Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

domingo, 31 de outubro de 2010

TRADIÇÃO E INSTABILIDADE

Por Mario Sales, FRC.:,S.:I.:,M.:M.:



Preservar o conhecimento esotérico é uma prática relativamente simples em princípio, mas complexa na execução.
Trata-se de estudar os textos esotéricos deixados por nossos antepassados, do Egito, da Índia, da Tradição Hebraica e Babilônica. Depois, ler os comentários que foram feitos ao longo de séculos, por cabalistas, ocultistas e sábios místicos de várias regiões do planeta.
E aí então, depois de acumular toda esta informação, proceder a um processo de interpretação e tradução para nosso momento histórico, de forma que possamos passar adiante todo este conhecimento.
Três fases: coletar dados, estudá-los e traduzi-los. Isto é preservar a Tradição, este nome genérico que damos a este cabedal de informações heterogêneas às quais damos um aspecto conceitual de unidade.
É isto que esoteristas e ocultistas têm feito ao longo de séculos.
Já os místicos querem apenas aumentar seu contato com Deus. Para êles, os textos não têm tanta importância, são interessantes, inspiradores, mas tudo que o místico precisa está dentro dele.
De qualquer forma, o Corpo de Ensinamentos que costumamos nomear de a Tradição, é historicamente estável, os textos são os mesmos.
Uma coisa, no entanto, não é estável: a interpretação destes textos e a maneira de explicá-los às gerações contemporâneas.
Não há consenso sobre o significado de todos os textos, muitas das vezes não há esforço algum de interpretação do sentido destes textos.
A Tradição, via de regra, é um conjunto de preceitos morais associada a alguns ensinamentos de ordem prática, que possibilitariam o contato com dimensões paralelas ou a manifestação de dons extraordinários, não no sentido de grandiosos, mas sim exatamente o que o termo extra-ordinário diz, ou seja, incomum.
Mais: a Tradição afirma que existe uma correlação entre esses preceitos morais e a manifestação destes dons, de forma útil à sociedade e ao indivíduo.
Seres humanos que desenvolvem um alto grau de altruísmo e respeito pela vida e pela Criação, costumam desenvolver os dons de que falei há pouco.
Este é o eixo da Tradição: existe uma correlação direta entre elevação moral e poder. Nada a ver com as fantasias de poderes malignos, magos negros ou outros delírios da imaginação humana, sempre tão fértil e criativa.
Ninguém, entretanto, explica isto desta forma.
Na terceira fase do que eu chamei acima de Processo de Preservação da Tradição, a tradução dos dados, produzem-se textos pseudo-explicativos sobre outros textos pseudo-explicativos, com semântica rebuscada e complexa, provavelmente com intenções de dar-lhes um aspecto mais profundo. O resultado é a ampliação do corpo de textos da tradição, sem que possamos chegar a compreendê-los adequadamente.
Ou seja, estamos trabalhando a parte externa dos textos da Tradição, a sua parte exterior, Qlifot, do hebreu קליפות que significa pele ou casca no sentido de matéria ou substância. O singular desta palavra é: קליפה Qlifá ou Qelipá.
Não entramos no coração da Tradição enquanto não imitarmos os místicos, e transcendermos os textos.
Sim, eles são importantes, mas podem nos levar a discutir meras aparências e não a essência do que queremos.
Essa é a diferença entre o Erudito e o Iluminado. O Erudito Esotérico tem muitas informações, mas não consegue transmutá-las e sintetizá-las. Já o iluminado tem a Palavra, ou seja, ele recebe intuitivamente a Sabedoria e daí, tem condições de passar toda a existência narrando esta Sabedoria, na forma de um discurso ou de um conjunto de imagens que seja mais adequado a sua audiência, ao seu público.
A Sabedoria é viva, o texto não, mas podemos através da Sabedoria dar Vida ao Texto, com o sopro de nosso espírito, extraindo dele seu significado mais oculto.
Só que a transformação tem que ser em nós.
Em determinado momento a Erudição não nos auxiliará, mas gerará apenas problemas para todos nós, e para usar uma palavra cartesiana, nos induzirá ao Erro do Orgulho, que nos afastará da Luz.
Esta Vida da Tradição mantém dentro dela um movimento constante, uma Instabilidade Permanente, que uma vez tocada, adapta-se imediatamente a época em que for despertada. A Forma não importa.
A Tradição metamorfoseará sua aparência ao longo das eras tantas vezes quantas forem neessárias para se mostrar de forma clara.
E é exatamente por causa disso, a necessidade de atualização constante deste conhecimento precioso e antigo, que ele se reveste com os trajes do símbolo, a única roupagem capaz de se modificar sem deixar de ser a mesma coisa.
Atentemos a estes aspectos quando discutirmos a Tradição: estamos discutindo, debatendo, com nossos lábios ou com nosso coração? E quando lemos os textos sagrados? Lemos com nossos olhos ou com nosso espírito?
Aí vai estar a diferença entre compreender ou não compreender.
O resto é silêncio.

sábado, 30 de outubro de 2010

POR TRÁS DA NARRAÇÃO DOS MITOS



Quando vi esta propaganda acima, comecei a me indagar se não era o modelo do que aconteceu com as lendas místicas humanas acerca de poderes extraordinários.
Conhecemos tecnologias diferentes no passado? Encontramos outros tipos de culturas que nos passaram determinados conhecimentos que hoje, em nosso nível tecnológico, seriam compreendidos como inacreditáveis?
É possível que nossas narrações sejam apenas as vestes românticas de conhecimentos bem mais objetivos do que parecem. E a capacidade de criar Mitos é um talento humano insuperável.
Reflitamos sobre isso.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

UMA ESTRANHA NOÇÃO DE DEUS

Por Mario Sales, FRC.:,S.:I.:,M.:M.:





“... Todas as coisas – móveis e inertes – estão aqui completamente, num só lugar. 8. Mas não Me podes ver com teus olhos atuais. Por isso, Eu te dou olhos divinos. Observa Minha opulência mística! 9. Sañjaya disse; Ó rei, tendo falado essas palavras, o Supremo Senhor de todo o poder místico, a Personalidade de Deus, mostrou a Arjuna a forma universal. 10-11. Arjuna viu naquela forma universal bocas ilimitadas, olhos ilimitados e maravilhosas visões ilimitadas. A forma estava decorada com muitos ornamentos celestiais e portava em riste muitas armas divinas. Ele usava guirlandas e roupas celestiais, e muitas essências divinas untavam o Seu corpo. Tudo era maravilhoso, brilhante, ilimitado e não parava de expandir-se. 12. Se centenas de milhares de sóis nascessem ao mesmo tempo no céu, talvez seu resplendor pudesse assemelhar-se à refulgência dessa forma universal da Pessoa Suprema. 13. Nesse momento, Arjuna pôde ver na forma universal do Senhor as expansões ilimitadas do Universo situadas em um só lugar, embora tenham sofrido muitos e muitos milhares de divisões. 14. Então, perplexo e atônito, com os pêlos arrepiados, Arjuna inclinou a cabeça para oferecer reverências e, de mãos postas, começou a orar ao Senhor Supremo.”     
Bhagavad Gita, cap.11, vers. 7 a 14

Este ensaio é o produto de reflexões que já duram alguns anos.

Em 2007, alguns frateres de um antigo corpo afiliado do bairro de Itaquera, na cidade de São Paulo, chamaram a mim e a outro frater e sóror para realizarmos um seminário intitulado “Conhece-te a ti mesmo". Cada um de nós deveria dar uma visão do que entendíamos como o Ser Humano em nossas áreas.
Assim, como eu sou Médico, fiquei com a responsabilidade de falar sobre o Ser Humano do ponto de vista biológico. A sóror que participou comigo, Psicóloga, falou sobre aspectos da mente humana. E o terceiro frater, de formação espiritualista, falou do homem como um fenômeno espiritual. A quarta palestra deste maravilhoso esforço, na época subestimado, intitulada “A Visão Mística”, ficou sob meu encargo, na tentativa de fazer uma síntese das outras três.
Lembro-me que foi neste trabalho a primeira vez que me veio à mente o conceito de Consciência Cósmica como algo semelhante à Internet. Embora eu seja médico por profissão, já dei aulas e me sinto extremamente envolvido com a função de educação. E como tal estou sempre em busca de um modelo didático que facilite ao meu interlocutor a compreensão do conceito que emito durante uma conversação. Este modelo da Consciência Cósmica foi por isso um presente para mim. Primeiro, porque é uma imagem compreensível em nosso momento histórico. A Rede Universal de Computadores tornou-se, pouco a pouco um fenômeno internacional e cotidiano. Pessoas que nada tem a ver com Informática, inevitavelmente são obrigadas a lidar com este tipo de manifestação tecnológica. Segundo porque os conceitos presentes na chamada definição ortodoxa da Divindade serão facilmente reconhecíveis na Internet. Só ontem, no entanto, me lembrei de uma imagem maravilhosa da edição do Bhagavad Gita publicado pela ISKON, a Associação Internacional para a Consciência de Krishna.Tudo estava na minha frente, mas eu não tinha enxergado.Diz o trecho do capítulo XI que transcrevi acima:
“... Arjuna viu naquela forma universal bocas ilimitadas, olhos ilimitados e maravilhosas visões ilimitadas. A forma estava decorada com muitos ornamentos celestiais e portava em riste muitas armas divinas. Ele usava guirlandas e roupas celestiais, e muitas essências divinas untavam o Seu corpo. Tudo era maravilhoso, brilhante, ilimitado e não parava de expandir-se...”

Concluí que Deus é a Humanidade no seu conjunto. “... Bocas ilimitadas, olhos ilimitados... tudo era ilimitado e não parava de expandir-se”;onipresente, onisciente, e para nós que formamos esta rede de conexões, inconsciente, dado o risco de colapso nervoso ao se perceber tal complexidade com uma psique ou um disco rígido tão limitado.


Transcrevo o trabalho da mesma forma que foi apresentado em fevereiro de 2007 porque não sei como fazê-lo de modo mais claro.

SEMINÁRIO “CONHECE-TE A TI MESMO”


PRONAOS ROSACRUZ ITAQUERA

1° SEMESTRE DE 2007


ÚLTIMA PALESTRA

A VISÃO MÍSTICA



1. O homem não místico entende que Deus surge como criação da mente do homem

2. O místico sabe que o espírito, a mente e o corpo do homem são criações de Deus

3. O ateu, ou melhor, o ser sem sensibilidade mística, pensa o mundo e, quando o percebe, usa para isso seus sentidos físicos limitados, os quais mostram uma pálida idéia do que o cerca. Além da percepção física, que traz as informações de fora, o homem comum percebe também suas emoções, que lhe trazem as informações de dentro, com isso fechando o leque de possibilidades perceptivas.

4. São, portanto seres diferentes, que percebem universos diferentes e não há possibilidade de diálogo entre visões tão distintas
5. Didaticamente falando, o homem comum é como um computador não conectado a Internet enquanto o Místico é como um computador conectado.
O homem comum está só com seus pensamentos e depende inteiramente das coisas que possui em sua memória e em seu disco rígido.

Já o Místico não está só.Divide pensamentos e imagens com todos aqueles que estejam conectado através da Mãe de todas as redes .
Não está restrito ao seu próprio cabedal, mas, enquanto simples terminal, exibe o resultado de pesquisas feitas em toda a face da Terra .Sabe que a autoria de todo o conhecimento que ele transmite ao seu usuário não é sua, mas, mesmo assim, tem acesso a este conhecimento através da rede.

6. Por que algumas pessoas têm esta conexão estabelecida com a Rede Cósmica e outras não?
7. Trata-se da diferença de desenvolvimento da sensibilidade transpessoal.
Quanto a isto vamos fazer algumas considerações.
7.1. Quem busca uma boa conexão com a Internet?
Primeiro: quem tem um bom computador, capaz de um desempenho digno da rede;
Segundo: quem sabe da existência da rede;
Terceiro: quem tem condições de manter esta conexão (seja financeira ou intelectualmente).
7.2. Em termos místicos, quem busca esta conexão com Deus, ou com a Consciência Cósmica ou Rede Cósmica, como queiram?
Primeiro: quem tem um mente clara, capaz de perceber com clareza as inspirações que vem da Mente Cósmica
Segundo: quem sabe da existência da Mente Cósmica, ou Deus.
Terceiro: quem tem condições de manter esta conexão, (física e espiritualmente).
7.3. O que deduzimos desta imagem?Que é preciso chegar a determinado nível de sensibilidade intelectual e físico (saber usar um computador e ter acesso a um computador) para começar a ambicionar uma conexão rápida com a Rede, a Internet. Da mesma maneira, é preciso já certo nível de sensibilidade espiritual e física (saber que a Mente cósmica existe, ter uma mente clara capaz de entrar em contato com esta Mente Cósmica e um corpo em bom estado psiquiátrico e neurológico) para desejar-se esta conexão rápida com a Mente Cósmica.
8. Para explicar por que uns sabem e outros não da existência desta Mente Cósmica precisamos recorrer à noção da Reencarnação.
9. Só a reencarnação explica a diferenciação entre os diversos tipos de pessoas que, desta forma, podem ser explicadas por maior ou menor antiguidade espiritual.
10. Corpo, personalidade-alma, (como chamam os rosacruzes ou espírito como chamam outras correntes), e mente, devem estar aptas a manter esta conexão desde que a pessoa conheça sua existência e queira entrar de maneira produtiva em contato com ela.
11. Sim, porque pode-se ter contatos não muito produtivos. Não é preciso falar inglês para ir a Internet, mas é bom terem-se noções da língua e se falarmos e compreendermos a língua mãe da rede aproveitaremos muito mais os diversos sites que podemos visitar com duas opções de língua: a nossa e o inglês. Da mesma forma não é preciso ser uma pessoa intelectualizada para entrar em contato com Deus, mas seria bom que a pessoa tivesse algum grau de discernimento e algum vocabulário para descrever mais ricamente as inúmeras imagens que o todo poderoso do seu jeito peculiar desaba sobre as nossas cabeças. O Sistema Nervoso humano é limitado e se, ainda for pouco desenvolvido intelectualmente, gerará ao ter contato com a Fonte de Todo o Conhecimento relatos e descrições demasiado simbólicas e confusas complicando o que, em si, já é complicado.
12. Portanto, como para o contato com a Internet precisamos ter algum preparo, para o contato com a Mente Cósmica também. Recomenda-se que problemas de origem pessoal, vicissitudes da vida já estejam resolvidos ou que sejam administráveis para que não perturbem a relação entre o homem e a mente.
13. Para que o computador funcione bem toda a sua maquinaria (hardware) deve estar íntegra. Para o contato com Deus é recomendável que o corpo e principalmente o cérebro e a mente sejam saudáveis, da mesma maneira. Gostaria aqui de ressalvar que a parte mais importante de nossa existência é sem sombra de dúvida a nossa Lucidez, sendo que limitações físicas podem ser superadas com inteligência e sensibilidade enquanto que problemas de natureza neurológica ou psiquiátrica inviabilizam qualquer desempenho socialmente útil.
Para que a conexão seja boa com a Internet, os programas (navegadores) que rodam no computador (software) devem ser atualizados e eficientes. Da mesma maneira a mente do indivíduo que entra em contato com Deus deve estar em bom estado psicológico, equilibrada e tranqüila. Emoções pesadas como raiva, ódio, inveja, são como vírus de computador que destroem a qualidade do programa original. Além disto, é interessada que a mente seja sempre renovada com informações e habilidades que potencializem nossa capacidade de tradução das informações que chegarão a nossa mente.
Finalmente, nosso acesso à linha telefônica ou sem fio deve ser de boa qualidade. Da mesma maneira, o acesso do indivíduo espiritualizado deve ser fundamentado em métodos seguros e de boa qualidade para não prejudicar este contato.
14. Quero explorar este ultimo comentário, a qualidade do acesso. Todos concordam comigo que, para se ter um bom acesso, precisamos de um bom provedor, alguém que tenha cacife para receber várias conexões com a Internet sem redução de velocidade ou qualidade de conexão. Da mesma maneira muitas pessoas no mundo conectam-se com Deus através de técnicas que vem da sua Religião ou formação esotérica e espera-se que estas técnicas e orientações permitam este contato sem redução da qualidade ou interferência na comunicação.
Bons provedores são tão importantes quanto uma boa máquina e bons programas de conexão.

ESQUEMA 1

Que adianta, portanto, que eu seja uma pessoa saudável física e mentalmente, satisfatoriamente equilibrada do ponto de vista emocional, e possuidor de alguma cultura, e venha a cair nas mãos de alguma organização de reputação duvidosa, que de várias maneiras interfira na minha conexão com a Mente Cósmica?Portanto, se eu for a Internet, é bom que eu vá armado de bom senso e discernimento, para não abrir qualquer programa e para não acreditar em todo e-mail que eu receba, ou em tudo que é publicado; e se eu for conversar com Deus, é bom que use uma comunicação de alto nível para que a baixa qualidade de conexão não me leve a receber como verdadeiras mensagens deturpadas, mal intencionadas, truncadas que, somadas a minha ingenuidade, podem se transformar em adulterações grosseiras da mensagem original ou mesmo na contaminação maléfica de toda a minha espiritualidade, da mesma maneira que um vírus de computador só consegue entrar em computadores mal protegidos ou operados por usuários despreparados.

ESQUEMA 2

Técnicas para melhorar a Conexão com a Mente Cósmica

15. Falei que precisamos de recursos para entrar em contato com a mente cósmica tanto quanto com a Internet. E isto é verdade. Vimos também que antes de buscar recursos para o contato, eu já tenho que saber da existência da rede , saber o que é um navegador, saber manipular um teclado ou o mouse , e que esse conhecimento não se aprende do dia para a noite, assim como não apenas CRER, mas SABER da existência da Consciência Cósmica, de forma a ter esta Consciência Cósmica ,não como uma filosofia de vida ,mas como uma realidade que pode ser contatada, não é um conhecimento de domínio público.Alguns sabem que Deus é real.Outros não. Pouca coisa pode ser feita quanto a isto. Justifiquei a diferença entre as pessoas que tem ou não tem este conhecimento pela antiguidade espiritual de cada uma, o que depende do número de encarnações que estas pessoas têm em sua bagagem.
16. Pois bem, mesmo quando já temos este conhecimento, nossa evolução não pára, POIS A EVOLUÇÃO É CONTÍNUA E ININTERRUPTA. Aquilo que já sabemos sempre poderá ser aperfeiçoado e ampliado desde que nos esforcemos para isto e continuemos trabalhando sempre.
17. Desta forma, aquele que já sabe que Deus está dentro de si mesmo, mas que ainda não tem uma fusão , uma Yoga perfeita com o Ser Supremo, dedicará duas , talvez três encarnações a aperfeiçoar este contato através das mais variadas maneiras.
18. A meditação é uma das formas mais conhecidas e aí começa uma pequena e ao mesmo tempo grande confusão. O real significado da palavra meditação. Meditar, para o místico indiano, o yogue, não é pensar. Para o místico Rosacruz, a palavra é usada de modo pouco claro e dúbio: ora no sentido indiano de mente vazia, ora no sentido ocidental de mente cheia de pensamentos sobre os quais tecemos considerações, ou seja, sobre os quais meditamos. Vou me ater ao primeiro sentido, o sentido indiano, Yogue, de mente aparentemente vazia (veremos mais à frente porque aparentemente). Para esclarecer isto eu me permito transcrever um trecho de um trabalho meu antigo sobre o fluxo do pensamento e o real significado da palavra meditação.



O FLUXO DE PENSAMENTO

Vamos de novo para o exemplo do rio. Por sua natureza o curso d’água corre sempre para frente em busca do mar.
Uma pedra e ele a contorna. Uma valeta e ele a supera, sempre em frente.
Então, vem o homem e suas usinas hidroelétricas. Constrói primeiramente uma enorme barragem.
Depois, regulam a saída de água deste lago artificial, formado pela barragem, de forma a que ele flua pelas comportas que ele deseja e na quantidade que ele permita , movimentando mais ou menos intensamente uma, duas, três turbinas, de acordo com a necessidade.
O PENSAMENTO É COMO UM RIO. Ele flui, incessantemente, em direção a consciência cósmica. Este fluxo constante sofre a barragem dos condicionamentos mentais, as tais paredes do corredor citado acima, que nos moldam a personalidade e que nos ensinam a como regular a intensidade do nosso fluxo de idéias e como encadeá-lo da maneira mais útil, de acordo com nossas necessidades.


NATURAL X ARTIFICIAL


O rio, entretanto, é diferente da usina.

Livre, ele obedece apenas aos ditames do clima. Mais chuvas, mais caudaloso ele se torna, menos chuvas, menos intenso é seu fluxo. A água que faz o rio é a mesma água dos oceanos , que evapora, transforma-se em nuvens, cai sobre as montanhas e volta a ser rio, que volta a correr para o mar para de novo evaporar e reiniciar o ciclo.
A represa não é assim.
Ela retém, retém, e retém a água enquanto for necessário. A quantidade que é liberada depende da demanda de energia elétrica e não de ciclos naturais.

A represa não é natural. Ela é artificial. Dialoga com a natureza, mas não é natureza.
Os condicionamentos também são uma represa artificial do fluxo do pensamento. Funcionam de maneira semelhante, porque entendem que o fluxo do pensamento deve ser contido para ser aproveitado. Para usar o pensamento, o homem resolveu torná-lo mais lento, mais controlado, pois o fluxo livre de idéias não lhe parecia aceitável como fonte de informação.
Foi através desta desaceleração do fluxo das imagens que o homem criou a linguagem, e depois a lógica, base da nossa cultura e ciência.
No entanto, não se pode tirar o fluxo de um rio e ainda chamá-lo de rio, como não se pode chamar de fogo a chama sem o seu calor.
São qualidades inerentes a estas coisas que lhe dão um senso de identidade.
Assim, ao represar o fluxo das idéias para tentar compreendê-las melhor, o homem destruiu a sua natureza mais sublime transformando-o em um conjunto intelectual artificial, mecânico, seqüencial, quase estático, em vez de rico em movimento e pleno de variedade.
O rio foi feito para ser rio. O fluxo do pensamento, no meu entender, foi feito para ser fluxo.
Interromper ou limitar a velocidade deste fluxo só impede que o aproveitemos em toda a sua plenitude.
Pois, ao contrário do rio , represar o pensamento não é fonte de energia, mas de desgaste, de tensão. Os condicionamentos mentais, portanto, são, muitas vezes, fontes de ansiedade.
É preciso perder o medo de abrir as comportas e deixar o rio fluir livremente, com toda a energia que lhe é peculiar.
Esta seria a cura para a ansiedade.

A Meditação

A liberação deste fluxo chama-se meditação.
Imagine que seus pensamentos são como cavalos selvagens que estão presos em um curral. Inquietos, tensos, vêem a sua frente toda a pradaria que lhes chama a cavalgar, mas não podem atender o chamado porque a porteira do curral está fechada.
Imagine então que você abra a porteira deste curral: o que aconteceria? Todos os cavalos, provavelmente, sairiam em desembestada carreira, comemorando a liberdade desejada. Não existiria mais tensão.
Assim é o ato de meditar.
Abrimos a porteira da mente, e deixamos que os pensamentos fluam livremente. Alguns falam em esvaziar a mente. Bobagem. Quando meditamos, a mente fica plena de pensamentos, num fluxo tão intenso que deixam de ser intelectualizáveis, discerníveis, perdem sua clareza, mas não deixam de nos invadir e nos oferecer sua presença e influência.
Imediatamente, nossa tensão desaparece, pois o fluxo está livre.
Há outra imagem que me agrada em relação ao processo meditativo. Imagino que exista cano transparente por dentro da minha cabeça, de um lado até o outro. E que meus olhos sejam virados para dentro. Na verdade, para que isso aconteça, basta fechar os olhos. Meditar é contemplar o fluxo das imagens por dentro deste cano. Elas nos atravessam em velocidade infinita, vindas do Todo e retornando ao Todo, deixando-nos, entretanto, impregnados pela sua passagem, como a chuva que quando cai nos encharca de água, água que fica em nós ainda durante certo tempo, depois que a chuva se vai.
Meditar é mergulhar num oceano de consciência, como queria Rajneesh. Sempre que isto acontece, nos encharcamos de Deus e de sua Magnífica Presença, e assim permanecemos por um bom tempo, mesmo depois que saímos do estado meditativo.
A água nos refresca. Meditar nos vivifica e restaura.
Infundidos que somos com este por este sopro divino, manifestamos uma capacidade de percepção ampliada horas após o episódio ter-se encerrado.
Meditar com freqüência nos faz estar em contato com o Deus Interior regularmente e com o manancial universal de sabedoria, o que só nos enriquece mental e fisicamente.
Dancemos, sem medo, na chuva de inspiração que é meditar.

Que estas abençoadas gotas nos encharquem até os ossos, todos os dias de nossa vida.
19. Meditar, da forma como foi descrito, exige alguma prática, habilidade que é desenvolvida com o tempo e a experiência. Não se consegue fazer uma boa meditação sem exercitar a técnica durante anos. E aos poucos vamos conseguindo um estado mais límpido de comunhão com estados mais altos de consciência e percepção da mesma forma que o rosacruz com seus exercícios de refinamento mental e elevação da consciência. Prática, prática, prática, sem lamentações, desanimo, ou hesitações.

20. Mal comparando, aos poucos vamos fazendo o upgrade de nosso Hardware e de nossos Softwares, melhorando nosso desempenho místico ao melhorar nosso desempenho meditativo. Melhor qualidade de conexão, maior velocidade, e assim, nem sempre nos damos conta de tudo que recebemos nestes poucos momentos em que a mente entra neste manancial e volta repleta de fatos, imagens , inspirações.Não ;é uma coisa fácil. O Buda precisou de cinco anos embaixo da sua árvore santa para atingir o êxtase. E Ele era o Buda. Pensem em nós, pobres estudantes.

21. Portanto, mesmo que o computador seja bom, precisamos de tempo para dominar a informática. Mesmo que a mente e o corpo estejam bem, precisamos de estudo e preparação para penetrar com lucro na conexão com o Ser Maior. E aqui quero fazer um alerta: a simplicidade, tão alardeada como sinônimo de evolução deve ser vista como uma armadilha de imagem. O Cristo parecia simples, mas, convenhamos, um espírito daquele porte era e é altamente complexo. Quando se fala em ser como as crianças, falamos em estar em um estado em que estejamos despidos de preconceitos os quais adquirimos pela educação materialista que recebemos em nosso mundo. Tenho certeza de que não se queria dizer ser ingênuos e inocentes como crianças, mas sim puros de coração o que não impede uma mente altamente elaborada e um intelecto altamente refinado. Devemos para de cultuar a ignorância como um estado perto da Sabedoria. A Ignorância é o que é: Ignorância, com todos os perigos e problemas que isto costuma trazer. Ser simples é ser refinado o suficiente para parecer simples aos olhos menos elaborados. O rosacruz sabe disso. O homem comum e alguns religiosos, não. Por isso vemos a apologia entre alguns homens de fé da renúncia as posses e do martírio do corpo como um caminho para a Luz Espiritual. A Luz Espiritual não é bloqueada pela matéria. A Luz revela a matéria em perspectivas mais amplas do que aquelas que os olhos da carne conseguem perceber. Miséria não coaduna com progresso espiritual. Os Yogues mais nobres olham com tristeza e pena aqueles que escolhem o caminho do Sadhu, desfazendo-se de tudo relacionado a vida mundana de forma a assim encontrar Deus.

Precisamos do corpo como o mergulhador de profundidade precisa do escafandro e nenhum mergulhador seria louco de destruir seu escafandro quando a 6000 metros de profundidade.
E o que é a encarnação no plano material senão nada mais, nada menos, do que um mergulho do espírito na carne, e, diga-se de passagem, um mergulho voluntário, desejado?

22. Desaprender o que aprendemos de errado acerca daquilo que nos cerca é mais difícil do que aprender alguma coisa nova. Nós estamos todos repletos de idéias pré-concebidas e errôneas acerca do que é o Real, da nossa condição do Universo, do quanto somos limitados, que nos são repetidos como reforço positivo, no convívio social mundano diariamente, fora as imagens e maldições bíblicas que as religiões jogaram sobre nós de forma sistemática nos últimos séculos.
23.Precisamos ir além disto, ir além dos preconceitos, além das falsas limitações. Precisamos sonhar de maneira clara e vívida e para isso vamos precisar de um corpo e de uma mente sadios, tanto quanto de uma personalidade alma de boa qualidade; precisamos acreditar no sonho, sem ingenuidade, sem simplicidade de espírito, no sentido ruim da expressão, mas por que chegamos a um determinado grau de complexidade no qual finalmente compreendemos o imenso poder que recebemos e que por incompetência, deixamos escorrer por entre os dedos. E este poder é o Poder de criar o mundo que quisermos, desde que adequadamente guiados pela Mente Cósmica, fonte de todo o conhecimento e inteligência, das quais somos apenas meros terminais de recepção.
24.Para que isto aconteça, não é suficiente apenas uma alma devidamente voltada para este encontro, mas também um sistema nervoso em estado satisfatório, para dar suporte físico à uma mente poderosa em realização, não isolada , mas conectada e serva do Poder Supremo.


Suzano, 28/02/2007


Mario Sales FRC,75939 PM

sábado, 23 de outubro de 2010

LIBERDADE DE PENSAMENTO E PRÁTICA DO MARTINISMO NA TOM

Por Mario Sales, FRC.:,S.:I.:,M.:M.:


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Como Rosacruz habituado a tolerância de pensamento e ao discurso metódico em busca do esclarecimento, estranhei muito os primeiros anos de prática do Martinismo.
Talvez a palavra prática até seja inadequada neste particular pois, se é verdade que o Martinismo é uma Via Cardíaca, também é um caminho altamente intelectualizado.
Basta uma visita ao site Martinista Hermanubis, para se ver o sem número de artigos sobre uma imensidade de temas, em quatro idiomas, que ali são discutidos.
Verdade seja dita, não são assuntos pragmáticos. Via de regra se apresentam com tal grau de erudição e riqueza de detalhes que não estarei enganado em dizer que poucos são capazes de acompanhar aquela bruzundanga de termos e nomes, citações e datas, históricos e levantamentos de costumes e tradições de todas as linhas de pensamento místico.
O foco quase sempre está no século XVIII , época de ouro do Ocultismo e das Práticas Ocultistas, hoje abandonadas a não ser por alguns saudosistas.
O Martinismo Ocultista orbita nomes e textos de todos os esoteristas daquele momento da história, textos que apresentam enorme dificuldade de entendimento, já que além da barreira proposital do esoterismo e do simbolismo ainda temos que nos defrontar com a diferença de época histórica e de perspectiva social e espiritual.
Se o homem do século XVIII aceitava como válido invocar um Anjo para que este lhe ensinasse acerca das coisas de Deus,(e o fazia, demonstrando rara habilidade teúrgica), também era ingênuo o bastante para acreditar que isto o auxiliaria a tornar-se mais sábio e viver com mais dignidade.
Pelos depoimentos de Saint Martin após a morte de Martinez de Pasqually, sobre o enorme risco de demência associado aos rituais dos Ellus Cohen, o que levou ao abandono destas práticas após a morte do Mestre, tal idéia infantil de que alguém, mesmo que seja um ser angelical, possa viver e evoluir por nós, hoje soa aos nossos ouvidos apenas como imaturidade psicológica.
Naquela época, no entanto, havia a crença ingênua de que deveria se controlar o destino através de uma intervenção neste mundo; para os céticos, através da razão; para os místicos, através da magia e da teurgia.
Os magos do passado, embora hábeis do ponto de vista esotérico, eram imaturos do ponto de vista psicológico.
Foram-se os homens, a época, mas ficaram seus textos, com sua visão toda própria da relação com Deus e com os homens.
Como já analisei em outro ensaio, a linguagem de Martinez de Pasqually e Saint Martin era militar e jurídica, porque ambos eram oriundos da Caserna, do Militarismo, (Saint Martin, além disso, seguira a carreira do Direito), e ambos eram provenientes de Lojas Maçônicas, estando por isso acostumados a termos grandiloqüentes, tão ao gosto da Maçonaria.
Por causa disso, dialogavam com a realidade através das categorias ligadas a disciplina militar e a noção de crime e castigo e sua leitura da Bíblia concentrava-se no Velho Testamento, onde a noção de Pecado Original, Queda e Culpa, ganham forte destaque e fundamentam a cultura hebraica e judaica, tanto quanto a Igreja Católica.
Nada a ver com João Evangelista, 10- 30 (Eu e Deus somos UM).
Não. Deus está afastado, lá, em algum outro lugar, e nós estamos aqui.
É Onisciente, mas não previu uma revolta de seus próprios anjos contra ele. Mais: deixou que ela acontecesse e depois encarcerou os culpados em uma prisão gigantesca, o Círculo Eixo Fogo Central Incriado.
É Onipresente, mas reside em outro espaço acima de nós, e não em nós, como todo rosacruz repete, a todo o momento, quando ora dizendo: Deus de meu coração...
Tal mito sobre este Deus controverso, contraditório, contado por Pasqually, o Midrash que fundamenta o Quadro Universal, é belíssimo, na verdade brilhante, considerando a época e seus conhecimentos. E assim tem sido preservado ao longo dos séculos pelos sucessores desta equipe de iniciados, em respeito a sua memória, e em respeito aquilo que seus textos simbolizam.
No entanto, o tempo passou, e o mundo tornou-se bem mais complexo.
Hoje, não podemos falar apenas em progresso material, como vejo constantemente sendo repetido como um mantra por alguns saudosistas.
Houve progresso psicológico também e o místico moderno já não procura o isolamento e o silêncio apenas, mas convive com o caos do mundo, buscando não controlá-lo, mas harmonizar-se com seu cotidiano.
Particularmente o Místico Rosacruz moderno, de maneira Panteísta, cultua o Deus Espinoziano, identificado com a Criação e não separado dela, verdadeiramente Onipresente, Onisciente, e Onipotente, tal como a Internet, em toda parte e em lugar nenhum.
E este místico rosacruz contemporâneo, no mínimo estranha que em determinados momentos os debates martinistas tratem como axiomas afirmações que deveriam ser encaradas como eminentemente simbólicas e datadas historicamente, tendo hoje um impacto bem menor do que tiveram em sua época.
Refiro-me principalmente a noções como Queda ou Involução, categorias desconhecidas para os Rosacruzes, que só acreditam na Evolução, mas freqüentes no discurso de Saint Martin e preservadas por Papus, quando da restauração da Ordem.
Falar-se em pecado original no século XXI é no mínimo descabido, considerando que já no século XV, um rosacruz, pensador e matemático francês, René Descartes, refutou a noção de Pecado e transmutou-a brilhantemente na noção de Erro, desfazendo a culpa judaica do coração de muitos. Isto para não falar no debate entre Santo Agostinho e Pelágio,no século IV, em que Agostinho defendia que a criança não batizada era portadora de pecado ao que o padre Pelágio refutava como absurdo culpar um inocente pelo pecado dos que o precederam.
Com Descartes, instaurou-se a Razão como meio de compreensão do mundo. Infelizmente, fazendo progredir apenas a Ciência e não a fé. E como diria mais tarde Immanuel Kant, a fé sem razão é cega, mas a razão sem a fé é vazia.
Deu-se então uma separação artificial entre ambas, que aos poucos em nossos dias vai se diluindo a medida que nosso conhecimento vai avançando.(Basta lembrar a frase do Bacteriologista Louis Pasteur de que Ciência de menos afasta de Deus e Ciência demais, aproxima).
Sim, ainda temos bolsões de fanatismo e resistência ao bom senso, só que antes isto era a maioria, não parte da realidade.
No meio desta batalha os místicos procuravam se manter em equilíbrio, nem participando de conflitos bélicos pelo poder sobre os corações e mentes do mundo, nem abandonando suas crenças na frase do Evangelho de João, sobre a Unidade de cada Homem com o Pai, como a do Cristo. Sem intermediários.
Alguns, no entanto, não eram tão equilibrados, e buscavam, mesmo que por boas razões, métodos de intervenção complexos na busca de um diálogo que poderia ter sido feito apenas no coração e no recolhimento. Naquela época compreende-se o equívoco.
Hoje, ao contrário, não podemos aceitá-lo.
Somos rosacruzes, homens e mulheres livres de espírito, embora prisioneiros de nossa consciência a qual prestamos obediência indiscutível.
Desta forma, metáforas que insinuem que somos um erro de Deus, e não seres divinos em missão nesta terra, talvez esquecidos de seu poder, mas não em regime de prisão forçosa dado a um erro nos primórdios da Criação, não fazem o menor sentido.
Como Rosacruz sinto-me poderoso, pois sou Um com meu Criador, e se ele é poderoso, eu também sou.
Nada há que me separe dele, a não ser as aparências da vida material, que como o nome diz, são apenas aparências.
A razão é minha aliada e não me afasta de minha confiança em Deus e no seu suporte.
Esta, entretanto, não é a fala de um iniciado do século XVIII, mas de um iniciado do século XXI, principalmente um iniciado que embora tenha lido o Velho Testamento, também leu o Novo, com os olhos do século a que pertence.
E que além de ler a Bíblia, leu o Corão e principalmente o Bhagavad Gita, reconhecendo o mesmo Deus representado em cada um destes livros santos.
O discurso martinista deve ser, portanto, contextualizado em sua época (século XVIII) e lugar (Europa Ocidental), momento e local de características muito próprias, que devem ser consideradas ao analisarmos os textos produzidos neste ambiente.
É isso que um rosacruz de mente livre faz ao estudar os textos Martinistas, ao contrário de tentar decorá-los e interpretar o mundo moderno pelos olhos de outra época, não só do ponto de vista social, mas também, e principalmente, do ponto de vista psicológico.
Seria ingênuo agir de outra forma, por mais respeito que tivéssemos por nossos antecessores na senda martinista, e até por respeito a eles não devemos deixar estagnar nosso pensamento ou permitir que valores questionáveis como a noção de Queda, sejam mais do que aquilo que são: figuras de linguagem.
Só uma mente livre e positiva pode pensar assim.
Uma mente verdadeiramente rosacruciana, honra a sua linhagem tanto quanto os martinistas honram a sua. E da linhagem rosacruz constam nomes que estiveram fortemente ligados ao ato de pensar com liberdade.
Os pais do pensamento racional (Bacon, Descartes e Leibnitz) eram rosacruzes. Não me referirei a eles, desta vez, mas a alguém mais próximo de nós, ligado ao movimento rosacruz, mas muito mais ligado ao trabalho de restauração do Martinismo em nossa época e que fala com a língua de um espírito rosacruciano.
Ouçamo-lo:
“A Grande Magia não é um compêndio de divagações mais ou menos espíritas, arbitrariamente erigidas em dogma absoluto: é uma síntese geral – hipotética e racional – duplamente fundada sobre a observação positiva e a indução por analogia”
Ou ainda:
“Tu foste sucessivamente investido nos...graus de nossa Ordem. Nós te saudamos, S.:I.:, e quando tiverdes estudado e meditado sobre o conteúdo de nossas lições, chegará o momento de te tornares um iniciador.(...)Não queremos aqui te impor convicções dogmáticas. Pouco importa para nós que te consideres um materialista, espiritualista ou idealista; que professes fé no Cristianismo ou no Budismo; que te proclames um livre pensador ou que defendas até mesmo o ceticismo absoluto. Não atormentaremos teu coração agitando o teu espírito com problemas que só podes resolver perante tua consciência e no silêncio solene de tuas paixões aquietadas.(...)
A busca sincera e desinteressada pela verdade, é isso que teu espírito deve a si mesmo.”
Este trecho será reconhecido por alguns, senão por muitos.
Os que são martinistas têm, por obrigação, sabê-lo de cor da mesma forma que reverenciar o nome do homem que escreveu estas linhas, pois era um Martinista tão sincero como eu sei que todos que se engajaram na senda martinista desejam ser. Todo Martinista almeja “a perfeição dos seres santos”, mas antes disto, pelo menos, o discernimento dos sábios.
E estas palavras acima são as palavras de um sábio, um sábio martinista, a frente de seu tempo, um homem que fez a união entre o pensamento racional e esotérico em seus textos, livrando o discurso místico do pedantismo démodé provinciano e arcaico de que às vezes vem revestido.
Este homem, que leu Paracelso, Pico De la Mirandola e o Evangelho de Jesus, leu também Baudelaire, Montaigne e Cervantes.
Este mesmo homem não suportaria assistir uma discussão ou um fórum martinista em que não houvesse uma participação coletiva, e um debate franco e enriquecedor, se bem que em ambiente fraterno e acolhedor. Por que não conhecia o medo do erro nem sentia culpa pela sua ignorância, que tentou ao longo de sua breve existência desfazer o mais possível (nasceu em 1861 e morreu em 1897, com apenas 36 anos) o que conseguiu, com enorme sucesso.
Guaita
Todos nós, que somos Martinistas, além de Rosacruzes, devemos com nossa atitude crítica e com um pensamento livre de amarras e dogmas, prestar reverência e ser dignos do nome de Stanislas de Guaita, companheiro de Pappus na restauração da Ordem Martinista, no final do século XIX.
E a primeira coisa a fazer é começar a pensar sobre tudo que aprendemos em nossas reuniões com mente livre de dogmatismos, cônscios de que pertencemos a uma Ordem Esotérica de caráter Cristão, não a uma religião, aonde somos livres para interpretar com nossa mente e coração tudo aquilo que estudarmos.
Toda vez que um Martinista se esquece de que é um homem livre, que deve pensar com sua própria cabeça, trai a confiança de Guaita e trai o espírito do próprio Martinismo, que não é hoje o mesmo do século XVIII, como de resto nenhum de nós também.
Somos homens de nosso tempo, queiramos ou não, e estudar o passado não significa querer reproduzi-lo, mas ampliar nossa compreensão dos passos que a sociedade deu em direção ao presente que ora experienciamos. E quem não estuda a História, já diz o ditado, corre o risco de repeti-la.
Quanto ao Ocultismo, que tanto fascina alguns, não esqueçam que a primeira coisa que Louis Claude de Saint- Martin fez após a morte de Pasqually foi abandonar tais práticas, por considerá-las “demasiadamente perigosas e complexas” e, em sua opinião , desnecessárias para ver Deus.
Estudemos a história de nossa Ordem, mas enriqueçamo-la com a nossa própria contribuição, estudando e escrevendo sobre nossas pesquisas, para que aqueles que nos sucederem, na sequência de nós deste cordão, possam ter aonde se basear para não repetir nossos erros e desfrutar de nossos acertos.
Para terminar, recorramos novamente às palavras de Guaita:
“Abrimos diante de teus olhos os lacres do livro, mas cabe a ti aprender agora a soletrar”

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A IMPORTÂNCIA DA ÊNFASE NO MÉTODO CIENTÍFICO NA PEDAGOGIA DOS CONHECIMENTOS ESOTÉRICOS.

por Mario Sales FRC.:,S.:I.:,M.:M.:

"Ciência é muito mais uma maneira de pensar do que um corpo de conhecimentos." - Carl Sagan



É preciso preservar a tradição.
Mas o que é preservar? É manter o que recebemos em formol, de forma a que nunca se altere ou é deixar que respire o oxigênio das eras que sucederão aquela em que o texto hermético foi elaborado?
Saint Martin, o mais insuspeito dos místicos , discute este tema em “Dos erros e da Verdade” (1), em um trecho chamado “Dos Dogmas Misteriosos”
Diz ele: “-Sei que por caminhos sábios e fora do âmbito do vulgar, os chefes e ministros de quase todas as religiões enunciaram seus dogmas com prudência e sobretudo com uma reserva que não se pode louvar demais; indubitavelmente conscientes da sublimidade de suas funções, eles sentiram o quanto a multidão devia ficar distanciada delas, e certamente foi por isso que, depositários da chave da Ciência, preferiram levar os povos a ter por ela uma veneração tenebrosa a exporem os segredos a profanação.
“Se é verdade”, continua ele, “que esses foram seus motivos, não posso censurá-los. A sombra e o silêncio são os asilos preferidos pela Verdade; e os que a possuem não podem tomar precauções demais para conservá-la em sua pureza; mas não seria justo eu lhes dizer que eles também deviam ter receado impedir sua expansão, que foram encarregados de fazê-la frutificar, de velar pela sua defesa e não sepultá-la (?); enfim, que confiná-la com excesso de zelo é talvez impedi-la de cumprir seu propósito, que é o de se expandir e triunfar?” ( o grifo é meu)
Não tenho dúvidas que Sint-Martin tocou o nervo com este comentário. A meu ver, ele denuncia, de forma polida, a incompetência e a falta de habilidade em traduzir o conhecimento esotérico para uma linguagem palatável a cada época, pelos responsáveis por zelar por este mesmo conhecimento.
Zela-se, no entanto, por alguma coisa, dando-lhe condições de sobrevivência, não impedindo-a de ver a luz do sol, mesmo que a protejamos deste sol com algum tipo de anteparo.
No caso do conhecimento esotérico, até o impressionante trabalho de tradução e modernização de Spencer Lewis, na elaboração das monografias da AMORC para o estudo dos rosacruzes americanos no início do século XX, ou de Blavatsky, com a compilação feita na Doutrina Secreta, poucos são os exemplos de esforços na transliteração dos textos herméticos para uma linguagem acessível a cada época e a cada sociedade.
A cada esforço como estes citados, seguem-se anos de silêncio pedagógico, que impediram e impedem que muitos seres humanos sejam tocados por estes conhecimentos. Recentemente houve um novo esforço por parte da AMORC e da Grande Loja de Língua Francesa, de modernização de seus textos na busca por um aperfeiçoamento da forma de exposição dos seus conhecimentos. Isto demonstra um interesse genuíno de facilitar a compreensão dos textos das monografias para nossos estudantes.
Precisamos no entanto melhorar ainda mais este esforço.
E na minha opinião, uma das formas de fazê-lo seria revisitar o espírito positivista que fundou nossa organização para o atual período de atividades.
Uma ênfase na experimentação, com experimentos que realmente o sejam,com efeitos perceptíveis no mundo tridimensional e não exercícios de visualização mental que são chamados de experimentos, seria uma forma, a meu ver, mais didática e marcante no espírito de nossos membros do que aperfeiçoar os textos que estudamos no sanctum no lar.
Existe uma série de princípios a serem demonstrados através de experimentos simples, e lembro-me que tais experimentos eram estimulados nas monografias anteriores com recomendações quanto a certos materiais que deveriam ser preparados para a consecução destes mesmos experimentos.
Numa época como a nossa, onde o tempo é escasso e deve ser preservado, e considerando a necessidade de Sistema e Ordem no processo de estudo rosacruciano, ao invés de elencar uma série de materiais que às vezes o membro não possa conseguir por mais simples que sejam, um kit de experimentos poderia ser enviado ao membro de tempos em tempos de maneira que o conceito a ser esclarecido pudesse facilmente ser absorvido através de procedimento simples e verdadeiramente empírico.
Precisamos revisar as apresentações dos nossos pensamentos e fortalecer o espírito científico de nossos membros. É pela falta da ênfase neste aspecto de verificacionismo que outros discursos, não místicos, mas de cunho religioso, se arvoram em invadir o tolerante ambiente da AMORC, pela boca de membros que tentam travesti-los com o manto rosacruciano.
Conceitos e idéias claras e distintas, como gostava Frater Descartes, formariam mentes Objetivas entre nossas fileiras, aptas a lidar equilibradamente com assuntos altamente subjetivos.
Aliás, um dos perigos que ronda nossa atividade esotérica é o Hipersubjetivismo. Discursos demais e experimentos de menos, geram instabilidade teórica e não reforçam as convicções íntimas de ninguém.
O convencimento íntimo é mais profundo quando associado a Experiência e a Verificação, ou nas palavras de Frater Reginaldo, um de nossos mais respeitados fratres, em recente ensaio, “ a AMORC, na qualidade de Ordem Tradicional, filosófica e iniciática, distingue-se nitidamente das religiões pelo fato de que seu ensinamento baseia-se no conhecimento e não na crença.” E conclui ele, mais a frente: “ Nada substitui a vivência.”
Por este motivo, e atento ao alerta de Saint Martin, defendo que a maneira de atualizar o ensino do conhecimento esotérico não se resume a melhoria da clareza dos textos, mas na implantação de um programa de experimentos didáticos, passíveis de ser realizados em ambiente doméstico, que atraiam o estudante para o ambiente da ciência e o estimule a correlacionar seus dados com sua experimentação, ou seja, que demonstre ao estudante a possibilidade e a necessidade do método científico no estudo místico rosacruciano.[2] “Nada substitui a vivência.”, de forma que a vivência do experimento criará o hábito da confiança em resultados demonstráveis, sem que isto precise ser dito.
Modernizar a apresentação inclui resgatar as bases reais destes princípios, com uma pedagogia atraente e estimulante.
Esta é a forma de nós místicos, atendermos ao chamado do filósofo desconhecido e não deixar que o esforço de nossos antepassados de nos trazer esta tradição, às vezes com o preço de sua própria vida, tenha sido inútil.

[1] “Dos Erros e da Verdade”, de Louis Claude de Saint Martin, Difusion Rosacrucienne, 2ª Edição em Língua Portuguesa, maio de 2006, pág. 169

 [2] O método científico consiste de : Observação - Uma observação pode ser simples, isto é, feita a olho nu, ou pode exigir a utilização de instrumentos apropriados. Descrição - O experimento precisa ser replicável (capaz de ser reproduzido). Previsão - As hipóteses precisam ser válidas para observações feitas no passado, no presente e no futuro. Controle - Para maior segurança nas conclusões, toda experiência deve ser controlada. Experiência controlada é aquela que é realizada com técnicas que permitem descartar as variáveis passíveis de mascarar o resultado. Falseabilidade - toda hipótese tem que ser falseável ou refutável. Isso não quer dizer que o experimento seja falso; mas sim que ele pode ser verificado, contestado. Ou seja, se ele realmente for falso, deve ser possível prová-lo. Explicação das Causas - Na maioria das áreas da Ciência é necessário que haja causalidade. Nessas condições os seguintes requerimentos são vistos como importantes no entendimento científico: Identificação das Causas ;Correlação dos eventos - As causas precisam se correlacionar com as observações. ;Ordem dos eventos - As causas precisam preceder no tempo os efeitos observados.

domingo, 17 de outubro de 2010

Olá.

Abaixo, vários vídeos sobre os Rosacruzes, desde vídeos sobre músicas de Erik Satie, pianista do século XIX e membro da Ordem, que dedicou muito do seu trabalho à Rosacruz, até vídeos institucionais da AMORC. Em relação a Satie, publiquei na área de vídeos 3 deles correspondentes a sua coletânea, belíssima, Gimnopedie, a qual insisto para que assistam; publiquei também na página de rosto do blog, vídeos acerca da própria Ordem,(O Domínio da Vida), como também 2 vídeos sobre nosso retiro espiritual e de estudo, A Morada do Silêncio, um deles com um depoimento do seu atual administrador, Frater Avelino, que faz um inspirado trabalho ao lado de sua esposa, sóror Cely. Publiquei também na área de Textos em Francês (Texts Française) um vídeo em francês sobre Cagliostro, um iniciado da Rosacruz.E , por último, publiquei na área de Vídeos, uma entrevista, em três partes, feita com Michel Foucault, filósofo francês, com legendas em espanhol, sobre as relações entre Fiolosfia e Psicologia.O Vídeo de Foucault começa com uma frase de Descartes, com a qual concordo: "É a mesma coisa que viver de olhos fechados e nunca abri-los, viver sem filosofia."
 Boas leituras e bons programas.

Mario Sales

ERIK SATIE, UM MÚSICO ROSACRUZ E SUAS CANÇÕES PARA A ORDEM

QUEM SÃO OS ROSACRUZES - PARTE 1/3

QUEM SÃO OS ROSACRUZES - PARTE 2/3

QUEM SÃO OS ROSACRUZES PARTE 3/3

O DOMÍNIO DA VIDA

MORADA DO SILENCIO, CHAMINÉ DA SERRA,CURITIBA,BRASIL

A MORADA DO SILENCIO, o retiro espiritual dos rosacruzes

O LENTO DESAPARECIMENTO DA CAPACIDADE DE LER OU, TAMBÉM, NINGUÉM LÊ BLOGS.



Por Mario Sales FRC.:,S.:I.:,M.:M.:


Outro dia,no café, li um artigo de um jornalista sobre um fenômeno recente: a incapacidade da maioria das pessoas de chegarem ao fim das matérias jornalísticas, por pressa, por ansiedade, por várias razões. Quase ninguém, segundo ele, conseguia chegar ao final do texto.
Isto é preocupante. Não sei, no entanto se é um processo semelhante a um incêndio em uma floresta seca.
Acredito que o articulista tem razão ao identificar um número maior de pessoas incapazes de ler e compreender um texto, mesmo os textos pequenos de uma notícia de jornal. Só que a meu ver isto se deve ao aumento da população do planeta, que causará sempre um aumento, em números absolutos, de tudo que se possa imaginar: crianças, idosos, artistas plásticos, motoristas, aposentados, desempregados, etc.
Talvez o certo fosse buscar análises percentuais e não em números absolutos pois, e isto é uma crença a comprovar, sempre existirá uma parcela da população dedicada ao hábito da leitura, a qual provavelmente, em números absolutos, também está crescendo.
Gostar de ler não é um dom coletivo, é coisa pra poucos. Que, já que a população do planeta cresceu, tornaram-se muitos. Com um grave problema. Os direitos autorais são vilipendiados todos os dias pela rapidez das mídias e da internet.
A multiplicação dos blogs é vertiginosa, mas quem lê estes blogs pelo que está escrito neles? Muito poucos.
É como uma floresta amazônica de letras, que aumenta exponencialmente, a cada segundo.
O que tornaria uma árvore mais atraente que outra, mesmo considerando os nichos de cada blogueiro?

Ler por prazer é um traço de caráter. Para os aficcionados, a Leitura, como prática, demanda paz de espírito e tendência pessoal. O leitor compulsivo tem uma relação pessoal e sensual com o texto, com a textura do livro, seu cheiro, sua forma, etc, coisa que aos poucos pode desaparecer com a praticidade dos Readers, estes leitores eletrônicos maravilhosos. Veja no entanto que o próprio E-Reader tem uma forma e uma estética, e uma capa, o que talvez mude o objeto de relacionamento sensual mas não a sensualidade do ato de ler.
Somos filhos de nossa época, uma época de informações prontas, vomitadas sobre nós em telejornais previamente editados para nos passar uma imagem de mundo mais adequada a demanda da audiência, violência, sexo, escândalo e tragédias, como retrata a tira do Calvin em epígrafe.
Só que o leitor, que sempre existirá, em todas as épocas, jamais se tornará presa deste ritmo frenético da mídia porque ele contrapõe a informação enlatada com a sua própria cultura e por isso, independente do editor de seu tele jornal ou jornal de papel, ele tem a sua própria opinião, baseada na sua estrutura intelectual sólida.
A única defesa contra a avalanche de idéias que nos são empurradas goela abaixo todos os dias é a cultura. É ela que nos defende, protege e nos dá condições de filtrar quaisquer imagens que cheguem às nossas retinas, dando-lhe o devido processamento antes de absorvê-las.
A cultura nos deixa seguros, a ignorância coloca nossa vida, nossa liberdade e nossa autonomia em risco.
Quanto a ler o que se escreve em blogs, isto é muito relativo.
É certo que eu mesmo tenho três leitores constantes. É para eles que escrevo e para uma quarta pessoa, eu mesmo, já que meu blog é um espaço onde organizo minhas idéias e emoções em textos e onde elaboro meu próprio imaginário de forma sistemática, num exercício narcisista sim, mas terapêutico, de autoanálise constante.

Quase ninguém lê os milhares de blogs que estão por aí, a não ser talvez duas a três linhas, e depois continuam a navegar, sem se aprofundar muito naquele local ou naquele texto em particular.
Às vezes, estou certo disso, abrem a página, olham as imagens, e imediatamente seguem em frente, sem se dar ao trabalho de consultar quaisquer textos que  possam ali estar.
Este momento surgirá na estatística do blog como uma visita, mas não reflete de maneira fiel o número de pessoas que tiveram acesso real as idéias expostas ali.
Compreendi, depois de ver uma moça seminua, em uma matéria da Internet, rotulada como "Musa dos Blogueiros" que, considerando a minha própria beleza física, meus textos têm pouca chance de chamar atenção por si.
Paciência, ninguém provavelmente lê mais nada, a não ser aquele grupo de eleitos de que eu falava há pouco, e mesmo eles têm suas preferências, que necessariamente não deve ser ler textos de blog. Há tantos livros no mundo, e tão bons, que os blogs são necessários sim, mas para os blogueiros, que ali encontram um espaço pessoal de elaboração de suas próprias angústias existenciais, uma espécie de bálsamo de letras, que aplicado sobre a alma de quem o escreve, causa um enorme e gratificante conforto.
E é bom que seja assim.

sábado, 16 de outubro de 2010

Como auxílio ao estudo de todos os Martinistas, publico resumidamente o texto abaixo, que não é de minha autoria, mas acredito que possa ser útil aqueles que, como eu, tenha curiosidade de saber o que significam as horas de Apolônio de Tiana, principalmente a sétima.Ao que parece, são em número de 12 para se harmonizarem com os signos do zodíaco, o que é reforçado pela relação entre a dualidade e o signo de peixes.Mas isto é apenas uma intuição pessoal sem confirmação e estou aberto a comentários e correções. As definições são muito herméticas e cada uma requer não só meditação como inspiração na busca de sua compreensão total.



Na obra Nuctemeron os ensinamentos de Apolônio são distribuídos como em um relógio em 12 horas, ou degraus, e a cada hora corresponde uma instrução especial. Os ensinamentos daquela obra são apresentados em linguagem um tanto velada. São ensinamentos de altíssimo nível.


Primeira Hora: "Os demônios entoam em conjunto louvores a Deus. Eles perdem a maldade e a ira."
Segunda Hora: "Mediante a dualidade, os Peixes do zodíaco louvam a Deus. As serpentes ígneas enrolam-se em torno do caduceu e o relâmpago torna-se harmonioso."
Terceira Hora: "As serpentes do caduceu de Hermes se entrelaçam três vezes. Cérbero escancara sua tríplice goela e o fogo entoa louvores a Deus pelas três línguas do relâmpago."
Quarta Hora: "Na quarta hora a alma regressa da visita aos túmulos. É o momento em que as quatro lanternas mágicas dos quatro cantos do círculo são acesas. É a hora dos encantamentos e das ilusões."
Quinta Hora: "A voz das Grandes Águas entoa ao Deus das Esferas Celestiais."
Sexta Hora: "O Espírito permanece impassível. Ele vê o monstro infernal vir ao Seu encontro e está sem medo."
Sétima Hora: "Um fogo que dá vida a todos os seres animados, é dirigido pela vontade de homens puros. O Iniciado estende a mão e o sofrimento transforma-se em paz."
Oitava Hora: "As estrelas conversam entre si. A alma dos sóis responde ao suspiro das flores. A corrente da harmonia faz todos os seres da natureza se harmonizarem entre si."
Nona Hora: "O número que não deve ser revelado."
Décima Hora: "A chave do ciclo astronômico e do movimento circular da vida dos homens."
Décima Primeira Hora: "As asas dos Gênios movimentam-se com um misterioso rumorejar. Eles voam de esfera a esfera e levam as Mensagens de Deus de mundo a mundo."
Décima Segunda Hora: "Aqui se realiza, pelo Fogo, a Obra da Luz Eterna."

COMBATENDO A ANSIEDADE COM SISTEMA E ORDEM NO PENSAMENTO:

A Felicidade e o Progresso Mental como conseqüências do  Pensamento Disciplinado


Mario Sales FRC.:,S.:I.: e M.:M.:


Há várias formas de descrever a inserção do conceito de Sistema e Ordem, fundamental na doutrina rosacruz, .
Um uso intuitivo é aplicarmos sistema e ordem para melhorarmos nossa vida , estabelecendo rotinas, metas, planejamento para nossas atividades, etc. Isto garante progresso pessoal, material e psicológico e uma vida mais tranqüila e produtiva.
Outra forma, entretanto, de aplicarmos esta recomendação se refere a algo mais sutil: nosso pensamento. Termos um pensamento organizado e sistemático faz com que nossos raciocínios ganhem densidade e sejam mais objetivos.
Em nada isto prejudica nossa sensibilidade; pelo contrário, melhora a forma de extravasarmos nossos sentimentos e nossas percepções mais sutis, pois aqueles que pensam com mais clareza, pensam melhor; aqueles que têm um pensamento mais organizado produzem mais, são mais capazes de expressar suas idéias e contribuem para uma empresa ou uma sociedade melhor.
Para o místico existe uma vantagem a mais: como o campo de ação do místico é o campo do mental e da imaginação criativa, onde os referenciais espaciais e temporais do mundo material estão ausentes ou pelo menos não estão tão claros quanto no mundo material, a objetividade mental permite que entremos e saiamos do mundo mental com alguma habilidade, sem que percamos a nossa capacidade de manter o equilíbrio e o bom senso durante a experiência mística.
Por exemplo, no mundo do sonho, o mundo onírico. Existe o consenso, entre os rosacruzes, de que como numa lente, o sonho mostra imagens invertidas do real. Além disto, as experiências oníricas são muitas das vezes vagas, excessivamente simbólicas, de difícil interpretação.



Uma mente objetiva, que pensa com sistema e ordem, saberia mesmo no plano do sonho, captar os símbolos essenciais e resgatá-los ao despertar, rapidamente transferindo-os ao famoso caderno de cabeceira onde os rosacruzes, pelo menos os mais estudiosos, têm o hábito de registrar suas experiências. Como só o próprio indivíduo pode dizer o que seu sonho significa para ele, esta mesma sistemática e ordem ao analisar algo tão sutil como um sonho será de extrema utilidade na tradução de seu sentido oculto, pois interpretar é traduzir, é transcrever na linguagem das letras e das idéias aquilo que foi narrado na linguagem dos símbolos.
Ora, sistema e ordem, portanto, são coisas muito úteis, e um pensamento sistemático e ordenado não pode ser algo necessariamente ruim.
Nem todos pensam assim, no entanto, principalmente pessoas que não possuem sistema e ordem em seu pensamento e, provavelmente, em suas vidas.
Pessoas desorganizadas se sentem desconfortáveis diante da organização de outras com vidas e processos de raciocínio mais claros e ordenados que o seu.
Pessoalmente já testemunhei até irritação e alguma agressividade como reação do desordenado mental na presença de uma pessoa de pensamento claro.
A luz ofende as trevas, mesmo que de maneira inconsciente. Certas personalidades, desorganizadas, com emoções caóticas, ou pelo menos pouco elaboradas, sentem grande desprazer diante de um raciocínio encadeado. Ou tédio e fadiga, na incapacidade de acompanhar o desenrolar de uma argumentação mais bem fundamentada.
Vejo isto no consultório todos os dias. Tenho veleidades educacionais durante a consulta e como sou um clínico, meu papel também é o de educar. Gosto de conversar e orientar o paciente acerca dos detalhes de sua patologia, repassando com ele os sintomas, o prognóstico da doença em questão e mesmo as possíveis reações colaterais dos medicamentos indicados.
Faço isto por que gosto, só que nem todos os pacientes estão dispostos a ouvir. Existem aqueles que ouvem por educação, respeitosamente; outros, ainda, vibram com os detalhes, como se sua curiosidade satisfeita tivesse um efeito de bálsamo para seu sofrimento; mas existem aqueles que demonstram enfado desde os primeiros minutos e que desviam os olhos, abaixam a cabeça e deixam claro que não querem ouvir detalhes da sua moléstia, ou porque aquilo lhes parece demasiadamente complexo, ou porque não querem assumir a responsabilidade pela sua doença e se comportam como alguém que leva seu corpo ao médico como um carro ao mecânico, e se pudessem, largariam seu corpo no consultório e voltariam dias mais tarde apenas para pegá-lo consertado de volta.
É assustador tamanha apatia, tamanha falta de empenho em viver melhor, mas as pessoas podem ser assim.
E fazem parte do rol dos seres humanos, tanto quanto pessoas maravilhosas, outras com personalidades abatidas e desanimadas, preguiçosas mentalmente, tanto quanto fisicamente.
E assim, com mentes lentas, de pensamento letárgico, são incapazes de pensar diferente de Aristóteles, classificando o mundo em superiores e inferiores, dia e noite, de forma estática, sem vida, sem fluxo.
Mentes ágeis são quase dolorosas para estes indivíduos apáticos e geralmente lhes causam tanta irritação que a expressão “pensador racional” pode se tornar um xingamento.
E aí ouvem-se frases como “...você é um racionalista” ou, “seu pensamento é excessivamente racionalista”, etc , como se isto denegrisse a personalidade de quem escuta tais expressões.
É claro que razão elaborada não é um defeito. O pensamento racional muito menos. Razão é cultura. E cultura é refinamento pessoal, moral e espiritual.
Mesmo aqueles que querem melhorar sua sensibilidade artística não prescindem da melhoria de sua racionalidade, de sua cultura.
A técnica só se apura com o esforço, seja a cirurgia plástica ou a pintura e a escultura; a neurocirurgia ou a poesia.
Racionalidade, sistema e ordem, não são inimigos da Arte ou do sentimento. São catalisadores, estimulantes, aperfeiçoadores da expressão da beleza.
Já o desorganizado pouco produz, vive embrutecido em sua incapacidade de entender o mundo a sua volta, e é tomado via de regra por uma irrascibilidade e intolerância difíceis de controlar.
É preconceituoso já que não sabe lidar com sua ignorância ao contrário do sábio que vê na sua ignorância um estímulo e um desafio ao aprendizado.
Sistema e ordem não são só, portanto, uma forma de arrumar a mesa do escritório, ou de planejar nosso trabalho, nossas finanças, mas também uma técnica de intervenção na nossa qualidade de vida mental, pois a primeira coisa que o sistema e a ordem na mente provocam é uma brutal diminuição de nossa ansiedade, gerando normas de comportamento que facilitam nossa existência como:
1.Dividir todo problema que enfrentamos em partes, sejam problemas emocionais, afetivos, aritméticos ou intelectuais.
2.Resolver uma parte de cada vez.
3.Viver um dia de cada vez.
4.Concentrar toda nossa atenção na parte do problema que estamos trabalhando ou no dia que estamos vivendo, já que não existe passado, nem futuro, só o presente.
5.Reconhecer a natureza inquieta da mente e permitir que ela oscile seu foco, sem que nós mesmos abandonemos o nosso foco de atenção, separando a mente de nós e diminuindo sua influência sobre nosso estado de espírito.
6.Lembrar sempre dos 4 passos finais do Ashtanga Sadhana da Raja Yoga e aplicá-los a nossos problemas, os quais são Pratyahara (abstração), Dharana (concentração), Dhyana (Meditação) e Samadhy (iluminação), lembrando que o nível mais alto de Abstração corresponde ao nível da Concentração, e que o nível mais alto de Concentração nos leva ao estado de Meditação; e que a Meditação mais perfeita nos leva, automaticamente, ao estado de Bem Aventurança e Iluminação, mesmo que por alguns instantes.
Há muitos outros aspectos a considerar no Sistema e Ordem no pensamento e na mente, mas por enquanto estas reflexões já dão algum material para elaboração.
Menos aos desorganizados que ficarão muito bravos e incomodados com todo este raciocínio e provavelmente não vão nem conseguir terminar de ler este ensaio.
Pena, mas é assim que as coisas são.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

POEIRA DAS ESTRELAS,COM MARCELO GLEISER, EM 12 VÍDEOS

Estou publicando hoje, por causa do tamanho, na área de Vídeos do Blog, uma sequência em 12 partes do programa Poeira das Estrelas, apresentado originalmente na TV Globo, no Fantástico, 4 anos atrás, em 2006. Nesta abordagem, o físico Marcelo Gleiser fala sobre as origens do universo e os caminhos do conhecimento da física, através da história de seus construtores, cientistas, astrônomos, que ao longo dos últimos 500 anos, montaram o nosso modelo atual da Criação. Dada a riqueza das informações, acredito que seja um conjunto precioso de iniciação científica para quem, como eu, não pertence a área de ciências exatas ou mesmo não é membro da comunidade científica mas tem uma curiosidade genuína sobre estes assuntos.
Bom programa.