, que precisa ser retransmitida às gerações modernas. E a mensagem é esta: existem informações preciosas em nosso arca que podem enriquecer a ciência contemporânea, informações que farão com que Ciência e Religiosidade se tornem mais próximas e caminhem lado a lado como já andaram em eras distantes.
É por isso que os místicos rosacruzes de AMORC precisam abraçar a ciência ortodoxa e encontrar, o mais rápido possível, um meio de ligação entre estes dois saberes, entre estas duas sabedorias. 
Era este o desejo de Lewis. 
Esta é a minha intuição.

PROGRAMA PONTO DE VISTA\; ENTREVISTA COM O PROF GEORGE BULETZA, DIRETOR DE PESQUISA DA AMORC NOS ANOS 1950 E 60

POSSÍVEIS LINHAS DE PESQUISA PARA A URCI (Universidade Rosacruz Internacional)

por Mario Sales,FRC,SI,CRC



Na prática da ciência rosacruciana, lidamos, como comentei em outro ensaio, com os problemas de demonstrabilidade dos eventos psíquicos, principalmente a falta de tecnologia que permita o registro de caráter científico da experiência mística ou de dons parapsicológicos, para compartilhamento com aqueles que não usufruem ainda destes dons.
A partir disto, resta no exame destas experiências, a opção de analisar depoimentos de fratres e sorores que experimentaram algum tipo de fenômeno incomum de natureza mística.
Depoimentos pessoais, entretanto, por motivos óbvios, estão carregados de subjetividade e são por isso, extremamente imprecisos e de baixa confiabilidade.
Não se trata de avaliar se o frater ou a soror que faz o depoimento, está dizendo, em sua visão a verdade e toda a verdade sobre o que aconteceu, mas sim estabelecer os critérios que serão usados para definir o que é verdadeiro e o que é falso, do ponto de vista científico.
Psicologicamente, todo cientista sabe, o testemunho humano de determinado evento externo a ele é o dado de menor confiabilidade existente entre todos os dados de confirmação científica.
Nós temos o hábito de distorcer a percepção de fatos chamados reais e objetivos com muita facilidade o que torna o ser humano em si a menos confiável das fontes.
Se fazemos isto com fatos externos chamados reais, imaginem com o depoimento sobre experiências vagas e muito sutis, de natureza íntima.




Portanto, precisamos de meios mais confiáveis para detectar as alterações ocorridas durante a manifestação de um fenômeno chamado paranormal, como por exemplo a realização de filmes por várias câmeras, em vários ângulos, de forma a diminuir o risco de manipulação das imagens, a medição de alterações das ondas eletroencefalográficas durante a prática da telepatia, ou para ser mais atual, a interessante abordagem de meu saudoso mestre e querido amigo Reginaldo Leite, que realizou um belíssimo experimento analisando com o recurso de ressonância magnética cerebral as alterações cerebrais durante a emissão de certos sons vocálicos.
Hoje, saímos da era dos neurotransmissores para a da neuroimagem, recurso que se vale de substâncias radioativas que "acendem" certas áreas quando estas são ativadas durante os processos cerebrais.
No site  http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-44462001000500017  , lemos que "...no campo das doenças cerebrais orgânicas, a utilidade das técnicas de neuroimagem na rotina clínica é amplamente aceita. Os métodos mais acessíveis, como a tomografia computadorizada (TC), a ressonância magnética (RM) e a tomografia computadorizada por emissão de fóton único (single photon emission computed tomography - SPECT) são recursos importantes para o diagnóstico diferencial de demências; para o diagnóstico e manejo de doenças neurológicas que comumente cursam com sintomas psiquiátricos, como as epilepsias e acidentes vasculares cerebrais..."
Se para os quadros patológicos, as técnicas de neuroimagem são indiscutivelmente úteis, precisamos tentar criar experimentos com estes recursos para acompanhar alterações cerebrais ao longo de manifestações místicas e psíquicas.
É claro que esta linha de pesquisa parte de dois pressupostos:
1°: que o cérebro é o local aonde os eventos psíquicos manifestam alterações mais importantes porque,
2°: que o cérebro seja a residência física da mente e da consciência.
Outra coisa pressuposta de maneira implícita é que as alterações no corpo físico reflitam alterações no corpo psíquico, o que poderia levar a conclusão inversa de que sempre existe uma base orgânica para as manifestações psíquicas.
Na verdade , esta última suposição não está clara para mim, nem me parece a única possível. Acredito mais em múltiplas manifestações por interação entre todos os corpos do homem, começando pelo mais etéreo até se consolidar numa lesão orgânica.
Se aceitarmos que possuímos mais de um nível de densidade na composição de nosso corpo ( a escola teosófica fala em sete corpos), o corpo físico será apenas um dos locais aonde os fenômenos psíquicos terão algum reflexo, e não o principal local aonde isto ocorre. É mais sensato e coerente com o conhecimento esotérico supor que as manifestações orgânicas sejam as últimas de uma cadeia de manifestações em todos os corpos etéreos.
O fato é que, se queremos estabelecer de modo compartilhável uma maneira de verificar e mensurar uma ocorrência psíquica ou para psicológica, para poder compartilhar nossa visão com mentes naturalmente céticas, precisamos do corpo físico, o único visível sem esforço ou sem instrumentalização, para criar esta área de encontro entre universo místico e universo científico ortodoxo.
Estas são possíveis linhas de pesquisa para a URCI, hoje infelizmente mergulhada em debates eminentemente teóricos. Tais programas são passíveis de operacionalização dentro do rigor do método científico, que gerariam com certeza uma produção, como se diz em ciência, verificável e falsificável, compartilhável, em suma, de modo a "criar pontes" com o mundo científico.
Essa é a minha esperança, ver a URCI novamente envolvida com pesquisa de tecnologia de mensuração e verificação dos fenômenos psíquicos, como nos tempos do professor Buletza, hoje aparentemente distantes e desconhecida dos neófitos mais recentes.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

INTUIÇÕES

por Mario Sales, FRC,SI,CRC




Enquanto minha cunhada desfiava a carne do frango para a ceia de natal, deixou escapar um comentário. " Comecei a fazer esse serviço, mas agora não sei o que fazer, achei que no meio do esforço a intuição chegava, mas não chegou." E riu.
Fiquei refletindo sobre suas palavras. 
A intuição é considerada um fenômeno claro para alguns, mas não é. A grande dificuldade está na interpretação do fenômeno em si, considerado por alguns eminentemente psicológico, e por outros, além de psicológico, extremamente místico.
A maioria dos neurocientistas e mesmos os filósofos ortodoxos a consideram um fenômeno interno, uma espécie de aceleração subconsciente do processo do raciocínio, que uma vez chegando a uma conclusão, jorra na mente consciente a idéia pronta e acabada. Já para os místicos a intuição não é um fenômeno só interno, mas interno e externo, tanto recebendo alimentação do fundo do inconsciente como de fora do corpo do intuitivo, uma captação verdadeiramente semelhante aquela que a antena de TV ou de rádio faz. Esta idéia parece estapafúrdia aos pensadores ortodoxos, mas em uma época como a nossa onde a noção de campo está difundida na física, é curioso a falta de disposição de ao menos considerar esta possibilidade, pelos que lhe são contrários. É verdade que muitos cálculos matemáticos fundamentam as idéias de campos invisíveis e que sua existência foi posteriormente atestada por experimentos simples ou extremamente complexos, como no caso do desvio da luz pelo campo gravitacional de um astro como o sol, ou da própria captação de ondas de quaisquer espécies por receptores como smartphones, tvs e radios.
Os místicos insistem, entretanto, mesmo sem o apoio da matemática, de que estamos todos mergulhados em um campo de consciência e de que partilhamos conhecimento uns com os outros de modo inconsciente.
Um dos conceitos mais famosos da obra de Carl Gustav Jung narra o conceito de Inconsciente Coletivo, idéia nascida de uma experiência que ele obteve do contato com um esquizofrênico negro americano, em um hospital em Washington, fato narrado por ele mesmo em uma entrevista disponível aqui mesmo, no blog.(http://imaginariodomario.blogspot.com.br/2013/11/jung-face-face.html)
O homem lhe faz declarações sem sentido naquele momento, acerca do falo do Sol e seu papel na criação da vida na Terra. Dois anos depois, Jung tem acesso a uma publicação sobre mitos de criação de civilizações antigas nunca antes trazidos a luz, e um deles narrava exatamente a mesma imagem citada pelo indivíduo do manicômio.

Jung


Jung então especulou que todos os seres humanos gozariam de acesso a uma mesma fonte, de forma não muito clara, que os conectaria independente do tempo e do espaço, um campo coletivo mental que ofereceria a cada indivíduo todo o acervo do conhecimento humano, todo tempo, mas que não seria acessado a não ser em episódios isolados e em circunstâncias especiais, como a demência, em que as reservas e os freios sociais estão desligados pela patologia, ou em outro estado aonde regularmente perdemos as amarras da racionalidade, os sonhos. No entender de Jung, embora não saiba se ele explicitou tal coisa, a própria dificuldade e complexidade simbólica onírica tem a ver com o volume e a imensidade de conceitos oriundos deste oceano de informações inconscientes em que estamos, segundo ele, todos mergulhados.
Este é um modelo de intuição oriunda de fora, admitida pela linha junguiana, chamada Psicologia Analítica. Ela se manifesta no nosso discurso cotidiano, de forma casual, ou na arte, através da pintura, aliás este último aspecto materializado brilhantemente na obra magnífica da mais renomada psiquiatra junguiana no Brasil, Dra Nise da Silveira, (Maceió, 15 de fevereiro de 1905 — Rio de Janeiro, 30 de outubro de 1999)  no que ela chamou Museu do Inconsciente, onde, como parte da terapia, ela estimulou os internos de um hospital psiquiátrico a pintarem telas a partir de sua própria inspiração, revelando inclusive talentos ao mundo.[1]
A intuição de captação externa, vista sob esta ótica, é aceita pela ciência ortodoxa, a partir destas premissas descritas. É através de Jung que a noção de campo mental invade o mundo científico de forma elegante, tornando-se um aríete de uma visão mais ampla, esta ainda não consagrada como ele.
A noção aceita de que recebemos informações oriundas de fontes externas a nós é, entretanto, compreendida atualmente apenas sob o prisma da sensorialidade. 
Foi Kant o estabelecedor filosófico conceitual de como este processo de perceber e compreender o mundo pressupõe um órgão invisível e amorfo, chamado Mente, que organizaria e daria sentido aos múltiplos estímulos recebidos através dos cinco sentidos, visão, olfato, audição, tato e gustação.
É famosa sua frase: "Sensação é estímulo desorganizado; percepção é a sensação organizada; concepção é a percepção organizada; ciência é conhecimento organizado; sabedoria é vida organizada."
Tudo estaria resolvido se Schopenhauer, ao sucedê-lo no panteão dos filósofos, não colocasse o senão de acrescentar à todas as informações que nos chegam à mente, pela via dos sentidos (horizontalmente, digamos), as percepções fisiológicas íntimas (verticais, de baixo para cima, via pescoço), aquelas que não vem pelos captadores externos, mas de demandas físicas como a sede, o desejo sexual, a fome, e outras tantas que tem mais a ver com o comportamento do próprio organismo e não com eventos fora dele.
Recebemos, e assim entendemos desde a intervenção do pensamento schopenhauerniano, muitos estímulos e impressões de dentro de nós mesmos, que ao chegarem a mente são sublimadas, ou melhor, são transformadas de necessidades fisiológicas (necessidades de sal ou água, por exemplo) em aparentes desejos sem fundamentação (como, por exemplo:"gostaria de comer pipoca, agora" ou "ficaria muito feliz com um copo de suco bem gelado").
Esta proposição de Schopenhauer abriu caminho para as reflexões de Nietzche, na filosofia, sobre a importância do respeito às forças instintivas, e de Freud, na psicologia, com o conceito de Id, o qual supunha ser o local aonde jaziam ocultas as fontes da neurose e de outra doenças mentais, que Jung, discípulo de Freud no princípio, chamou Inconsciente, naquela época ainda sem o adjetivo de "Coletivo".
Somos, portanto, dirigidos em nossas reflexões e impressões mentais por uma série de forças externas e internas, na maioria das vêzes de modo involuntário.
A filosofia ortodoxa aceita isso, como visto, e a psicologia médica também, bem como uma parte da psiquiatria.
Resta a aceitação dos mensuradores, os sacerdotes da Nova Religião, a ciência positivista, ou seja, os Físicos e os Matemáticos.
É muito importante que eles, físicos, abençoem a noção de campo mental com alguma mensuração de energia ou hipótese verificável e testável da existência de um campo mental como previsto por Jung, ou como postulado por parapsicólogos que estudaram o fenômeno da telepatia, ou a transmissão de pensamentos ou imagens de mente a mente, de forma consciente ou não.
A questão não está, como muitos desavisados supõem, na visibilidade ou invisibilidade deste campo. A maioria do trabalho científico lida hoje com ambientes e fenômenos invisíveis ao olhar desarmado (caso do mundo bacteriano na biologia, ou dos átomos na física de partículas, ou das estrelas, na astronomia) para o conhecimento e acompanhamento dos quais necessitamos de aparelhos intermediários (desde microscópios óticos ou eletrônicos, aceleradores de partículas monstruosos em tamanho, ou telescópios que vasculham as áreas aparentemente vazias do universo, revelando aglomerados de galáxias extremamente densos e ricos, insuspeitos sem os recursos de observação).


Campos Magnéticos Terrestres

Eu por mim continuo adepto das crenças típicas do trabalho rosacruz, verificadas experimentalmente pelas técnicas que os estudantes de AMORC são estimulados a fazer ao longo de toda a sua filiação à nossa Ordem, com resultados práticos. Podemos ficar satisfeitos com os resultados de nossas experiências pessoais, como quando por intuição de captação percebemos coisas e conceitos para os quais não poderíamos ter contribuído sem o auxílio de inspirações estrangeiras a nossa mente, ou quando percebemos as intenções na mente de pessoas estranhas à nós sem que o interlocutor dissesse qualquer palavra. O problema é demonstrar externamente esta experiência com terceiros, de forma a compartilhar de maneira verificável as mesmas vivências que experimentamos como estudantes de AMORC.
Trata-se de uma crença indemonstrável a terceiros, mas passível de ser testada por quaisquer indivíduos que o desejem, bastando permitir que estas capacidades comuns a todos os seres humanos (capacidade telepática, intuitividade de captação, etc) se manifestem livremente, livres das amarras do condicionamento educacional que bloqueiam a imaginação pela difusão de conceitos falsamente positivistas como "o invisível é inexistente", ou "o que não se pode tocar, não existe".
Como vimos, muito do que é trabalhado pela ciência moderna é invisível e imperceptível a olho nu. Dependemos de aparelhos que ampliem nossa consciência sensorial de coisas e fenômenos no mundo ortodoxo.
Sendo repetitivo, na minha visão, precisamos, nós, místicos rosacruzes, de aparelhos que nos ajudem a construir pontes entre a ciência ortodoxa e a ciência mística, os quais permitam o compartilhamento de experiências heterodoxas com indivíduos céticos quanto a realidade deste universo de energias conhecido como o lado místico da existência.


[1] O Museu de Imagens do Inconsciente: A biografia de Van Gogh é uma referência importante para os estudiosos interessados em compreender as possibilidades terapêuticas do trabalho criativo frente às perturbações emocionais. Em 1952, ela funda o Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro, um centro de estudo e pesquisa no Hospital Psiquiátrico Pedro II, no Engenho de Dentro, Rio de Janeiro, destinado à preservação dos trabalhos produzidos nos estúdios de modelagem e pintura que criou na instituição, valorizando-os como documentos que abrem novas possibilidades para uma compreensão mais profunda do universo interior do esquizofrênico. Entre outros artistas-pacientes que criaram obras incorporadas na coleção desta instituição podemos citar: Adelina Gomes; Carlos Pertuis; Emygdio de Barros, e Octávio Inácio.

sábado, 21 de dezembro de 2013

JURANDIR FREIRE: UMA HISTORIA DO CORPO NA SUBJETIVIDADE 1/6

JURANDIR FREIRE: UMA HISTORIA DO CORPO NA SUBJETIVIDADE 2/6

JURANDIR FREIRE: UMA HISTORIA DO CORPO NA SUBJETIVIDADE 3/6

JURANDIR FREIRE: UMA HISTORIA DO CORPO NA SUBJETIVIDADE 4/6

JURANDIR FREIRE: UMA HISTORIA DO CORPO NA SUBJETIVIDADE 5/6

JURANDIR FREIRE: UMA HISTORIA DO CORPO NA SUBJETIVIDADE 6/6

SUA FALTA, HOJE, É INDISCUTÍVEL

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

FELIZ NATAL



SÃO OS VOTOS DO IMAGINARIODOMARIO.



CONVERSANDO COM INC.:CIENCIA, MISTICISMO ROSACRUZ E RELIGIÃO.


Desde 18 de dezembro tenho trocado comentários na área mais rica e ao mesmo tempo mais oculta do blog, com Inc. abreviatura de Incógnito, mais um dos muitos leitores anônimos do blog. Pelo andar das conversas propus que trouxéssemos nossas reflexões a público para que outros possam participar. Com sua autorização, republico a conversa abaixo. O diálogo se refere ao terceiro vídeo de Neil DeGrasse Tyson, publicado em 10 de dezembro.


Neil deGrasse Tyson



Prezado Mário, bom dia,
Muito bom o vídeo até a parte em que ele se perde nas analogias do Chipanzé. 



Acredito que o problema deste camarada, e do pessoal da física/química em geral, é que colocam toda a perspectiva do problema na parte material do ser humano.
Com efeito, para a genética somos apenas 1% diferentes do chipanzé, sendo que somos compostos dos mesmos elementos. No entanto, a genética e a parte material correspondem apenas a uma pequena parte de nós (sob a perspectiva da Kaballah corresponderia a Goup até o início de Nefesh, ou seja, a menor parte e talvez a menos importante).
Se a perspectiva fosse de um espiritualista ele diria "imagina o que os seres de luz/mestre/anjos vêem em nós: um ser cheio de vícios, um bruto que não enxerga a divindade em toda parte... etc".
Essa perspectiva me parece mais verossímil que a do alienígena com o chipanzé.

Humberto Rohden

Lembro de Huberto Rohden que diz em determinado livro: depois de Einstein o materialismo acabou por falta de matéria. Por fim, apenas refiro que ele não diz o porquê de nada só o como! Um abraço.

Olá.
Pois é, muito boa esta frase do Rohden, mas se formos ser rigorosos e esquecer a amizade entre ele e Einstein, quem acabou com o materialismo foi Max Plank, com a física quântica. 

MAX PLANK


Einstein nunca achou muita graça na quântica. Curioso. Agora, quanto ao vídeo, acho o prof. Tyson muito engraçado, e procuro ver seus méritos sem compará-lo com o meu campo de compreensão. Quando falo meu campo, falo da minha experiência mística, já que misticismo é experimentação e vivência e não crença. 



Não gosto mais nem de conversar sobre crenças. Mas vivências, estas são tanto passíveis de descrição quanto de comprovação pessoal. Infelizmente não posso compartilhar estas experiências místicas com ninguém, pois são vivencias solitárias e em hipótese alguma exigiria de alguém que não tivesse vivenciado experiencias semelhantes que as compreendesse ou as levasse em consideração, cientificamente. No caso de cientistas ortodoxos, é preciso vê-los como pessoas que estão em outro campo de experimentação diferente do nosso, um campo que ao contrário do nosso, é compartilhável. Seria portanto sensato esperar que se atenham as experiências que possuem e não aquelas que não possuem. E em hipótese alguma discutir crenças. Não seria uma atitude adequada com homens tão inteligentes. Neste ponto aceito a limitação do místico em relação ao cientista. E espero que possamos nos aproximar mais nos próximos anos, místicos e cientistas, através de pontes tecnológicas, como um visualizador de auras artificial por exemplo, que nos permita compartilhar a experiência mística, independente das vivencias de cada um. Paz profunda e feliz natal.
http://img2.blogblog.com/img/b36-rounded.png
Obrigado pela resposta e por compartilhar teus pensamentos Mário.
Concordo plenamente contigo, em especial no ponto em que dizes que a ciência tem a particularidade de ser comprovável enquanto que no misticismo/esoterismo existem campos que ainda não são comprováveis e outros que, talvez, nunca serão em razão de ocorrerem de forma muito pessoalizada.
Permita-me apenas referir que, em relação a crença, esta sempre estará presente de uma forma ou de outra, tanto na ciência como na religião, sendo que será a nossa razão que servirá como régua para indicar a verossimilhança na crença.
Por exemplo: Por algum motivo eu confio no Mário e sei que o que ele fala não tem a intenção de me sacanear, mas de me ajudar, certo? O Mário me diz que é possível ver a aura, no entanto, eu não consigo ter essa experiência. Em razão de acreditar que não é sacanagem do Mário a hipótese da aura, descarto o pensamento de que pelo fato de eu não conseguir vê-la ela não exista, pois há pessoas, em diferentes partes do mundo, que já atestaram sua existência, inclusive meu amigo Mário. Assim, mantenho a crença nessa possibilidade.
O mesmo acontece para a ciência, como disse o Dr. Tyson. Por muito tempo houve a crença de que o Bóson de Higgs existia, porque sua existência era provável, agora descobriu-se, ou está para se descobrir, que ele de fato existe. 

Peter Higgs


Ainda nessa linha, veja que o Zohar já dizia que a terra era redonda e girava ao redor do sol, fato que veio a ser discutido séculos depois por Copérnico e comprovado pela ciência... e assim gira o mundo.
Obrigado mais uma vez, um grande abraço, feliz natal e que a paz seja contigo e tua família.



Duas coisas: eu não disse que o misticismo não era comprovável, eu disse que as provas que para mim como para você são mais do que suficientes, nossas evidências íntimas da realidade do fenômeno místico, são incompartilháveis. Eu posso descrevê-las com clareza pois as experimentei, não são meras crenças, mas vivências, só que não posso mostrar ao meu interlocutor sentimentos que só eu experimentei. Por isso eu disse que ciência e misticismo não vivem de dogmas, mas de experiências: a ciência com experimentos reprodutíveis e demonstráveis e o misticismo com experimentos internos de percepção interior, que nos modificam e que podem ser sim objeto de reprodução, mas que se desenrolam (em silêncio e de modo oculto) no interior do indivíduo.
Na ciência eu posso mostrar o que presenciei (ou pelo menos matematizar meu pensamento) e outro acompanhará, refazendo meu experimento ou meus cálculos. Não se pode fazer isto em misticismo e neste ponto, sinto inveja da ciência. Eu explico porque. O trabalho místico é muito delicado e complexo. Portanto, embora conceda que ninguém pode evoluir por nós, precisamos muito, nós, místicos, uns dos outros, no aspecto técnico. É bom dividir experiências e procedimentos mentais, compartilhar experiências mentais com companheiros de Ordem, no sentido prático do estudo. E isso é muito difícil às vezes. Bom, este é um ponto. O outro ponto é: eu não vejo aura, acredito na existência deste halo luminoso, mas jamais o vi, jamais o contemplei. Como eu, muitos não o contemplaram, de modo que seria muito interessante ter meios objetivos de realizar esta observação, da mesma forma que a invenção do microscópio revelou o universo do muito pequeno e descortinou níveis de existência da vida antes insuspeitos e considerados pura fantasia. O microscópio foi um salto tecnológico, mas agora precisamos de algo mais espetacular. Precisamos ver outro campo, por enquanto invisível. Aqui entra a crença, que é um tema apaixonante. A crença é sim, como você bem lembrou, parte importante do processo mental humano, em misticismo e em ciência. O que difere um de outro campo, ou o que os une , talvez, é que as crenças místicas, pelo menos rosacrucianamente falando, baseiam-se e reforçam-se a medida que nossas experiências pessoais as comprovam. São crenças, pois, fundamentadas, como as da ciência. Crer para o cientista é propor a si mesmo hipóteses que ele verificará, experimental ou matematicamente. O místico rosacruz também verifica e reforça suas convicções através do empirismo pessoal. Nada disso se assemelha a prática religiosa, que vive de crenças dogmáticas, de crenças não fundamentadas na experiência, mas na autoridade do sacerdote ou do profeta de plantão. São abordagens completamente diversas. Não sei se me fiz claro agora. É um debate muito interessante, deveríamos abrir no blog, se você permitir. Outros podem querer opinar e compartilhar suas visões. Pra terminar, que seu Natal seja pleno de Luz e que a Paz Profunda dos rosacruzes invada a mente e o corpo de todos na sua família, inclusive você. São meus votos mais sinceros.


Prezado Mário, logicamente que sim, é vosso Blog e para mim é uma alegria ter contribuído em um ponto interessante para meditação... Foi um interessante exercício dialético no sentido real do termo (ir além dos véus). Era exatamente aonde deveríamos chegar. Cito-o com três pequenos complementos em parênteses:
"Crer para o cientista é propor a si mesmo hipóteses que ele verificará, experimental ou matematicamente. O místico rosacruz (esoterista sério) também verifica e reforça suas convicções através do empirismo pessoal. Nada disso se assemelha a pratica religiosa (no sentido hodierno do termo, ou ateia - fanática em geral), que vive de crenças dogmáticas (e que não aguentam o crivo racional da lógica para verificar sua congruência geral e de uma dialética para aferir suas premissa), de crenças não fundamentadas na experiência mas na autoridade do sacerdote ou do profeta/filosofo (sentido contemporâneo novamente) de plantão".
Reforço a alegria em conversar consigo e os votos mais sinceros e harmonioso. Fraternal Abraço.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Neil DeGrasse Tyson

Vou apresentar a quem não conheça o substituto de Carl Sagan no papel de divulgador da ciência a partir da própria ciência, não um jornalista interessado, mas um cientista falando sobre ciência, conhecimento científico, critérios de verdade, e coisas assim. Seu nome: Neil DeGrasse Tyson. O nome já antecipa os muitos nocautes (desculpe o trocadilho infame mas não pude resistir) que ele desfere na Ignorância e na Superstição. Publicarei apenas três e sugiro que procurem mais no YouTube. Como já disse antes, clique duas vezes rápidas sobre o filme e ele abrirá em tela inteira. Boa palestra.







domingo, 8 de dezembro de 2013

IMAGINAÇÃO E RAZÃO

por Mario Sales, FRC, SI, Cavaleiro Rosa Cruz (CRC) , 
18° grau maçônico no Rito Escocês Antigo e Aceito


Todo cético é um racionalista, mas nem todo racionalista é um cético. A crença não é inviabilizada pela razão, mas pela insensibilidade.
E isso porque existem dois tipos de homens racionais: os insensíveis e os sensíveis, estes últimos capazes de crenças de cunho espiritual, mais propensos a dominarem o poder da Imaginação.
A Imaginação é como o Vapor que sobe da queima da madeira. Existem vapores úteis, inúteis e perigosos.
Falarei dos dois últimos primeiro.
Os inúteis são aqueles que escapam pelas chaminés dos tetos, e vão para as altitudes, sem servirem a nenhum propósito mecânico. São semelhantes a divagação, quando a mente, livre de cuidados, sucumbe ao sonho sem consequências, sem efeitos no real.
Os perigosos se assemelham a fumaça produzida em ambiente fechado aonde o morador, preso dentro deste local, o inala até sufocar e morrer. Este vapor intoxicante se assemelha ao indivíduo absolutamente convicto de suas fantasias e seus delírios, que vive patologicamente envolvido por elas e alijado da interação social e pessoal.
Já o vapor útil necessita do aporte da razão. Homens racionais e sensíveis buscam a segurança do pensamento racional, lógico e encadeado, para garantir um subsídio de clareza ao processo da Imaginação, este sim, o mais importante poder do Espírito Humano.
Imaginem o vapor que move os motores, proveniente de explosões causadas por faíscas produzidas pelas velas elétricas. Se estivesse em espaço aberto, o vapor subiria, disperso, inútil, invisível, perdendo-se no vazio; mas uma vez contido no cilindro de um motor, impulsiona um êmbolo, faz girar um mecanismo, faz o carro andar.
E se aprisionado no motor da locomotiva faz uma máquina gigantesca se mover e arrastar atrás de si sem dificuldade um sem número de vagões.


O que transforma o vapor em uma força é seu aprisionamento em um espaço qualquer definido e a sua liberação controlada, aproveitando toda a pressão positiva gerada por este confinamento do invisível no visível.
Assim também a Imaginação, se abandonada a si mesma e sem um confinamento lógico, é puro delírio e desperdício da mais poderosa energia e força do Universo.
Uma imaginação descontrolada instabiliza nossa mente, traz angústia e incerteza, produz fantasias e fantasmas.
Não nos move, não nos auxilia na lida do mundo cotidiano, não modifica nossa realidade material.



Sem controle, nossa imaginação é nossa inimiga, nos constrange com medos infundados e é a mãe da Superstição.
É preciso constranger a Imaginação no espaço da lógica, restringir e direcionar seus movimentos, direcioná-la pelo pensamento para uma função objetiva, fazendo com que ela movimente o Real e se transforme, de puro vapor, em Fonte de Força.
Quem pensa organizadamente, quem se acostuma a raciocinar com critérios, quem não apóia idéias descabidas e infundadas, pode imaginar bem e de modo produtivo. Saberá sempre a diferença entre Sonho e Realidade e conseguirá transformar a sua Realidade naquilo que Sonha.



Dizem os adeptos do pensamento politizado que "o sonho sonhado sozinho é sonho, mas quando sonhado junto é força que transforma". A História humana mostra que não é assim. São muitos os exemplos de Homens com uma mente clara e determinada, capazes de Imaginar um mundo diferente e com isso arrastar atrás de si multidões, forçadas pela sua clareza de mente (Raciocínio e Imaginação harmonizados). Tanto para o Bem quanto para o Mal. Assim foi com o Cristo, com o Buda, com Ghandi e Martin Luther King. Assim foi também com Gengis Khan, Mao Tsé Tung, Hitler e Mussolini.
O que move o mundo e os homens não são as coisas visíveis , mas as invisíveis, como o Vapor.
A primeira delas, é a Paixão pela Vida, de preferência fundamentada em uma Imaginação clara, clareza esta da Imaginação garantida por um Raciocínio sólido, feito de idéias Claras e Distintas.
Perceber isto e dominar esta chave de Poder é ter em mãos o controle da mais importante Energia a nossa disposição no Universo. 

GILES DELEUZE: O ABECEDARIO, PARTE 1

O trabalho de Deleuze se divide em dois grupos: por um lado, monografias interpretando filósofos modernos (Spinoza, Leibniz, Hume, Kant, Nietzsche,Bergson, Foucault) e por outro, interpretando obras de artistas (Proust, Kafka, Francis Bacon, este último o pintor moderno, não o filósofo renascentista); por outro lado, temas filosóficos ecléticos centrado na produção de conceitos como diferença, sentido, evento, rizoma, etc.
O filósofo do Corpo-sem-Órgãos (figura estética de Antonin Artaud, retomada como conceito filosófico por Deleuze em parceria com Félix Guattari).
Para ele, o ofício do filósofo é inventar conceitos. Assim como Nietzsche cria a personagem-conceito de Zaratustra, Deleuze afirma em L'abécédaire, entrevista dada a Claire Parnet, ter criado com Félix Guattari o conceito de ritornelo - refrão, forma de reterritorialização (povoamento), e desterritorializaçao.
Uma filosofia da imanência, dos diagramas, dos acontecimentos.
As principais influências filosóficas terão sido Nietzsche, Henri Bergson e Spinoza.
Uma das grandes contribuições de Deleuze foi ter se utilizado do cinema para expor sua forma de pensamento, através dos conceitos de imagem-movimento e imagem-tempo.
Deleuze foi um dos filósofos que teorizou as instâncias do atual e do virtual (já elaboradas por outros pensadores), construindo um olhar sobre o mundo a partir das possibilidades: "Um pouco de possível, senão sufoco" (Foucault) (da Wikipedia, http://pt.wikipedia.org/wiki/Gilles_Deleuze)

GILES DELEUZE: O ABECEDARIO, PARTE 2

GILES DELEUZE: O ABECEDARIO, PARTE 3

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

ESPINOZA - O APÓSTOLO DA RAZÃO(Completo)

CAFÉ FILOSÓFICO COM LUIZ PONDÉ: BAUMAN E A SAÚDE MENTAL



Estamos em uma época sem fé, sem objetivos e sem rumo. Os relacionamentos afetivos são frágeis e efêmeros. O que se conhecia por família está sendo desconstruído, pouco a pouco, e substituído por outros ajuntamentos humanos ainda não muito claros, mas com certeza absolutamente diferentes do modelo patriarcal, heterossexual, proletário e estável. Quais são as razões deste panorama, quais as raízes deste cenário social? Neste vídeo, Luiz Pondé traz a luz o pensamento do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, e sua obra literária toda voltada a compreender esta transição entre o período moderno e pós moderno. Vale a pena conferir.

PROPAGANDAS DO CANAL FUTURA QUE EM SI SÓ SÃO OBRAS PRIMAS

FILOSOFIA E VERDADE

SIGMUND FREUD

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

A VIDA MÍSTICA NÃO REFLETE UMA VIRTUDE.


por Mario Sales, FRC,SI,CRC



Porque tu acenderás a minha candeia; o Senhor meu Deus iluminará as minhas trevas.
O caminho de Deus é perfeito; a palavra do Senhor é provada; é um escudo para todos os que nele confiam.
Porque quem é Deus senão o Senhor? E quem é rochedo senão o nosso Deus?
Deus é o que me cinge de força e aperfeiçoa o meu caminho

Salmos 18:vers 28-32

21 Ó humanos, adorai o vosso Senhor, Que vos criou, bem como aos vossos antepassados, 
quiçá assim tornar-vos-íeis virtuosos.
22 Ele fez-vos da terra um leito, e do céu um teto, e envia do céu a água, com a qual faz brotar os frutos para o vosso sustento. 

Corão, Al Bácara, 2a surata, vers 21 e 22





Quando nos elevamos a Deus, nós místicos, em prece, tomados pela Fé, não o fazemos por crer em alguma coisa improvável e indemonstrável que nos ensinaram a adorar.
Fazê-mo-lo para intensificar nossa conexão com a Fonte de Todas as Coisas, com  o intuito de fortalecer esta ligação, esta frequência de contato com Aquilo que nos Dá Vida e Existência, e do qual sentimos a presença em todos os instantes de nossa vida.
Quando amamos a Vida e aos outros seres humanos, não o fazemos para mostrar virtude ou para sermos objeto da aprovação dos moralistas e dos vigilantes dos costumes sociais, mas porque precisamos deste estado de bem que só o Amor desencadeia em nosso organismo, no batimento de nosso coração, na serenidade de nossa respiração e mente, na qualidade de nossos pensamentos.
Amar para o místico não é uma virtude: é necessidade, algo físico e palpável em nossa pele, em nossos órgãos, da mesma forma que o Ódio destrói nossa saúde ou o Ressentimento nos envenena.
Quando o místico é sincero, e sua boca reflete o que vai no seu espírito, ele manda sinais aos seus interlocutores através de odores e de trejeitos indescritíveis, mas perceptíveis da máscara facial, ou do ritmo de sua respiração, que dão ao outro que o ouve uma forte sensação de segurança e confiança em suas palavras. A sinceridade cria um ambiente amigável a sua volta e fortalece os laços de amizade entre os que percebem a honestidade de sua voz. Esta atmosfera amistosa e confiante não é de cunho moral apenas , mas essencialmente fisiológica.
Quando o místico, enfim, é generoso, atendendo os impulsos de seu espírito ou uma intuição que lhe vai na alma, apenas exercita a mesma conexão de que falava antes, através da qual recebe e obedece as orientações que o comandarão em missões na sociedade humana de socorro aos verdadeiramente necessitados, e não aqueles que são lamentadores profissionais. Esta distinção, este discernimento entre os que foram ouvidos em suas súplicas, pela sinceridade de seu pedido e pela Fé que demonstraram em sua demanda, os torna parte da conexão com a Fonte de Toda a Vida que, através dos mais sensíveis, seus agentes na Terra e na sociedade, respondem aquele apelo, com o auxílio necessário e merecido.
Os atos do místico, portanto, não são atos de virtude ou de bondade; são apenas reações automáticas ao jogo de forças presentes nesta imensa rede de consciência aonde todos nós estamos imersos, mesmo que a maioria não se aperceba, atos pragmáticos e práticos, certas vêzes absolutamente inevitáveis, comandos de uma Autoridade Maior, os quais não podem ser desobedecidos ou negligenciados.
A Vida Mística não reflete uma virtude.
Misticismo não é crença, mas conexão perceptível, corpórea, mental e física.

Qualquer coisa em misticismo fora disso, são falácias e fantasias baseadas em pressupostos inúteis e improdutivos.

domingo, 1 de dezembro de 2013

A " SÍNDROME DE GARFIELD"

por Mario Sales, FRC, SI, CRC

Este tema é polêmico. Vamos discutir a mídia , a mesma mídia que nos fornece nossas informações do dia a dia. Muitos, apressadamente, defenderão a tese de que a janela não deve ser culpada pela paisagem.
Fato. Realmente, ao abrirmos uma janela, vemos o que temos para ver, aquilo que se descortina a nossa frente.
Mas, e se a paisagem a nossa frente fosse projetada como um filme em uma parede, (como na propaganda da televisão da LG abaixo, que por coincidência fala de uma falsa janela feita de uma televisão), para parecer uma paisagem sem ser, um filme composto de cenas reais, coisas e eventos que realmente ocorreram, mas que foram selecionadas entre dois tipos, aquelas que são agradáveis e positivas e as que são desagradáveis e carregadas de apelo emocional, e as do segundo tipo fossem eleitas como as que mais impacto podem ter naquele que acabou de abrir a sua janela? E, portanto, serão privilegiadas e projetadas o triplo de vezes do que as do outro tipo?


A sensação de quem abriu a janela é de que as imagens que vê, e que, repito, refletem situações reais do cotidiano, são em maior número, e que portanto, existem muito mais situações desagradáveis e, emocionalmente, de modo negativo, impactantes, do que as de caráter positivo e agradáveis.
É isto que a mídia moderna e a antiga fazem.
Fato já sabido, os escritórios de grandes cadeias de TV e Jornais em todo mundo buscam conseguir audiência e telespectadores para suas empresas, de forma a ter mais pessoas assistindo o seu canal e assim, poder veicular com sucesso e retorno financeiro para outras empresas os produtos propagandeados nos intervalos entre as reportagens de duas tragédias.
Ninguém vende automóveis ou sabonetes se o público não vir o seu produto, apresentado com glamour e requinte.
E para que o público veja seu produto, é necessário que ele seja atraído a um determinado ambiente virtual, televisivo, que prenda sua atenção o tempo suficiente para que a mensagem publicitária seja vista e assimilada.
Prender a atenção do leitor e telespectador ou ouvinte, no caso do radio, é o esforço e a missão de todos os veículos de comunicação, em toda a parte, em todo o mundo.
Cada jornal, cada estação de TV é uma janela para o mundo, mas uma janela que, entre passar imagens pretas e brancas, seleciona as pretas e as privilegia, pois estas tem mais apelo ao seu telespectador. As brancas são polvilhadas, como farinha de trigo, sobre uma superfície de cor forte, apenas para dar destaque a cor que está por baixo.
O bem não faz sucesso e é ruim de propaganda. Não atrai a atenção por muito tempo. As empresas de mídia sabem disso e dão ao público aquilo que o público quer ver, reforçando este estereótipo, no que se convencionou chamar em psicologia comportamental de reforço positivo, um estímulo que mantém em looping determinada concepção, de tal forma que, para o contemplador, a realidade é daquele jeito,não 50% a 50% entre os dois polos da realidade, mas 80 a 90% preta e só 10 % branca.
A janela da mídia não é uma janela ingênua ou neutra, mas tem um critério de exibição.
Eu não discuto aqui os aspectos políticos ou éticos do assunto. Este tema ficaria melhor em outras mãos.Eu discuto os aspectos míticos e comportamentais.
Como construir uma sociedade maior se eu dou a impressão a esta sociedade de que ela é do modo que supõe ser e, partindo deste critério, repetidas vezes apresento a ela mais do mesmo?
Com é possível acelerar a mudança de compreensão do mundo se a mídia treina os corações e mentes para crer em valores que necessariamente não nos edificam nem nos enobrecem?
Como refinar a sensibilidade se a oferta cultural, embora múltipla e variada, privilegia as zonas de conforto estéticas, aonde o banal e o pouco elaborado é consagrado e o mais refinado é encarado com desinteresse?
Programas de música erudita, ou sobre filosofia e ciência não venderiam sabonetes e automóveis tão bem quanto os que discutem a vida sexual das celebridades ou os últimos escândalos políticos, portanto tem muito menos chance de serem financiados pela indústria de automóveis ou a de sabonetes. Sem verba, não há como pagar as engrenagens da mídia e portanto, projetos eminentemente elevados cuiltural e eticamente são financeiramente inviáveis.
Daí a profusão de programas medíocres e de conteúdos nas matérias de jornais que atendem o pensamento de que quanto pior, melhor, e que multiplicar os estímulos de baixa qualidade abre espaço para financiar pequenos nichos de qualidade.
Televisão e jornais são negócios e considerando a lógica do mercado, seu comportamento é perfeitamente coerente com as bases desse sistema.
O problema é que, na outra ponta, aquela dos que consomem estes conteúdos medíocres, fica a sensação de que o mundo é medíocre e violento e que não existe mais espaço para o bem ou para a arte e a beleza.
Pessoas cultas e diferenciadas sabem que não é assim, mas estas, por definição, não são a maioria.
Crêem em tudo que lêem e assistem, sem lançar sobre as informações o pensamento crítico necessário a depuração daquilo que está sendo mostrado ou afirmado.
O método científico, o ceticismo metodológico de Renée Descartes[1], deveria ser um hábito cultivado pela educação, ao contrário dos métodos pedagógicos que privilegiam a repetição de informações inúteis do ponto de vista prático para o resto da vida futura daquele aluno.
Sem pensamento crítico, sem capacidade para recusar mentalmente como fato algo que não passa de um suposição ou crença, estamos à mercê do comportamento que eu chamo de "Síndrome de Garfield", o personagem dos quadrinhos de Jim Davies, que sempre comenta que "já que deu na televisão, deve ser verdade".

Se a TV e os jornais disserem que o mundo é majoritariamente mau e formado por pessoas na maioria ruins, violentas e desonestas, e que os acontecimentos em sua grande maioria, são trágicos e tristes, uma mente desavisada e despreparada criticamente concluirá, pelos efeitos da "Síndrome de Garfield" de que as coisas são assim.
Este raciocínio leva a outro problema, a liberdade de expressão. Qualquer movimento que procure mudar as bases e os critérios de trabalho dos meios de comunicação será atacado por duas razões: primeiro e mais importante, porque afetará o mercado de automóveis e sabonetes e cervejas ou que quer que o mercado queira vender, e isto, considerando a base de nossa civilização, é impensável e, segundo, que para defender este nicho de atuação, a simples discussão deste tema será tachada de censura prévia, ou uma tentativa de impedir que notícias, ditas "relevantes" sejam passadas a população.
Sim, censura, como se o mercado não censurasse tudo aquilo que não ajuda a vender sabonetes. Mas esta discussão é muito sutil e delicada e será facilmente distorcida para a compreensão de que o objetivo daqueles que querem transformar a janela em algo transparente e não em uma janela coberta com uma tela vermelha-sangue ou marrom-escura, estão na verdade, querendo bloquear o acesso à janela.
Um debate isento é, pois, impossível e não vai funcionar. As relações entre interesses de mercado e critérios para veiculação de matérias dos meios de comunicação são demasiadamente intrincadas e invisíveis aos olhos menos treinados, portanto fáceis de serem ocultadas da análise da situação. Todos sabemos, como na "assembleia dos ratos", de Esopo[2], que é preciso colocar o guizo no pescoço do gato. Só não sabemos quem o fará ou como fazê-lo.

Esopo

É uma discussão sobre critérios. Como decidir o que é branco e o que é preto, qual notícia reflete o mundo do bem e qual o mundo do mal? Ocultar as coisas ruins seria melhor que ocultar as coisas boas? Como decidir o que é de alto nível e o que é de baixo nível cultural?
Mais: quem fará esta separação? Baseado em que critérios? Estaremos apenas trocando um grupo de selecionadores por outro?
Não há, a meu ver, solução a curto prazo. Parafraseando a opinião de Aldous Huxley, exposta em uma entrevista gravada há 60 anos atrás e cuja reprodução está aqui no blog, a única solução é mudar as pessoas pela educação. Não mudar a TV ou os jornais ou o comportamento da mídia em geral, mas mudar o telespectador, o leitor, o ouvinte. O homem é passível de mudança e a sociedade é apenas um construto produzido pela soma de várias pessoas com diferentes personalidades. Melhorando o nível cultural das pessoas, melhoraremos sua capacidade crítica e a impressão, hoje difundida, de que estamos em um mundo apenas de dor e desolação e que não existem iniciativas de bondade e misericórdia em lugar algum, desaparecerá pouco a pouco, independente de toda o esforço que possa fazer para permanecer uma verdade indiscutível.
A Educação é o único remédio para a "Síndrome de Garfield", esta doença terrível que atinge e destrói a fé na humanidade e nas possibilidades de mudança do status-quo.



[1] O ceticismo metodológico foi desenvolvido por René Descartes e consiste em duvidar de todos os conhecimentos que não sejam irredutivelmente evidentes. Segundo Descartes, tudo aquilo que não for completamente evidente e tudo aquilo que já nos tenha enganado no passado não pode ser considerado conhecimento verdadeiro. Por isso, a primeira regra do seu método defendia que nunca devemos "aceitar como verdadeira alguma coisa sem a conhecer evidentemente como tal: isto é, 'evitar cuidadosamente a precipitação e o preconceito; não incluir nos nossos juízos senão o que se apresentasse tão clara e tão distintamente ao nosso espírito que não tivéssemos nenhuma ocasião para o pôr em dúvida'." (Discurso do Método, Segunda parte).(fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ceticismo_metodol%C3%B3gico)


[2] Esopo (em grego Αἴσωπος, transl. Aisōpos) foi um escritor da Grécia Antiga a quem são atribuídas váriasfábulas populares. A ele se atribui a paternidade da fábula como gênero literário. Malgrado sua existência permaneça em dada medida incerta e pouco se saiba quanto à origem de várias de suas obras, seus contos se disseminaram em muitas línguas pela tradição oral. Em muitos de seus escritos, os animais falam e têm características humanas. As fábulas de Esopo serviram como base para recriações de outros escritores ao longo dos séculos, comoFedro e La Fontaine. O fabulista grego teria nascido no final do século VII a.C. ou no início do século VI a.C. . O local de seu nascimento é incerto. Heráclides do Ponto na obra Acerca dos Samios, afirmava que Esopo nascera na Trácia . Certo é que morreu em Delfos, tendo sido executado injustamente, segundo descreve Heródoto (Histórias, II, 134) e o Suda. (fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Esopo)