Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

domingo, 27 de março de 2011

ANIVERSÁRIO

Dia 3 de março de 2011 o blog comemorou seu primeiro ano de vida. Neste período, surgiu um filho seu, o blog de poesia, www.poeticamariana.blogspot.com, já com 171 postagens; no Imaginário foram postados 156 artigos, entre ensaios e vídeos. As estatísticas de acesso pelo tipo de público abaixo são do próprio GOOGLE. A minha contagem de acesso já vai em 5500 acessos.


Brasil 4.650
Estados Unidos 422
Canadá 183
Portugal 130
Alemanha 28

Rússia 22
França 14
Eslovênia 14
Holanda 12
Itália 9
Acrescentem-se dois acessos de Moçambique e um de Angola, não contabilizados.
Das postagens, a estatística abaixo demonstra que em todo este ano Psicologia e Misticismo continua invicta como a postagem mais acessada.

PSICOLOGIA E MISTICISMO 13/08/2010 290 Visualizações de página
AMORC, POSITIVISMO E MISTICISMO 19/09/2010, um comentário 112 Visualizações de página
O GRANDE MESTRE, O FÓRUM E A PALAVRA PERDIDA 29/08/2010, um comentário 91 Visualizações de página
SUPERSTIÇÃO 03/03/2010  90 Visualizações de página
Finalmente, das páginas, a mais visitada, os textos Martinistas tiveram 360 visualizações este ano, seguidos dos textos Maçônicos, com 103 visualizações.Se estas publicações provocaram curiosidade e interesse em quem a leu, se motivaram debates e geraram discussões, externas e internas, que aprofundaram questões de natureza do misticismo e do esoterismo, parte do meu trabalho foi bem sucedido. Agradeço a todos.


TERCEIRA PARTE DO ESTUDO SOBRE OS SÍMBOLOS ESTÁTICOS E DINÂMICOS: AS OBEDIÊNCIAS PRECISAM RESPIRAR

por Mario Sales FRC.:,S.:I.:,M.:M.:

Existe um consenso entre os símbolos maçônicos, portanto: eles são símbolos excessivamente estáticos e geométricos, frutos de uma época em que simbolizar era uma arte tributária de valores rígidos: retidão, estabilidade, regularidade.Os símbolos que escapam a estes protocolos são geralmente quadros complexos cheios de detalhes, como o símbolo abaixo.


Gostaria de destacar apenas um detalhe deste maravilhoso símbolo rosacruz do século XVII, o Collegium Fraternitatis, que está do lado esquerdo do quadro, exatamente na metade da altura lateral.




Trata-se de uma representação da Arca de Noé, pousada sobre o Monte Ararat, hoje em território turco.





Provavelmente, seu papel é representar a preservação de uma herança para além das catástrofes e rupturas na linha evolutiva da humanidade, tais como a destruição de Lemúria, de Atlântida, e quaisquer outras que possam ocorrer e que provocam um estranho recomeçar da cultura humana, esquecida de seu passado, transformando-o em lenda. Este tem sido o papel dos rosacruzes ao longo de milênios: preservar as lembranças e as técnicas de outras eras, um tempo em que a ética e a técnica eram parte de um mesmo conhecimento e religião e ciência não eram coisas separadas e antagônicas, mas parte de uma mesma sabedoria.
Símbolos complexos que guardam em si muitas informações e que precisam ser decifrados em detalhes não envelhecem, nem enrijecem com o passar do tempo.
Preservam sua estética e sua força e não se rendem aos aspectos simplistas da simbologia geométrica.
Já aqueles que são simples em demasia podem trazer em si o vírus da imobilidade, ou mesmo do erro, na suposição de que representam a vida e, como vimos em outro ensaio (Os símbolos estáticos os dinâmicos e os pré-dinâmicos ou suavizados), falarem, de fato, de coisas mortas.
Uma linha reta, uma pedra, um ângulo, nos propõem conceitos rígidos demais, militares demais, e por isso, incompatíveis com a vida, falsos ideais de perfeição matemática que não dizem respeito à realidade instável da Biologia e da Psicologia humanas.
As Lojas Maçônicas sofrem com esta, digamos assim, nefasta herança estética. Talvez na época em que foi idealizado, este conjunto simbólico tivesse um arrojo e um significado avançado para sua época. Hoje, no entanto, o mundo é extremamente mais veloz em suas modificações e tornam-se necessários símbolos mais adequados, que açambarquem a gama variada de possibilidades da existência.



Pedras e cinzéis são de pouca expressividade hoje em dia.
Nós maçons precisamos de outros símbolos, ou pelo menos de novas estratégias na utilização de nossos símbolos.
Só posso ir até aqui, porque como rosacruz aprendi a respeitar juramentos secretos de uma iniciação e como maçon jurei não discutir aspectos internos da ordem ou de uma reunião em Loja publicamente.
Entretanto, respeitando este segredo, posso dizer a quem me compreender que os rituais maçônicos estão enrijecidos como os símbolos da própria Ordem. Seu rigor formal, sua incapacidade operacional de permitir o livre fluxo de posições e idéias, a não ser em situações absolutamente bem delimitadas, pode ser um excelente método de disciplina do comportamento em um debate elegante, mas carecem do dinamismo que o fluxo das idéias possui.


Que quero dizer com isso? Que nenhuma Ordem está acima de seus símbolos e, se estes símbolos são excessivamente estáticos, eles desencadeiam comportamentos com forte tendência ao mesmo tipo de imobilidade que eles possuem, e, óbvio, lentidão.
Ora, nos primeiros graus pode ser que isto até seja necessário. Ultrapassando o terceiro grau, no entanto, é preciso liberar os maçons de amarras ritualísticas excessivamente rígidas e permitir-lhes um espaço de debates dentro da realidade de seu grau. Não se trata de indisciplina ou perda de ritualismo. O ritual poderá permanecer como envoltório do trabalho em Loja, como introdução e como encerramento da reunião, mas o coração do encontro deve ser pleno de liberdade e velocidade para que as pessoas presentes possam transformar este congraçamento fraterno na prática mais dinâmica possível de troca de idéias.
Os IIr.: me compreenderão.
Monte Ararat, Turquia

sábado, 19 de março de 2011

PALAVRAS DO BUDA

“Não devemos crer em algo meramente porque seja dito; nem em tradições porque vem sendo transmitidas desde a antigüidade, nem em rumores, nem em textos de filósofos, porque foram estes que os escreveram, nem em ilusões supostamente inspiradas em nós por um deva; nem em ilações obtidas de alguma suposição vaga e casual; nem porque pareça ser uma necessidade análoga; nem devemos crer na mera autoridade de nossos instrutores ou mestres. Entretanto, devemos crer quando o texto, a doutrina, ou os aforismos forem corroborados pela nossa própria razão e consciência. Por isso vos ensinei a não crerdes meramente porque ouviste falar, mas, quando houverdes crido de vossa própria consciência, então deveis agir de conformidade e intensamente."

Sidharta Gautama Budha

MEDITANDO SOBRE ESPAÇO SEM TEMPO E TEMPO SEM ESPAÇO

por Mario Sales FRC.:,S.:I.:,M.:M.:
Briah, Tempo sem Espaço


O Tempo sem Espaço é Som, mas Som que não se propaga, Som sem som, murmúrio abafado, aliás, nem isto, já que está retido na garganta de Deus por não ter espaço por onde se propagar.
É o Som do Pensamento, que ecoa em nossa mente sem se deslocar


Porque o Som que se ouve, propagou-se, irradiou-se através de uma extensão, ou por outra, deslocou-se através de algum espaço. Já o Som sem propagação é puro pensamento, intenção de som, como movimentos involuntários de cordas vocais sem emissão de ar durante um sonho.


Talvez por isso o Som Primordial, o OM, seja tão gutural, grave. Em Briah, enquanto Deus imagina o Mundo, ele sonha, como ensina o Vedanta.




Interessante.
Esta é a explicação do Tempo sem Espaço: a Intenção do Som, a Imaginação do Som, o delinear de uma sinfonia na cabeça do Compositor. Não ainda a Música da Criação, mas a Criação Mental da Música.


A Justiça, a Misericórdia e a Beleza são Princípios Éticos, Concepções acerca da Obra, nada denso ou sólido, mas fundamentos mentais em ebulição no calor do pensamento para a execução da obra. Este triângulo mental está no período de sonho e desejo. Briah é fogo e desejo.



Yetzirah: Espaço sem Tempo


O que dá existência ao Tempo é o Movimento. O Espaço vazio, sem nada que o ocupe e que se desloque sobre ele, é o Espaço sem Tempo. Só pelo movimento sobre o espaço surge o deslocamento e a sucessão de instantes, as durações. Diz o Cabala: “Antes que pusesse sua coroa para estabelecer seu reinado ele delimitou o Ilimitado dentro de limites. Correu uma cortina diante D´Êle e nela Ele começou a desenhar o Seu reinado. Mas nada existia, exceto em nome.” Este é o Espaço sem Tempo. A Prancheta de Deus, um desenho da Obra, o plano no papel, o pensamento e a intenção transformando-se em projeto. Desenho sem vida, imóvel, apenas traços em uma folha, rabiscos da Criação.
Em Yetzirah as bases da sinfonia embora prontas, não estão redigidas, devidamente delineadas. Começa então o Criador-Compositor a escrevê-la. Ele tem diante de si a pauta e repassa todos os detalhes, compassos, tempo de entrada em relação a todos os instrumentos. O Som , entretanto, ainda não se propaga.
Yetzirah é a redação das notas, não o concerto. Diz o Cabala: “Deus separa de Si mesmo todas as coisas ainda que Ele não esteja separado delas.” Yetzirah é Elaboração, Organização do Desejo em Projeto.


O Compositor está Criando, colocando suas Inspirações e Imaginações em uma folha de papel, retirando D´Êle a Obra, que ainda assim será uma extensão de Si Mesmo. Mas não há som, apenas um espaço em potencial a ser preenchido. Não havendo Som que se desloque, não há movimento no ar, não há deslocamento, não há Tempo.
Tempo é Movimento. Espaço é “uma cortina estendida diante D´Êle, e nela Êle começa a desenhar Seu Reinado”.
O Espaço, sem Tempo, é a Prancheta de Deus, Seus Traços, Seu Projeto.

quarta-feira, 16 de março de 2011

SINARQUIA


" Não se trata nem de destruir e nem de conservar uma ordem social qualquer por cima dos Estados e de seus chefes, porque esta ordem social não existe - ela precisa de ser criada. Por cima das nossas nações e dos nossos governos há que formar um governo geral, puramente científico, que seja uma emanação das nossas próprias nações e que consagre tudo o que constitui a sua vida interior..."


Saint-Yves Alveyeidre (1842-1909)

Quanto ao fato de que precisamos amarrar o guizo no gato, todos concordam. A questão não é apenas quem vai colocar, mas, principalmente, como fazê-lo.




RELACIONAMENTOS

Por Mario Sales

Existem pessoas que dizem estar melhor enquanto estão sozinhas. Sinceramente não acredito nelas.
Desde o diálogo “O Banquete” de Platão sabemos, pelas palavras do médico Erixímaco, que éramos um, e que os deuses nos puniram, dividindo-nos ao meio. Depois passamos a procurar desesperadamente nossa outra parte, arrancada de nós por um raio terrível de um Zeus enfurecido.
Precisamos de outro que nos complete. E esta busca às vezes demanda tempo e paciência.



Caso tenhamos a impressão de ter encontrado nosso complemento humano e psicológico, esforçamo-nos para conservá-lo, se bem que a única coisa certa da vida é que nada é certo, e tudo que tem um início, tem um fim.
Em nossa necessidade de complementação, aceitamos viver a ilusão da eternidade, na vida e nos relacionamentos.
Comportamo-nos como se nunca fossemos morrer; relacionamo-nos como se tudo que desfrutamos com o parceiro fosse eterno.
Só que não é.
Como tudo na existência, relacionamentos entre seres vivos também tem a sua própria vida e muitos mais fatores contribuem para o sucesso ou o fracasso de um relacionamento do que supõe a nossa vã filosofia.
Um desses fatores é a bagagem que todos trazem aos relacionamentos. Valores morais pessoais, espirituais, religiosos.
Existe claro o contexto de época. A cada momento da civilização os valores mudaram acompanhando as mudanças psicológicas coletivas.


Valores pessoais, crenças e convicções de cada um e a época em que essas pessoas manifestam a sua presença no mundo, dialogam, confrontam-se às vezes.
E deste confronto surge uma atitude resultante, que na verdade combina uma e outra força em uma força diferente na direção e no sentido.
Ao longo dos anos este embate permanece, dinâmico, e provoca transformações nas personalidades e mesmo nas convicções de cada um, pois a única coisa certa na vida é que tudo é impermanente, mesmo os valores que um dia achamos que jamais iríamos abandonar.
Por um lado, esta mutação inexorável das personalidades causa insegurança em alguns; em outros casos é um alívio. Imagine um relacionamento que tem tudo para dar certo, mas por causa do orgulho empedernido de um ou de outro se desfaz. Anos mais tarde pode ser que ambos olhem para trás já sem a paixão ou o apelo da emoção, e lamente seus atos e sua intempestividade. Só que nesta hora, Inês é morta, nada mais poderá ser feito, pois tudo flui com o tempo e aquêles que se separaram um dia jamais poderão se reencontrar. Se em algum momento no futuro as mesmas duas pessoas se reencontrarem com certeza já não serão as mesmas. A Vida terá feito o seu trabalho de lapidação e assim, um re-encontro torna-se impossível.
Só novos encontros são possíveis já que tudo é novo em uma existência que é fluida e dinâmica como a nossa.
Não falemos de anos; falemos de dias, horas.
Enquanto estamos em um relacionamento, embora não percebamos, as mudanças se efetuam,minuto após minuto.
Podemos ter duas atitudes em relação a esta situação: uma atitude reativa ou uma atitude proativa.
Na primeira, uma vez que percebamos sinais de situações que podem vir a nos trazer embaraços, nada fazemos.
Deixamos que as plantas cresçam sem podá-las e depois, honestamente, não podemos reclamar da forma que o jardim tomar.
A outra é a forma proativa em que monitoramos as alterações dia após dia, mantemos nosso foco no outro, fazemos dele nosso objeto de concentração, de forma a adequar palavras e gestos às mudanças que virão de modo tão certo como o Sol amanhã de manhã.
Não devemos ter receio de interferir, de nos responsabilizarmos pela qualidade de nosso relacionamento. Relacionamentos são investimentos e como tal, merecem todo esforço que pudermos fazer para preservá-los do desgaste.
Isto tudo deve ser feito com elegância e consciência, sempre em atenção ao que vai no nosso coração e não ao que vai na nossa cabeça. Não se trata de atitudes cerebrais mas de estratégias motivadas pelo valor que damos aquilo que estamos protegendo, como as atitudes de um pai amoroso com seu filho, para as quais sempre existe energia, disposição, disponibilidade. Afinal são nossos filhos, nós os amamos e faríamos quaisquer coisas por eles.
Amor, essa é a chave. O mesmo amor que hoje assusta os jovens que não querem senti-lo ou declará-lo com medo do compromisso ou do erro, como se a Vida nos permitisse escapar de sentimentos ou como se não tivéssemos sentimentos.
Não é bem assim. Um dia amaremos, quando menos esperarmos. E viveremos por este amor, e morreremos por eles. Ninguém, mesmo que fuja, livrar-se-á desta bênção e desta maldição.


Amar é ser laçado com corda forte. O resto acontece. Todo nosso orgulho desaparece. Toda nossa vontade , nossa ânsia de independência, nossa auto estima, desaparecem. O ser amado passa a ser o foco de nossa atenção e damos o salto, transformando-nos de seres egocêntricos, egoístas, em seres altruístas, que mais se preocupam com o bem do outro, do ser amado do que com o seu próprio.
Não é algo que desejemos ou queiramos. Simplesmente acontece.
Pode-se lutar contra isso; pode-se até negar que esteja ocorrendo, para nós mesmos principalmente.
Mas será mais doloroso e improdutivo.
É melhor render-se e deixar-se arrastar, não como um feixe de lenha inerte arrastado pelos campos pelo agricultor, mas como um surfista que escolhe a onda com cuidado e até, com algumas braçadas alcança o seu topo, propositalmente, para depois deixa-se levar por ela, equilibrando-se enquanto o mar e suas ondas seguem em direção a praia.


Surfista e onda um único ser, cúmplices em busca do mesmo objetivo: o prazer de desafiar o imponderável, a satisfação de correr um risco calculado, o risco maior de conseguir surfar até a praia e divertir-se como nunca naqueles poucos minutos. Um risco de ser feliz tão intenso que valerá a pena, uma vez chegando a praia, prancha embaixo do braço, voltar ao mar em busca de novas ondas, de novos prazeres.
Ironicamente, o mesmo oceano pode oferecer muitas e diferentes ondas. É preciso perseverar.

Trocar de Oceano não melhora a performance, pois cada um tem suas próprias marés, seus próprios recifes, seus perigos particulares.
O ideal é praticar sempre, no mesmo local, no mesmo mar, e insistir até que a familiaridade com aquelas águas nos dêem a segurança necessária para desfrutar mais intensamente cada onda que pegarmos.
Precisamos todos de um pouco de estabilidade nesta instabilidade permanente que é o Oceano da Vida, este Oceano do relacionamento com outro ser humano.
Se gostamos, com nosso coração, desta praia e deste mar, esforcemo-nos por aprender sobre ele. Um dia nossa persistência e constância será recompensada.
Concentremo-nos. Não percamos o foco.
Talvez este seja o segredo da felicidade a dois.

terça-feira, 15 de março de 2011

A ORAÇÃO E SEU PAPEL NA CONSOLIDAÇÃO DA SANTIDADE NO HOMEM COMUM

por Mario Sales,FRC.:,S.:I.:,M.:M.:

“Sobre tudo o que se deve guardar,
guarda o teu coração porque dele
procedem as saídas da vida”.
Provérbios, 4-23


“Todas as portas do céu estão fechadas, exceto a porta das lágrimas.
Os que guardam as portas do céu abrem-nas
para admitir as lágrimas derramadas durante a oração”
Zohar, cap. 13


Irmãos e irmãs,



Existe algo mais sagrado com certeza do que um momento de oração verdadeiramente sincera e íntima, só que eu não sei o que seja.De todas as práticas às quais o místico se devota como parte de sua rotina diária no mundo profano, a oração, na minha opinião, é a que mais se aproxima do título de técnica de todas as horas e de todos os momentos.


É comum na leitura da Bíblia passarmos ao largo de uma questão que salta aos nossos olhos e que tentamos disfarçar pela sua assustadora significação: a conversação entre Deus e seus profetas. Frases como “E deus disse...” se avolumam por páginas e páginas sem que paremos para com seriedade considerarmos esta estupenda e espantosa revelação: Deus fala com os homens em certas circunstâncias. Não com qualquer tipo de homem pois só seus profetas (Abraão,Moisés, Isaías, Jesus) ouvem sua voz, mas mesmo assim, porque reconhecem nessa voz a voz do altíssimo não tem dúvidas em seguir suas orientações. Vejam o caso de Noé por exemplo. Mesmo àquela época, onde as mentes eram mais simples e supersticiosas, ele foi vítima de ridicularização pelos seus vizinhos e mesmo entre os seus familiares houve constrangimento.Ou no caso de Abraão que à luz de uma visão moderna, mas provavelmente não descabida de sentido, seria preso e internado caso fosse pego tentando matar o próprio filho em um sacrifício que segundo ele , lhe teria sido solicitado por Deus em pessoa.



Tais homens enfrentaram o medo, a vergonha, o apego aos seus, e mesmo a dúvida, porém não vacilaram em seguir orientações que sentiram dentro de seu coração vinham do próprio todo poderoso.


E quando lemos estas coisas perguntamos: “-Se eles falavam com Deus porque nós também não falamos? Provavelmente estas histórias são simbólicas, metafóricas, não se referem a fatos históricos”. E concluímos que eles provavelmente não falavam realmente com o próprio Deus, mas que tais relatos têm uma finalidade didática e religiosa. E assim nos sentimos psicologicamente mais confortáveis.


Só que os relatos se sucedem. E vão se aproximando assustadoramente no eixo do tempo de nossa época, com as biografias de santos como Joana D´Arc, para citar alguém cuja vida está militarmente documentada, ou Santa Teresa d`Ávila, que representa um exemplo de devoção de elevação mística devocional. Todas essas pessoas diziam ouvir a voz de Deus, falar com Ele, seguir suas orientações, dialogar constantemente com o Todo Poderoso buscando seu conselho como se busca o conselho de um amigo em quem muito confiamos ou com o qual apenas compartilhamos nossa angústia. E a narrativa da vida destes personagens históricos recentes, revela o mesmo embaraço da parte daqueles que com eles conviveram que por não escutar esta Voz Poderosa que eles diziam ouvir apenas acompanhavam seus atos visíveis cheios de dúvidas, convencendo-se de que alguma coisa acontecia realmente entre estes indivíduos e alguma força indescritível e invisível, dados os resultados surpreendentes de seu desempenho no cotidiano. No caso de Joana D´Arc, não importava o fato de que ela falasse ou não com Deus. O fato é que sob suas ordens, quase sempre descabidas de sentido à luz da razão, os franceses venceram os ingleses e o Delfim foi coroado Rei de França.


Portanto, o que a Bíblia revelava acerca de seus profetas ainda ocorre nos nossos dias: alguns de nós crêem que podem conversar ou conversam realmente com Deus, e fazem desta conversa a base de sua conduta no cotidiano.


E como se dá esta conversação? Com certeza não em palavras audíveis senão outros ao lado destes Sublimes Enlouquecidos escutariam a mesma voz e não teriam dúvidas sobre o que eles afirmavam. A escuta deve ser interna, através de uma audição psíquica, que não é necessariamente composta de sons, mas que nada impede que assim o seja.



Ao que parece, as “palavras de Deus” são intuições impressas em nossa mente de forma indelével, acompanhadas daquela certeza inerente às inspirações intuitivas, epifanias que dizem respeito apenas ao arcabouço simbólico daquele que a recebe. E quando falo em “ouvir as palavras de Deus”, não considero que as pessoas que tiveram esta experiência estavam em uma mesquita, igreja ou sinagoga de forma a ter um ambiente propício para tal evento. Não consta que houvesse um templo no alto do monte Sinai aonde Deus segundo a tradição passou a Moisés os dez mandamentos, ou que Noé estivesse em um templo ao receber a ordem de fazer a Arca. Aliás, já que falamos de Noé, lembremos que seu comportamento, embora reconhecido pelo próprio Deus como justo, não poderia ser tomado como exemplo de conduta.


Noé era um homem comum. Sujeito aos erros e aos acertos como todos nós. Após ter salvo a descendência da humanidade, torna-se um agricultou. Planta uma vinha, e bebe do líquido de seu fruto. E se embriaga, a ponto de bêbado, cair nu em sua tenda e ter de ser vestido por seus filhos ( Genesis, cap.9, vers. 20 até 29).



Este homem, capaz de ser vítima da bebida, é um dos que foram tocados pela Voz do Altíssimo. Portanto, um homem comum, mortal, capaz de erros, assim como todos nós aqui, tem a possibilidade de conversar com o Altíssimo. É como Pedro diz em Atos dos Apóstolos: Deus realmente não faz distinção de pessoas. Indo além, qualquer um de nós pode ouvir tal voz. Ou mais ainda: talvez todos a ouçamos todo o tempo, mas não a reconheçamos, ou a neguemos, ou a desobedeçamos, traídos pela idéia de que isto não é possível e que somos seres racionais que não devem se levar a sério, pois, tais desvarios.


A questão é: existe um meio aceito de estabelecer este contato íntimo, esta conversa transcendente sem que pareçamos tomados pelo desatino?


A resposta é sim, existe.


Este meio é a oração.


É através da oração que podemos conversar com Deus e ao mesmo tempo praticar esta intimidade descrita no Antigo Testamento ou na história medieval da França, com Joana D´Arc, de forma simples e socialmente imperceptível.


Graças a Deus, nem todos nós precisamos construir arcas ou salvar o Rei.


Às vezes, em uma oração, precisamos apenas dar conta de nosso dia a dia, de problemas os mais mundanos possíveis, e nada impede, e é até bom que assim seja, que o ser humano comum recorra através da oração ao Altíssimo como fonte de inspiração e conforto.


Embora gostemos de perecer autônomos e racionais, a vida não pára de lançar sobre nós desafios os mais freqüentes, problemas os mais numerosos, sejam de natureza social, psicológica, sexual ou espiritual. São angústias as mais mundanas, mas que podem e tiram nossa serenidade e nosso sono. Os problemas mais comuns são aqueles do relacionamento humano, em família, e nessas horas, o homem comum que tenha noção da importância da oração, recorrerá a ela para aliviar seus temores e suas inseguranças. E quanto mais alívio perceber em seu espírito através da oração mais ele orará em busca de conforto. Tornar-se-á um aspecto comum de sua existência.



Aos poucos, perceberá que não ora apenas por precisar de algo, mas para agradecer a Deus por uma bênção inesperada. E se tudo correr de forma comum, pouco a pouco este homem verá na prece também uma forma de conversação cotidiana e fácil entre ele e o Altíssimo.


Não falamos aqui de uma oração especial, de um contato sublime, mas de intimidade e companheirismo. Referimos-nos a um estado de amizade com Deus, baseado no amor entre dois amigos. Esta oração comum, despojada, entre um homem comum como Noé e seu Deus, é uma prática que sem dúvida contribuirá para que este indivíduo penetre no reino dos Céus.


Como na citação em epígrafe do Zohar, a cabala ensina que “todas as portas do Céu estão fechadas, exceto a porta das Lágrimas. Os que guardam as portas do céu abrem-nas para admitir as lágrimas derramadas durante a oração e colocá-las diante do Santo Rei, já que Deus participa das penas do homem” . Quando oramos, por motivos comuns e cotidianos, não oramos de uma maneira certa ou errada. O importante é que oremos para praticar este contato, para aprofundar esta intimidade com o Altíssimo do qual muitas teorias e ritualismos tentam nos afastar.


É assim que pouco a pouco, qualquer um de nós, sejamos ou não eruditos, sejamos ou não homens e mulheres destacados em nossa sociedade, podemos caminhar em direção a um estado de intimidade com Deus conhecido por todos os santos da história, e assim tornarmo-nos, como eles, também pessoas santas.


Diz ainda o Cabala, no Zohar: “Os mundos de cima sentem pela região das lágrimas o mesmo desejo que o macho sente pela fêmea. Quando o Rei se aproxima e a encontra triste, Ele lhe concede tudo que ela deseja. E como sua tristeza é reflexo da do homem, Deus se compadece. Feliz é o homem que chora enquanto está orando.”


O estado de angústia que induz à oração simples, sendo sincero e estando em harmonia com o coração do peticionário, o levará as lágrimas. E estas refletirão sua sinceridade. Não que todos nós precisemos chorar para alcançar graça aos olhos do Senhor, mas devemos sim atingir um tal grau de sinceridade em nossas preces que as tornem as mais fortes possíveis.


Toda oração tem uma força diretamente proporcional à sua sinceridade, no momento que é feita. E é a partir de uma angústia real que muitos começam a rezar.


Ao longo do tempo, no entanto, a oração se transforma num hábito e perde a sua especificação inicial de técnica para fugir ao desespero. Digamos que o desespero é a fagulha de uma grande fogueira, mas de forma alguma é a fogueira em si.


É quando chega à condição de prática cotidiana que ela começa a nos transformar alquimicamente em pessoas de Deus, e mais tarde no próprio Deus.


Diz o Cabala: “Aquele que bendiz o Santíssimo atrai vida da fonte de vida a este mundo de baixo. Ademais aquele que pronuncia a bênção, recebe uma parte para si mesmo, e aquele que diz amém a ela é também abençoado. E a bênção se estende por todos os mundos e até desce às regiões inferiores, onde assim se anuncia: Aqui está o dom enviado ao Altíssimo por Fulano de tal. Um mistério supremo jaz oculto na Bênção.”


Como mostra o Zohar, não existe uma oração melhor ou pior, mais ou menos santa, se for feita com o coração, mesmo que se refira a assuntos do cotidiano, mundanos, que causem desespero e lágrimas. Pelo contrário, nestes instantes atraímos sobre nós as forças do Alto, e com elas a Bênção de Deus, que nos penetra, nos preenche e a qual irradiamos em volta de nós e de nossos familiares e amigos. Existe uma conexão permanente entre o que está em cima e o que está em baixo e a oração fortalece este fluxo de forças, de forma progressivamente mais intensa.


Conversar com Deus a todo instante, ouvir sua voz inaudível, porém clara, é o passo seguinte. Não precisaremos parar para orar, mas estaremos em constante estado de conexão e oração, de forma que a Vontade Maior se tornará nosso guia e estaremos realmente nas mãos do Todo Poderoso. Perderemos progressivamente o medo de assim nos comportarmos, e isto nada terá a ver com um aumento da fé, mas sim da nossa confiança em um relacionamento amoroso, como aquele que temos com alguém que amamos profundamente, nosso marido, nossa esposa, nossos filhos, e pelos quais daríamos sem pestanejar, nossa própria vida.


Este é o grau de relacionamento amoroso que o místico, principalmente o místico martinista deve procurar em seus momentos de oração, quando tomado pela aflição ou apenas pela vontade de estar na companhia do Altíssimo, deixando sua consciência ser levada a esta comunhão espontânea que nos alimenta e sustenta enquanto estivermos neste corpo e mesmo quando não estivermos mais dentro dele.


Pois não há dois tipos de vida, mas apenas uma vida, como lembrava Saint Martin.


Em qualquer condição em que estejamos não há objetivo maior para o místico do que conseguir esta fusão com o todo poderoso, que muitos se habituaram a chamar de Santidade.


E a oração é a técnica para isso, desde que venha de um coração sincero. E é por isso que precisamos guardar nosso coração, a parte mais importante de nosso ser, porque nos mantém em contato com o Altíssimo, não por palavras, mas por nossos sentimentos.


Oremos todos, pois, todos os dias, e recolhamos as bênçãos que Deus despejará sobre nossas cabeças como o óleo que unge a testa do justo.


Amém.

domingo, 13 de março de 2011

DEFINIÇÕES

por Mario Sales FRC.:,S.:I.:,M.:M.:

Para encerrar a conversa:

1. Martinismo não é Martinezismo. A TOM é TOM por que é a Tradicional Ordem Martinista e não a Tradicional Ordem Martinezista.
2. Para bom entendedor, pingo é letra: da Teurgia do passado, restou apenas a Prece, Graças ao Cósmico e a Iechouá.
3. TOM não é Ellus Cohen. E ponto final.

Quem tiver ouvidos para ouvir que ouça.

sábado, 12 de março de 2011

O OCULTISMO E A TEURGIA ESTÃO FORA DE MODA 3

Por Mario Sales, FRC.:,S.:I.:,M.:M.:

Acredito que toquei na ferida. As reações apaixonadas, poucas, aliás, que recebi ao longo da semana na defesa do Ocultismo, mostram que ainda temos um longo caminho pela frente neste debate. Temos tempo, no entanto. E pelo jeito em ambiente democrático, todas as posições são bem vindas, até para esclarecer as emoções, como gostava de falar o psicólogo americano Carl Rogers.

Carl Rogers
Talvez o coração deste debate não seja o Ocultismo em si, mas a estratégia eleita para seu uso. O Ocultismo, como lembrou o frater de pseudônimo AEC, é uma forma de cultura, indubitavelmente, inscrita na história da sociedade humana e cujas manifestações simbólicas se estendem por séculos de civilização. Só que como comentei antes trata-se de um fenômeno datado (séc. XVII e XVIII), que teve um repique no séc. XIX, com a instituição da Ordem Hermética da Aurora Dourada (Golden Dawn), em 1880, e, claro com a fundação da Sociedade Teosófica por Helena Petrovna Blavatsky e outros, em 1875. Sei que suas origens remontam aos primórdios da civilização mas estas datas citadas são aquelas em que atingiu seu auge.
Helena Blavatsky

A Inglaterra é o epicentro desta movimentação de reorganização do Ocultismo, e, relatam os nossos historiadores esotéricos, tal situação tinha uma finalidade específica: contrabalançar o avanço de teorias materialistas, como a filosofia Marxista, chamada de Comunismo, e a filosofia Positivista de Augusto Conte. É narrado por Spencer Lewis que em função desta estratégia, Blavatsky apoiaria em um primeiro momento o trabalho de Alan Kardec na fundação do Movimento Espírita, na intenção de reforçar o combate a iniciativas materialistas e ateístas, para mais a frente, quando as instituições estavam mais sólidas, retirar discretamente este apoio.

Isidore Auguste Marie François Xavier Comte
Longe destas análises políticas sobre o Ocultismo e seu papel na tentativa de coibir o avanço do Materialismo Ateu, ele persevera no Imaginário de muitos místicos como um caminho para a iluminação.
Nós, rosacruzes, somos e fomos ocultistas, em todas as épocas, preservadores dedicados da tradição esotérica do mundo civilizado. O que quis evidenciar com meu ensaio, propositadamente provocativo em suas imagens, é que a estratégia de uso do Ocultismo como um caminho para a iluminação foi denunciada há muito como desnecessariamente complexa e enganosa, no mínimo dúbia. O que os Ocultistas do passado queriam com suas práticas mágicas ou teúrgicas, não podemos garantir, pois eles não estão mais entre nós, (e mesmo assim estão) para nos dizer com clareza. O que verdadeiramente importa, no entanto, é o que eles diziam para si mesmos. O campo mais profundo do esoterismo e do Ocultismo, e esta é a minha tese central, minha “piéce du resistance”, é o homem e suas causas psicológicas para dedicar-se a tais práticas.
Dizer que a prática do Ocultismo sempre foi uma busca de Poder pode ser um reducionismo, concedo, só que é um reducionismo fundamentado. Ninguém dedicar-se-á a estudar Magia e Teurgia, durante anos, com prejuízo de sua vida pessoal e profissional, por vêzes, em busca, apenas, de auto conhecimento.
O Ocultismo provê ferramentas para determinadas operações e ao realizá-las, liberta energias com as quais é preciso lidar, seja para usá-las em determinada finalidade, seja para comprovar, pura e simplesmente, sua real existência. De qualquer forma, em minha opinião, repito, ninguém buscou o Ocultismo, em todas as épocas, apenas e tão somente como forma de cultura pessoal. Falemos com franqueza, existia uma intenção mais prática nesta busca. Só que o Ocultismo traz consigo uma perigosa tentação. A Vaidade. Não há como escapar desta verdade.
Aleister Crowley
Esta Vaidade é que pode solapar o caminho da espiritualidade. A sensação de poder que advém de práticas ocultistas muitas vêzes é inevitável. E com isso vem a Vaidade.
É um sofisma dizer que os atos são sempre bidirecionais e que o que está dentro está fora, e portanto todo ato do Ocultista reflete uma busca pelo auto aperfeiçoamento. O Misticismo verdadeiro, que é diferente do Ocultismo, é um movimento eminentemente para dentro, em busca do Graal, do Cálice Sagrado, que se esconde dentro de nossos corações. O Ocultismo em si e por si é um movimento para o Externo, para o que está fora, já que busca um relacionamento com energias exteriores a nós, seres fantásticos e energias do Universo cujo domínio é delicado e às vêzes perigoso.
Sim, é claro que os movimentos se compensam e existe uma dinâmica dentro e fora do indivíduo, como lembra a Tábua de Esmeralda.

Só que este é um jogo de espelhos, um na frente do outro, que oculta a origem do primeiro raio de luz. É aí, nesta origem, no sentido que apontamos o primeiro raio, que reside e se oculta a Intenção do praticante de Ocultismo. Sim, porque o Ocultismo é uma prática, não só uma teoria. E ninguém se esforça na busca de uma habilidade qualquer para não usá-la. Ninguém em sã consciência vai estudar Magia e Teurgia por anos sem a intenção de pô-la em prática e usufruir os possíveis benefícios que advém desta habilidade. Novamente, o que importa neste debate é, portanto, a Intenção por trás da prática ocultista, e não o Ocultismo em si. Foi citado no debate que a prece é uma prática ocultista, já que nos conecta com o mundo das forças espirituais. Concordo. Só que a prece é um exemplo diferenciado. Na prece, e aí me refiro ao tipo de prece que o homem faz na intenção de encontrar com seu Deus interior, temos a única prática oculta que mostra como sentido inicial aquêle para dentro.
E aí o raio de luz começa a se refletir no espelho interior do espírito humano e resvalar para fora do homem, iluminando a criação a sua volta e refletindo nela a sua luz interior que então, novamente reflete na criação e retorna para o homem na forma de bênçãos intermináveis, principalmente as bênçãos espirituais, aquelas que garantem bem estar e serenidade, equilíbrio familiar e pessoal. Já os praticantes de Ocultismo por excelência não tiveram uma vida pessoal que demonstrasse esse tipo de bênção. E a lista de exemplos é longa e antiga. Começa em John Dee. John Dee (Londres, 13 de julho de 1527 - Richmond upon Thames, 1608 ou 1609) foi um matemático , astrônomo, astrólogo, geógrafo e conselheiro particular da rainha Elizabeth I. Devotou também grande parte de sua vida à alquimia, adivinhação, e à filosofia hermética. Quero transcrever aqui, da Wikipedia, um trecho de sua biografia:
John Dee
“No começo da década de 1580, crescia a insatisfação de Dee com seu pouco progresso em aprender os segredos da natureza e com sua própria falta da influência e do reconhecimento. Começou a se voltar para o sobrenatural como meio de adquirir conhecimento. Especificamente, tentou contactar anjos através do uso de um "scryer" ou bola de cristal, que agisse como um intermediário entre Dee e os anjos. As primeiras tentativas de Dee não foram satisfatórias, mas em 1582 encontrou-se com Edward Kelley, que o impressionou extremamente com suas habilidades. Dee pôs Kelley a seu serviço e começou a devotar todas as suas energias a suas perseguições sobrenaturais. Estas "conferências espirituais" ou as "ações" eram conduzidas sempre após períodos de purificação, de preces e de jejum. Dee foi convencido dos benefícios que eles poderiam trazer à humanidade. (o caráter de Kelley é mais difícil de avaliar: alguns concluíram que agiu com completo cinismo, mas a desilusão ou a decepção consigo mesmo não estão fora de questão). Dee dizia que os anjos lhe ditaram muitos livros desta maneira, alguns em uma espécie de língua angélica ou enochiana. Em 1583, Dee conheceu o nobre polonês Albert Laski, que convidou-o para lhe acompanhar em seu retorno a Polônia. Através de alguns sinais dos anjos, Dee foi persuadido a ir. Dee, Kelley e suas famílias foram para o continente em setembro 1583, mas descobriram que Laski estava falido e aquém dos favores da côrte de seu próprio país. Dee e Kelley começaram uma vida nômade na Europa central, mas continuaram suas conferências espirituais, que Dee registrou meticulosamente.
Edward Kelley
Tiveram audiências com o imperador Rodolfo II e com o rei Stefan I de Polônia e tentaram convencê-los da importância de suas comunicações angélicas. Foram ignorados por ambos os monarcas. Durante uma conferência espiritual na Boêmia (que corresponde atualmente a parte da República Tcheca) em 1587, Kelley disse a Dee que o anjo Uriel ordenou que os dois homens compartilhassem suas esposas. Kelley, que nessa época estava se tornando um alquimista proeminente e era muito mais procurado que Dee, pode ter desejado usar isto como uma maneira de acabar com as conferências espirituais. A ordem provocou em Dee uma profunda angústia, mas ele não duvidou de sua autenticidade e aparentemente deixou que ela fosse em frente, mas pouco depois abandonou as conferências e não voltou a ver Kelley. Dee retornou a Inglaterra em 1589.”
Obviamente, Kelley era um indivíduo mal intencionado. E Dee só não percebeu isso, porque em sua ingenuidade se deixou levar por um enganador. O que é estranho e que muitos não conseguem entender, é como um homem de tamanho conhecimento se deixou enganar por um reles charlatão, provavelmente hábil com as palavras e capaz de alguns feitos impressionantes, mas nem por isso menos charlatão. Isto é simples de responder: Dee deixou-se cegar pela Falsa Luz. Tão alardeada e comentada, esta Falsa Luminosidade que engana os tolos provém do acúmulo de conhecimento puro na ilusão de que o conhecimento de per si traz sabedoria. Não é bem assim. Como o Intelecto, o Ocultismo é fascinante em sua complexidade e em seus efeitos. Da mesma maneira como o intelecto pode nos iludir com suas piruetas, o Ocultismo também pode. Dee estava totalmente fascinado pela Magia e pela Teurgia e não poderia ter percebido que, ao seu lado, sua própria esposa seria vítima de um escroque, que na sua malícia justificou-se na própria Teurgia para justificar seus atos. Ao homem envolvido com práticas ocultistas sugere-se prudência e cuidado, de forma que não perca o foco de sua real intenção em buscar o Ocultismo. É sabedoria que ele busca? Ou apenas Conhecimento? E este Conheciemnto uma vez conseguido, lhe trará progresso espiritual ou aumentará sua própria vaidade e sensação de autonomia dos desígnios divinos?

Saint Martin
Quando Saint Martin opta por um trabalho discreto (“Descobri que fazer alarde não faz bem, assim como fazer o bem não deve fazer alarde”) manda uma mensagem a todas as gerações de Ocultistas, que além de Ocultistas eram Místicos, de que se concentrassem na Via Cardíaca, dentro de si mesmos, e que buscassem com fervor apenas um mistério, o maior de todos eles, aquele que em si sintetizava todo a busca esotérica e Ocultista: a busca de Deus em nós mesmos. E alertava que para tal busca não eram necessários complexos rituais, nem jejuns especiais, nem encantamentos obscuros. Bastava-se para isso voltar-se para a Luz Maior que emana de nós mesmos e procurar refleti-la em todos os nossos atos pela prática da Misericórdia, transformando-nos em “agentes de Deus na Terra”.

AMORC
Não foi acidental que AMORC se tornasse a protetora do empreendimento de Saint Martin como reelaborado por Pappus. Não deixamos de prestar reverência a Willermoz nem de honrar a memória de Martinez de Pasqually, da mesma forma que Saint Martin honrou. Só que o caminho de Saint Martin é absolutamente diferenciado daquele do Ocultismo Martineziano, aonde bebe apenas por deferência ao seu mestre, mas do qual não precisaria para organizar seus próprio método de busca do Divino, dentro de si mesmo. Isto está em perfeita consonância com o trabalho Rosacruz ao longo dos séculos.
Alquimista

O que nos difere, nós, frateres e sorores, é que se alguma prática ocultista e alquímica fizemos ao longo destes séculos, e com certeza não há maiores ocultistas do que os rosacruzes na história do esoterismo, sempre o fizemos com foco na busca por Luz Espiritual. Este era e ainda é nosso objetivo. Quando percebemos, por consenso, que o Ocultismo era uma prática desnecessária a esta busca, enveredamos por outro caminho, por outra estratégia, a estratégia de adequar a nossa busca por conhecimento ao modelo proposto pela ciência do século XX. Este foi o papel histórico de Harvey Spencer Lewis: fazer estra transição de estratégia sem traumas. Os rosacruzes, desta forma, evoluíram em suas práticas, e despiram a busca esotérica de sua roupagem romântica, dando-lhe uma objetividade e uma verificabilidade que lhe garante um caráter científico extremamente moderno. Os Rosacruzes hoje representam uma nova classe de Ocultistas e como a Alquimia deu as bases para a Química, embora uma não seja superior a outra, apenas menos subjetiva, da mesma maneira o Ocultismo deu lugar ao Trabalho Esotérico Científico, do qual a maior expressão é a Universidade Rose Croix, aonde experimentos de caráter positivista, investigam em ambiente e condições controladas os mesmos fenômenos que Dee investigava de forma confusa em seu tempo.

Nem deveria ser de outra forma. Muito sofrimento mostrou que práticas ocultistas liberam energias com as quais na maioria das vêzes, seres humanos comuns não estão aptos a lidar. É preciso cercar a investigação de cuidados iguais àquêles que cercam quaisquer procedimentos de investigação na ciência ortodoxa. Cuidados que visam preservar a integridade dos pesquisadores e produzir um conhecimento epistemologicamente confiável, e não um número descomunal de interpretações pessoais que carecem de comprovação ou fundamento.
Kant dizia que sensação é o estímulo organizado, percepção é a sensação organizada, concepção é a percepção organizada, ciência é o conhecimento organizado, sabedoria é a vida organizada.
O Moderno Misticismo Rosacruz, do qual o Ocultismo é um subproduto, uma subdivisão, beneficia-se desta forma kantiana de pensar, procurando dar organização ao seu conhecimento para transformá-lo em ciência e orientando os rosacruzes da AMORC a usar esta ciência em suas próprias vidas, de forma a demonstrarem com a organização de suas próprias existências, a Sabedoria de seus ensinamentos. Em última análise, é o sucesso pessoal, profissional e psicológico de um indivíduo que demonstra o acerto ou o erro de suas opções pessoais.
Se a prática do Ocultismo trouxesse estes três tipos de conseqüências para seus praticantes, eu me calaria. Só que não é assim. Ao contrário, na sua grande maioria, adeptos de práticas essencialmente ocultistas viram sua vida entrar em desequilíbrio e drama, como a de John Dee na Inglaterra do séc. XV.
Dirão alguns: “Este é um exemplo isolado, não representa um padrão.” Muito bem, vejamos então a história de um mago mais recente e um Ocultista da época das celebridades: Aleister Crowley.
Crowley
Recebi comentários baseados em seus ensinamentos. Transcrevo uma parte de sua biografia retirada da Wikipedia: “Aleister Crowley, nascido Edward Alexander Crowley (12 de Outubro de 1875 – 1 de Dezembro de 1947), foi um membro da Ordem Hermética da Aurora Dourada e influente ocultista britânico, responsável pela fundação da doutrina Thelema . Ele é o co-fundador da A∴A∴ e eventualmente um líder da Ordo Templi Orientis (O.T.O.). Ele é conhecido hoje em dia por seus escritos sobre magia, especialmente o Livro da Lei, o texto sagrado e central da Thelema, apesar de ter escrito sobre outros assuntos esotéricos como magia cerimonial e a cabala.
Livro da Lei
Crowley também era um hedonista , usuário recreacional de drogas, e crítico social. Em muita de suas façanhas ele "iria contra os valores morais e religiosos do seu tempo", defendendo o libertarianismo baseado em sua regra de "Faz o que tu queres". Por causa disso, ele ganhou larga notoriedade em sua vida, e foi declarado pela imprensa do tempo como "O homem mais perverso do mundo." Além de suas atividades esotéricas, ele era também um premiado jogador de xadrez, um alpinista, poeta, dramaturgo e foi alegado que ele também era um espião para o governo britânico.”
Thelema é uma filosofia mal compreendida.A leitura mais atenta de seu teor mostra uma preocupação com a valorização do ser humano e a pseudo liberdade desenfreada que lhe é atribuída não se confirma no texto. Existe um chamado a responsabilidade pessoal . De qualquer forma, a maneira teatral e midiática como Crowley procedeu as suas operações ocultas deixou espaço para o equívoco e o erro. Todos concordarão comigo, ele nunca foi uma pessoa discreta. De qualquer forma, posso ser acusado de muitas coisas, mas não de ser uma pessoa conservadora ou moralista. No entanto o que chama atenção neste Mago Pop Star é o seu Ego. Suas pregações sempre foram despidas de quaisquer preocupações éticas e ele é o espelho de tudo que eu disse sobre o perigo da Vaidade na prática ocultista. Outros magos tão importantes e célebres autores como Eliphas Levi não buscaram a notoriedade e nem pregaram a destruição de valores ("Faz o que tu queres") de forma tão irresponsável.
Eliphas Lévy
Sim, porque alguém que consegue a fama que Crowley conseguiu poderia ter se aproveitado disso para promover a busca de valores mais elevados. Não era o seu caso. O Hedonismo foi mais forte e ele também cedeu a falsa luz, talvez de modo mais consciente do que seu antecessor e também inglês, John Dee. Esta é uma atitude compatível com os objetivos rosacrucianos? Com certeza não. Repito, não somos moralistas, não fazemos julgamentos de quaisquer pessoas ou comportamentos, pois isso compete a Deus e ao Karma de cada um. Só que nosso caminho é outro, temos outros objetivos. E com certeza, no campo da espiritualidade e do esoterismo, a vida de um homem deve ser um referencial mais importante para corroborar seus ensinamentos do que esses ensinamentos de per si.
Crowley não é, portanto, um modelo a ser seguido ou consultado por nenhum membro lúcido e comprometido tanto da Ordem Rosacruz quanto da Ordem Martinista. O compromisso de rosacruzes e martinistas é com as coisas de Deus e não com as coisas do homem. Crowley arrastou consigo um sem número de pessoas desprovidas de bom senso. Ele fez suas escolhas; deverá portanto, responder por elas ao Universo.
A escolha dos rosacruzes e dos martinistas é outra.
Acho que é isso.

sexta-feira, 11 de março de 2011

REFLEXÕES MÍSTICAS: Tréplica do Frater AEC

Aqui o Frater continua a sua defesa do Ocultismo como uma forma de cultura mística.Ao final, notas de rodapé esclarecem alguns de seus comentários.

Frater Mario


O aspecto grosseiro do ocultismo, magia e teurgia prende- se unicamente aos fenômenos chamados no Oriente de Siddhis, mas como tanto os mestres do ocidente e oriente afirmam, ao percorrermos a senda espiritual os siddhis são uma conseqüência natural, não um fim.

Telepatia, um tipo de Siddhi

Dizer que o ocultismo e a teurgia ou mesmo a magia buscam unicamente o poder, Frater, é um reducionismo.
Não há nada que se manifeste no exterior, que não esteja primeiro no interior. Nos mistérios herméticos revelados no Cabalion(1) , na Tábua Esmeraldina e nos textos alquímicos rosa+cruzes do século XVII e XVIII, estes princípios são esclarecidos.


O pentagrama (microcosmo) e o hexagrama (macrocosmo) estão irremediavelmente emaranhados.
Não há prática exterior a nós; uma prece é uma operação teúrgica. O ritual Martinista, independente da ordem em questão, mesmo simplificado, opera as forças ocultas da natureza. Não há como um membro comprometido participar de um Ritual Martinista, qualquer que seja a ordem,  e não sentir o contato com a cadeia mágica dos mestres passados. Todas as religiões tem seu aspecto exotérico e esotérico. Muito do que comentaste, pertence ao aspecto exotérico, tanto de religiões como ordens, ou mesmo grupos solitários.

A Prece
Interessante questão sobre a psicologia, uma vez que nos tempos modernos a Ordem que mais influenciou o cenário esotérico com suas práticas e idéias foi a Ordem Hermética da Golden Dawn(2) , que através de dois grandes divulgadores, Israel Regardie(3) e Dion Fortune(4) fizeram uma maravilhosa síntese entre magia, ocultismo e psicologia.
Através de uma abordagem psicológica, se ensina e pratica o ocultismo rosacruciano do século XVII e XVIII da Rosa+Cruz de Ouro, fonte dos ensinos da AMORC, e não é em vão que na maioria dos graus, AMORC e Golden Dawn usam o mesmo nome para os graus.

Dion Fortune e Regardie


Frater, para concluir, ainda existe uma igreja interior, um aspecto esotérico, uma realização onde não pseudo- buscadores presos aos fenômenos, mas verdadeiros adeptos se debruçam e realizam incognitamente os mistérios do altíssimo, segundo uma razão não cartesiana, newtoniana, ou clássica, mas "quântica" onde os opostos estão contidos numa única coisa: partícula-onda, dentro-fora, ser-não-ser, morto-vivo.


Fraternalmente,

AEC

PS 1:
[1] O Caibalion (Kybalion) é um livro esotérico e ocultista sobre os Princípios Herméticos, foi publicado pela primeira vez em 1908 em inglês. O livro foi escrito por três indivíduos auto-intitulados Os Três Iniciados, e segundo eles contêm a essência dos ensinamentos de Hermes Trismegistus tal como ensinado nas escolas herméticas do Antigo Egito e da Grécia. O título Caibalion se refere a uma palavra hebraica que significa "Tradição ou preceito manifestado por um ente de cima" e compartilha a mesma raiz da palavra Qabala. Muitas das ideias apresentadas neste livro anteciparam conceitos relativamente modernos da Lei da Atração e do Movimento do Novo Pensamento( da Wikipedia)


PS 2: A Ordem Hermética da Aurora Dourada (Golden Dawn), foi uma sociedade mágica surgida na Inglaterra, na década de 1880, que reunia várias vertentes do Ocultismo, e cujas ramificações encontram-se ativas até os dias de hoje.No dizer de Gerald Yorke, a Aurora Dourada foi "a glória culminante do renascimento ocultista do século XIX, sintetizando um vasto corpo de material desconexo e disperso, em um todo coerente, prático e eficiente, o que não pode ser dito de qualquer outra ordem ocultista de que tenhamos conhecimento naquele tempo ou a partir de então".(da Wikipedia)


PS 3: Israel Regardie, nascido Francis Israel Regudy (November 17, 1907–March 10, 1985) era um ocultista e escritor autor de livros na Ordem Hermética da Aurora Dourada.


PS 4: Dion Fortune, pseudônimo de Violet Mary Firth Evans (1890 1946), psicóloga e ocultista britânica.Violet nasceu em Bryn-y-Bia (Llandudno, Gales), e cresceu no seio de uma família onde se praticava, rigorosamente, a Ciência Cristã. Por volta de 1910, após sofrer uma crise nervosa interessou-se pelo Ocultismo. Em 1919, ela foi iniciada no Templo "Alpha e Ômega", da Ordem Hermética da Aurora Dourada (Golden Dawn), onde adotou o nome-mágico de "Dion Fortune", inspirado no lema de sua família: "Deo , non fortuna "(Deus, não o destino)  Ao mesmo tempo, estudou Psicologia e Psicanálise na Universidade de Londres, onde se formou, passando a trabalhar como psicoterapeuta na Clínica Médico-Psicológica de Brunswick Square (Wikipedia)


Agradeço mais uma vez ao Frater, cujo nome real não sei infelizmente, pela sua agradável e estimulante colaboração.

quinta-feira, 10 de março de 2011

O OCULTISMO E A TEURGIA ESTÃO FORA DE MODA 2

Recebi agora a pouco o email de um frater da AMORC sobre o texto O OCULTISMO E A TEURGIA ESTÃO FORA DE MODA e, com sua autorização, publico, para promover o debate, suas colocações e a minha réplica. Fiquem à vontade para participar.

“Prezado Frater,


Também sou membro da AMORC e TOM
Em vista a seu último poste no Blog, gostaria de tecer alguns comentários. Respeito sua intelectualidade e desinteresse no ocultismo e teurgia. Mas afirmar que morreram ou estão fora de moda, é totalmente um non-sense. Nunca estiveram em moda, sempre foram reservadas a poucos, pessoas dotadas das condições adequadas de determinação e vontade. Apenas para ilustrar que a tradição continua perpetuada em outras ordens, recomendo consultar os sítios da Sociedade da Ciências Antigas, Hermanubis, Ordem Kabalística da Rosa+Cruz, por exemplo. Está, como sempre esteve, viva!... Não é para todos, mas aos verdadeiros homens de desejo, abre os portais de seu santuário.
Que você viva sempre na Eterna Luz da Sabedoria Cósmica !


AEC


Minha resposta:

Caro Frater AEC:


Primeiramente obrigado por seu comentário.
É sempre um prazer inenarrável esta troca de idéias. Em segundo lugar, gostaria de recolocar minhas idéias.
A prática do ocultismo, como o frater deve saber, sempre teve como objetivo o desencadear de efeitos palpáveis na realidade. Eram uma seqüência de técnicas e textos que, se lidos da forma certa, acompanhados de algum tipo de preparação pessoal e ritualismo, resultariam em manifestações visíveis e/ou audíveis de seres etéreos, terrestres ou celestes, permitindo o diálogo com estes seres ou transformando-os em emissários de determinadas incumbências.

Ou seja, ocultismo sempre buscou Poder, nunca auto conhecimento. Sempre buscou as respostas para as perguntas fundamentais (como viver em equilíbrio com meu meio ambiente e meu Deus de forma próspera e saudável) fora do homem e não dentro do homem.
Ao contrário, a busca mística era uma busca para dentro do homem, busca tão ou mais complexa do que a busca do Ocultismo, mas absolutamente livre de quaisquer aparatos especiais ou tecnologias obscuras para empreendê-la, já que o simples contemplar do mar em uma praia já potencializa e dá às vezes o pano de fundo para tal exercício.


Quando falo moda, refiro-me realmente a isto: um conjunto de práticas que alcançou um prestígio grandioso em um período histórico da sociedade, período este que já passou e prestígio este do qual não goza mais.
Era de bom tom que todo aquele que se dissesse místico fosse capaz de discorrer sobre técnicas ocultistas e usasse, ao se expressar, a terminologia própria deste campo.


Hoje, frater , não é mais assim. O frater e eu já podemos conversar sobre a vida mística através de categorias mais psicológicas do que ocultistas. Podemos falar em aprofundamento da consciência, aumento da consciência do mundo e de si, aperfeiçoamento da sensibilidade, uma fala que está encharcada de valores eminentemente psicológicos; no século XVII e XVIII não existia Psicologia Laica, apenas a religião, e a Bíblia, no Ocidente, e o Ocultismo baseado em valores cristãos, que desconhecia o trabalho místico hindu, o Vedanta, os Upanishad, ou mesmo o Corão de Maomé, ou aspectos importantes do Budismo Zen.



O mundo era muito menos globalizado e os Europeus brancos e cristãos ainda supunham ser o conhecimento judaico o único referencial importante na cultura.



Não havia a ciência, não havia positivismo, enfim, não havia Cultura fora dos textos do Velho e do Novo Testamento. Não é a toa que os trabalhos artísticos da época são redundantes e na sua grande maioria tratam de assuntos descritos no Livro Santo dos Cristãos e dos Judeus. Tudo isto mudou, passou, desapareceu.


Hoje a leitura que se faz dos textos bíblicos é muito mais crítica e qualificada ( veja como exemplo o eruditíssimo trabalho do professor Severino Celestino, sobre as muitas leituras possíveis do Hebraico, no You Tube). A Igreja, enfim, perdeu o poder de queimar os pensadores e matar os dissidentes e, livres de suas amarras, uma grande multidão de filósofos começou a pensar baseado em outros parâmetros que não os parâmetros da Igreja.


Foi assim que, pouco a pouco, aquela erudição sacra representada pela prática ocultista foi lentamente substituída pela erudição laica, proveniente de uma Astronomia Galileliana em oposição aos astrólogos, uma química como de Lavoisier, ao invés das Alquimia, e uma cultura mística verdadeiramente livre ao invés de um misticismo aparentemente cristão, mas que, na verdade, era essencialmente católico romano.



Ao contrário do que pareça, tais práticas perderam sim, toda a importância que tiveram um dia, não por serem combatidas, mas porque perderam espaço para a busca pessoal e despojada da Verdade Interior de cada um. E talvez, repito, um dos mais importantes artífices disso foi o próprio Saint Martin que, ao contrário de Willermoz, que continuou organizando templos, dedicou-se a iniciação pessoal e solitária, sem nenhum tipo de aparato, confirmando que "não se precisava muita coisa para ver a face de Deus". Bastava para isso que olhássemos em nossos espelhos, já que ele está dentro de nós. 

Paz profunda frater. 

M