Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

domingo, 28 de março de 2010

FLERTANDO COM A ESCURIDÃO


Por Mario Sales, FRC,S.:I.:,M.:M.:


Quando prego, de modo às vezes aparentemente solitário, já que tenho certeza que existem os que cerram fileiras comigo, o combate ao Obscurantismo e à superstição dentro das escolas esotéricas, talvez nem sempre fique clara a importância deste combate.
Nós, os místicos, já fomos vítimas da perseguição e dos carrascos do estado. Um frater nosso passou pela experiência de ser guilhotinado, Lavoisier, embora nossos templos jamais, que eu saiba, tenham sido violados.
Existiam rosacruzes entre os cátaros.
Provavelmente pereceram com todos que lá estavam em decorrência do ataque sanguinário das tropas do papa Inocêncio III.

Diz a Wikipedia:
"A cruzada albigense (denominação derivada de Albi, cidade situada ao sudoeste da França), também conhecida como cruzada cátara ou cruzada contra os cátaros, foi um conflito armado que aconteceu em 1209 e 1244, por iniciativa do Papa Inocêncio III com o apoio da dinastia dos Capetos (reis da França na época), com o fim de reduzir pela força o catarismo, um movimento religioso qualificado como heresia pela Igreja Católica e assentado desde o século XII nos territórios feudais do Languedoque; favorecendo a expansão para sul das posses da monarquia capetiana e os seus vassalos.
A guerra, que se desenvolveu em várias fases, começou com o confronto entre os exércitos de cruzados súditos do rei
Filipe Augusto da França com as forças dos condes de Tolosa e vassalos, provocando a intervenção da Coroa de Aragão que culminou na batalha de Muret. Numa segunda etapa, na qual inicialmente os tolosanos atingiram certos sucessos, a intervenção de Filipe Augusto decidiu a submissão do Condado, ratificada pelo Tratado de Paris. Numa prolongada fase final, as operações militares e as atividades da recém criada Inquisição focaram-se na supressão dos focos de resistência cátara, que desprovidos dos seus apoios políticos, terminaram por ser reduzidos. A guerra teve episódios de grande violência, provocou a decadência do movimento religioso cátaro, o ocaso da até então florescente cultura languedociana e a formação de um novo espaço geopolítico na Europa ocidental."

Ou seja, o obscurantismo tem muitas faces. Esconde questões políticas, a luta pelo poder, sobre terras ou mentes, e inclui inclusiveo poder de estabelecer qual é a Fé verdadeira.
E porque me refiro a este triste episódio?
Porque este é o final de todo obscurantismo: a tirania e a violência.
A minha intransigência com este que é o vírus mais mortal da sociedade humana, que se infiltra de modo insidioso, que se aproveita da ausência de capacidade crítica e da extrema ingenuidade de alguns nos modos de pensar o mundo e as informações, é a arma preferida dos charlatães, mas também dos ditadores, dos radicais religiosos e de todos os inimigos da luz em geral.
Eles fazem a sua parte, não podem evitar. Em um mundo dual alguém tem que representar a coluna da esquerda.
Nós devemos no entanto fazer a nossa parte , nós, os filhos da coluna da direita, levando sempre em consideração de que não há meio termo entre ambas, a não ser quando se alcança a maestria.
Toda vez que o Mal avança sobre nós, ele exerce seu papel e sempre será enfraquecido pela nossa ação reparadora.
Da mesma maneira, quando alguém da coluna da direita não é capaz de exercer uma análise criteriosa de informações descabidas que nos atingem todos os dias, disfarçadas de verdades indiscutíveis, como se fora Deus existisse tal coisa, (“verdades indiscutíveis”), o Mal avança.

Superstição e Misticismo


Pode um místico devidamente iniciado nos mistérios de escolas tradicionais crer no poder de amuletos?
Pode um iniciado supor que algum objeto é superior à sua vontade na intervençaõ no real?
Teoricamente não. E o que vemos em nossas fileiras? Preocupantes manifestações de superstição e crendice adequadas a mentes menos elaboradas.
E quando falo menos elaboradas não me refiro a menos intelectualizadas. Repito o que já disse em outra oportunidade: sagacidade não é privilégio das pessoas com boa educação como não é proibida para aqueles que não tiveram uma educação formal diferenciada.
A ausência de títulos não faz de ninguém um tolo e a presença deles não transforma seu possuidor em sábio.
Sagacidade é a habilidade de perceber as intenções de outros para além de suas palavras.
É intuição, aplicada às relações humanas, às relações sociais.
Nenhum místico deve-se se deixar enganar ou pode se deixar enganar por um embusteiro. E se o permitir, merecerá o preço que pagará por sua ingenuidade.
Quando a Ordem Rosacruz fala em tolerância não quer dizer condescendência, permissividade, ausência de pensamento crítico. Tolerância não é estupidez. É capacidade de compreensão.
Devemos ser capazes de perceber a intenção malévola do charlatão, mas sem julgarmos seu comportamento, ou condená-lo apenas por manifestar instintivamente a sua natureza ruim.
Parafraseando o Cristo, “eles não sabem o que fazem.”
Merecem nossa compaixão, mas nunca que nos deixemos arrastar por seus cantos de sereia.
Se alguém se aproxima de um místico com a intenção de enganá-lo com métodos milagrosos de cura, máquinas fantásticas, que transcendem o conhecimento científico atual, nossa obrigação como místicos é pensar: algo está errado.
Não só as pessoas cultas pensam; as pessoas sagazes também o fazem.
E, pasmem, chegam às mesmas conclusões que uma pessoas treinada nos caminhos do pensamento chegaria.
A sagacidade do místico é o Olho de Deus, o Olho que tudo Vê.
É Sofia, a companheira do Todo Poderoso na Criação.
Todos nós místicos devemos render culto à Sofia, sob pena de nos tornarmos pueris em nossa conduta e confundirmos misticismo com crendices sem fundamento.
Toda minha paixão ao defender este tema, talvez até aparentemente excessiva, se baseia em um fato muito simples: meu amor ao Misticismo e principalmente ao Misticismo Rosacruz.
Nossa escola tem uma nobre História ao longo dos séculos e parte dela é conhecida pelos nomes que se sucederam na construçaõ do pensamento humano (John Dee, Francis Bacon, Renée Descartes, Leibnitz, Sir Isac Newton, Debussy, Eric Satie), mas, além deles, também por um grupo de pessoas anônimas, comerciantes, donas de casa, professores, na Antiga Europa e na América, que aparentemente não deixaram seu nome impresso na História da Humanidade mas fizeram com seu esforço de preservação da Tradição Rosacruz um inestimável serviço a esta mesma Humanidade que nem mesmo os conhece.
Repito: o obscurantismo começa pela superstiçaõ e termina nas fogueiras e nos calabouços.
Nosso período aparentemente é luminoso,mas o Obscurantismo está a espreita, incansável.
Toda vez que concedemos espaço para superstições, que nos recusamos a pensar de modo cético, pelo menos metodologicamente, flertamos com a Escuridão, decapitamos mais uma vez Lavoisier e queimamos Giordano Bruno novamente.
Devemos estar atentos ao alerta bíblico: “Vigiai e Orai”, que eu modificaria para “Orai, sim, mas Vigiai incessantemente”.

A importância da Realização de Palestras como forma de Divulgação da Ordem Rosacruz



Em primeiro lugar, é interessante perguntar por que as palestras são organizadas pelos O.A. da Ordem.
Existem diversas razões, todas significativas.
A primeira é a promoção da cultura mística. Como responsáveis pela manutenção de uma tradição milenar, os rosacruzes têm grande prazer e satisfação em aprimorar este trabalho com o enriquecimento cultural que encontros desta natureza promovem.
Segundo: estes encontros permitem a confraternização entre mentes afins, como costumávamos dizer em nossos prospectos, alguns anos atrás, sejam eles rosacruzes ou apenas curiosos simpáticos aos nossos pontos de vista.
A terceira razão é decorrente desta, ou seja, a partir deste encontro e, desde que o mesmo seja realmente capaz de atiçar a curiosidade e o interesse deste indivíduo, ainda não membro, poderemos conseguir novas adesões e ampliar o quadro de membros da Ordem e do nosso O.A.
As palestras, vistas desta forma, são uma excelente e elegante estratégia de captar novos rosacruzes para nossas fileiras.
E aí eu gostaria de me deter e aprofundar este tema.
O objetivo primordial de nossa Amada Ordem é fornecer mecanismos ao indivíduo que a procura para que este possa conseguir o Domínio de sua Vida e superar as limitações psicológicas e físicas que, eventualmente o estejam bloqueando para o sucesso pessoal, profissional e espiritual.
E para isto, existe um consenso, a Educação é o elemento chave da equação.
Obviamente, a educação mística segue mais o modelo enciclopédico do tempo do iluminismo, onde todos os assuntos, fossem quais fossem, deveriam ser investigados com o mesmo ardor, ao contrário de nossos tempos atuais onde a especialização parece estar consagrada como modelo de intervenção no conhecimento.
De qualquer forma, sendo o estudo místico um Universo em si, e sendo o rosacruz, como já foi dito, um interrogação que caminha, sua fome de informação quanto às múltiplas facetas do misticismo internacional é, digamos assim, insaciável.
Exatamente por isso, o papel de Organizações como a nossa é o mesmo de uma Universidade com suas diversas Faculdades, ou seja, organizar didaticamente todo este conhecimento e fornecê-lo, a posteriori, sob a forma de monografias de fácil leitura, ao longo de graus progressivos, aos nossos estudantes de sanctum.
Este é um trabalho santo, já que disponibiliza conhecimento e informação e assim, contribui como vimos decididamente na consecução de uma vida plena e gratificante.
Nada impede, e é até desejável, que esta gama de informações monográficas sejam enriquecidas por outras atividades e pesquisas culturais e técnicas, entre as quais as atividades de palestra em corpos afiliados.
Os assuntos destes encontros são os mais variados, mas ao contrário do que pareça, dada a enorme liberdade que encontramos em nossos trabalhos de investigação dentro de nossa Ordem, isto não significa que não deva existir critérios de bom senso e pertinência em relação aos temas discutidos.
Lendo uma monografia oficial da AMORC, de nível avançado, recentemente, deparei-me com a seguinte declaração que muito me encheu de orgulho por pertencer à Rosacruz.
Dizia ela textualmente:
“É apropriado neste ponto que procuremos transformar parte de nosso estudo em experiências e demonstração pessoais. Numa de nossas monografias recentes foi explicado que o misticismo não é contrário a experiência; antes, está tão ligado a experiência quanto a filosofia e a ciência ( profana).
Na verdade, misticismo e ciência são sinônimos. Sem certo tipo especial de experiência, jamais poderíamos ser místicos.”
É a mais pura verdade. Nós, místicos da AMORC, somos cientistas místicos.
E embora nossa área seja extremamente subjetiva, não devemos esquecer os critérios objetivos que definem uma boa prática científica.
São eles: fundamentação bibliográfica, verificabilidade experimental e crítica dos resultados, no intuito de gerar novas hipóteses a serem testadas.
Os temas de palestras não verificáveis não estão impedidos de ser apresentados nos corpos afiliados, mas a atitude de condescendência com este tipo de apresentação, principal características de mentes menos sagazes, pode fazer com que estas mesmas palestras fomentem o obscurantismo, contra o qual todos os rosacruzes devem lutar, aí sim, de forma intolerante.
Sagacidade é uma virtude importante, e de forma alguma privilégio de pessoas com formação educacional rebuscada. A arte do comércio, para citar um exemplo, é cheia de exemplos de homens e mulheres intuitivamente diferenciados na percepção de oportunidades lucrativas, sem que nunca tenham se preparado para isto em bancos de Universidade, da mesma maneira que encontramos pessoas com formação universitária capazes de comentários e atitudes absolutamente ingênuas.
Portanto, já que somos uma escola, e como tal nossa obrigação é educar nossos membros, devemos todos, mestres e colaboradores de O.A., passar os temas de palestras pelo crivo do bom senso científico, pois talvez aí, selecionando temas pertinentes ao trabalho místico e fundamentados na tradição e na experiência, façamos o trabalho mais importante do educador que é melhorar a capacidade do membro de buscar a informação de qualidade de forma criteriosa .
Temas possíveis e consensuais que exemplificam este modelo são assuntos como Astronomia, Física e Biologia, que sempre devem ser enfocados por pessoas ligadas à área, que possam didaticamente mastigar estes assuntos para os nossos membros, mas a partir de uma formação e de uma informação sólida.
Os temas filosóficos clássicos sempre serão bem vindos como enriquecedores da sensibilidade de nossos membros e quando falo em Filosofia, cito a Filosofia Ortodoxa, e não apenas a especulação livre que, em princípio, não é Filosofia, na acepção técnica do termo, já que até o pensar tem regras muito claras e definidas há muitos séculos.
Revisões biográficas de grandes líderes espirituais sempre são inspiradoras.
Não quero fazer comentários quanto ao que não deve ser levado a discussão em O.A. porque seria pretensão e poderia parecer apenas uma censura prévia ao trabalhos de nossos oficiais, o que vai contra a natureza de nossa Ordem.
Apenas insisto que não fazendo isso, não quero dar a impressão de que não existam assuntos inconvenientes e inadequados, como aqueles que de alguma forma promovem crenças supersticiosas, ou que propaguem terapias milagrosas sem qualquer apoio da comunidade científica internacional.
Reza o regulamento para palestras que devem ser evitados temas que promovam ideais contrários àqueles que a Ordem propaga, como quaisquer discursos xenófobos, políticos radicais ou racistas, mas isto é óbvio.
O que não é óbvio é que assuntos sem fundamentação científica, o que eu chamaria de superstição chic, travestido de conhecimento científico, são muito comuns em O.A., e isto, embora não pareça, é contrário à intenção de formar e informar mentes mais sagazes e mais sensíveis.
É muito comum que um indivíduo qualquer que queira valorizar seu tema, afirme que este está cientificamente provado.
O rosacruz não deve aceitar tal fato sem que lhe sejam dadas os devidos detalhes: provado quando? De que modo? Por quem? Quais os detalhes da experiência que demonstrou este fato?
O ceticismo não é um defeito, mas uma qualidade de mentes sagazes.
Lembro a todos por último que o inventor do Ceticismo metodológico como técnica de pensamento não foi ninguém mais senão um frater rosacruz do Século XVI, Renée Descartes, ao qual prestaremos homenagem quando, como cientistas místicos, exercermos o mesmo ceticismo diante de tudo aquilo que seja ou se diga ser científico.
Já que estas palestras são nossa principal estratégia de captação de novos membros, elas devem ser de alta qualidade de forma a passarem uma boa imagem de nossa Ordem para aqueles que não são membros e que as assistem.
Se como mestres de O.A. tivermos o cuidado de programarmos palestras de cunho histórico, científico e literário, estaremos plantando a semente da qualidade e do refinamento de pensamento que dará como frutos místicos mais equilibrados e uma ordem mais sólida e fundamentada.

quinta-feira, 18 de março de 2010

O PODER DE REALIZAR



por MARIO SALES, FRC,S.:I.:,M.:M.:


Antes de qualquer coisa, quero deixar claro o seguinte: o pensamento e a ação não estão separados.
Mentes fracas determinam atos imprecisos e falhos; mentes poderosas, atos grandiosos e realização soberba.
Esta equação deve estar no topo de nossas considerações quando, por qualquer motivo, nas nossas meditações, considerarmos de alguma maneira a imaginação uma coisa menos importante.
É verdade que a ação modifica a matéria e é preciso que nosso corpo intervenha no real para que o real se transforme. Só que sem que a nossa mente intervenha em nosso corpo, nosso corpo não se mexe.
Digamos que a mente é um general e tem uma tropa muito disciplinada, o corpo. Por mais estranhas e contraditórias que sejam suas ordens, o exército obedecerá sem pestanejar, mesmo que seja uma ordem que levará o exército à derrota e a auto-destruição.
Portanto, se não temos clareza de objetivos, clareza de intenções, motivação sincera no que fazemos, o corpo ficará confuso e sua intervenção no real será pífia.
E aqui eu gostaria de lembrar a importância da via cardíaca.
Não é no cérebro que nasce a vontade.
A vontade nasce no coração.
Toda vontade cerebral é falsa e não deve ser objeto de nossas considerações.
Já a vontade cardíaca, aquela que se costuma dizer, vem do fundo da alma, esta não precisa de estímulo, pois é arrebatadora por si mesma.
Por isso, pela condição prévia de ser sincera e íntima, toda vontade que vem do coração é específica, rara, ocorrendo apenas de tempos em tempos, ao contrário das vontades que vem da mente, estas sim, variadas, fugazes e numerosas.
Quando aplicamos a técnica rosacruz de Visualização Criativa, devemos partir do pressuposto que aquilo que desejemos materializar seja proveniente de nosso coração, não de nossa mente, de nossa cabeça.
Se queremos conforto e dignidade para nossos filhos, visualizaremos exatamente aquilo que precisamos nem mais nem menos, por que a via cardíaca é justa e perfeita enquanto a via cerebral é dada a exageros e fantasias.
Por que quando usamos o poder do coração para visualizar, trabalhamos com sentimentos e não com idéias. E se os pensamentos e as idéias são os generais das ações, os sentimentos são os marechais das idéias.
Posto isto, vemos que o Realizador só concretiza aquilo que sinceramente está determinado a fazer. Se ao resolver realizar alguma coisa, sentirmos que existe dificuldade na sua concretização, é melhor revisitar nosso interior e meditarmos sobre a sinceridade com que desejamos tal coisa.
Às vezes, o que o cérebro pede o coração sabe que não é correto e avisa, do seu jeito particular, de forma que um conflito criativo é instaurado e a realização não consegue se manifestar.


O Mago é um Realizador


Havia no passado um conjunto de técnicas de outros tempos para interferir no Real. Estas técnicas formam um arcabouço de uma cultura já extinta, mas da qual restou sua essência, que podemos usar hoje com tanta eficiência quanto outrora.
Os Rosacruzes são os herdeiros desta tecnologia e trata-se de uma tecnologia tão avançada que recebeu o adjetivo de magia.
Ora , os Rosacruzes, sendo Magos, sabem que Magia não existe.
Todas as coisas que nós Rosacruzes fazemos de peculiar são produto das técnicas que recebemos da tradição esotérica, uma habilidade tecnológica de uma cultura diferente mas ainda assim algo natural e não sobrenatural.
Na verdade, nenhum Rosacruz crê que exista algo “sobrenatural”.
Portanto, interferir na realidade com o poder de nossas mentes, amparadas e sustentadas por nosso coração é apenas uma técnica que todas as pessoas que desejarem aprender poderão fazê-lo, não sem algum esforço pessoal mas para isso necessitando apenas de tempo e dedicação, já que os materiais necessários para desenvolver este poder estão dentro de todos os seres humanos.

A única diferença entre os Rosacruzes e as pessoas que não são iniciadas pela Rosacruz, é que os Rosacruzes sabem que tem este poder de Realizar e o usam de forma sistemática, ao contrário daquele que não sabe que ele existe e , vez em quando , é surpreendido pelos fatos e não consegue explicar para si mesmo como teve força e determinação para fazer isto ou aquilo do jeito que fez, mas cita uma “ energia arrebatadora” que lhe deu a certeza que conseguiria e assim foi.
Eu chamo isto de Materialização Selvagem.
Os seres humanos são como seres primitivos com uma moderna espingarda nas mãos. Não sabem como usá-la nem para que serve, até que, acidentalmente, acham o gatilho e disparam o primeiro tiro. Imaginem o susto e o sem número de idéias fantasiosas que passarão pela cabeça daquele indivíduo, ainda atordoado pelo barulho do disparo.
Uma vez que descobre que o disparo pode ser reproduzido ele começa a disparar em todas as direções e, claro, em algum momento vai acertar em alguma coisa, que pode ser uma ave suculenta para o jantar da tribo.
Seu feito será decantado em prosa e verso, e ele conhecerá seus 15 minutos de glória. E depois?
Poderá reproduzir aquele evento?
Poderá usar aquele poder novamente?
Saberá, de forma detalhada, as causas que levaram aquelas ocorrências?
Não. Ele usou o poder, mas não pode reproduzir o evento, pois não conhece seus princípios, suas leis.
E é bom que não conheça, por que mentes primitivas podem devastar-se com poderes muito elaborados.
De forma que interferirá na realidade por outros meios, mais toscos, menos eficientes e com um retorno pífio. A vantagem de uma tecnologia seja ela qual for, é o fato de tornar a vida mais simples e mais fácil. Portanto, o Mago verdadeiro não tem restrições nem inibições no uso de suas técnicas peculiares no seu cotidiano.

A Magia como técnica de Realização

Foi para isso que ele estudou estas técnicas.
Se não forem usadas a exaustão a ponto de serem dominadas, todo o esforço empenhado na sua aquisição terá sido vão.
O Realizador só tem compromisso com sua Obra e com o Bem que ela produzirá ao maior número de pessoas e a si mesmo. Ele deve, aliás, usar todos os conhecimentos que possuir, tradicionais ou não, exotéricos ou esotéricos, na consumação de seus objetivos.
Estamos neste mundo para realizar milhares de retificações do plano original de Deus como forças divinas que somos em ação, já que o homem age no mundo por permissão e vontade do Altíssimo.
Aliás, o realizador que toma a si toda a responsabilidade é no mínimo um tolo.Como vimos acima, cavalgamos uma energia infinita e seria tolice não lançar mão desta mesma energia para a realização de nossos desejos e necessidades, mas não somos os criadores desta energia, apenas um dos muitos que a administram.
Como estudantes rosacruzes conhecemos a técnica da Visualização Criativa.
Agora, falaremos sobre a outra técnica de contato com esta energia infinita: a oração.
Se existe um meio aparentemente simples de acionar as forças divinas é pela invocação através da oração.
Toda oração é uma invocação.
E as energias começam a se movimentar a partir das primeiras palavras, das primeiras sílabas.
João já deu a chave em seu evangelho:
“No princípio era o verbo, e o verbo estava com Deus, e o verbo era Deus”.
Sim o verbo é Deus.
Deus está na palavra e é a palavra.
E esta palavra é a palavra que vem do coração.
Quando falamos com o coração, usamos um poder, manifestamos o Altíssimo.
Se oramos, principalmente quando oramos em voz alta,os anjos nos ouvem, Deus nos ouve e vem a nós.
Para que a oração se torne uma tecnologia é preciso que aperfeiçoemos a sua execução, primeiro orando com freqüência sem usar fórmulas prontas, depois procurando reservar um momento em nosso dia para este exercício de conexão.
Quem trilha muito o mesmo caminho passa por ele com mais facilidade e rapidez.
Quem tem o hábito da oração diária, sabe entrar em contato com o Todo Poderoso com rapidez e eficiência.
Desta forma, durante um empreendimento pessoal, saberemos como recorrer a interferência divina de forma eficiente e rápida, para que nosso objetivo seja alcançado em consonância com a vontade de Deus. Mais : nos acostumaremos a consultar o Altíssimo em íntima e constante conexão, para que nossos desejos e realizações não sejam mais do que os desejos e as realizações do Altíssimo através de nós.
Se e quando nossa união com Deus for perfeita, nada parecerá impossível nem difícil, e até a natureza de nossos pedidos mudará.
Se no início orávamos por coisas ou situações, após esta fusão através da oração perceberemos que a prece mais poderosa é pedir Deus, a Deus, ou melhor, pedir pela presença de Deus em nossas vidas ao próprio Deus.
Esta prece, se for atendida, será nossa maior realização como Magos e realizadores.
Finalmente seremos a manifestação viva do poder de realizar.

domingo, 14 de março de 2010

FRAUDE

por Mario Sales, 14 de março, 2010




Todos nós, em menor ou maior grau, sentimo-nos uma fraude.
A máscara social e os mecanismos naturais de defesa do ego nos obrigam a todo o momento a emitir uma imagem em desacordo com aquilo que sabemos ser a nossa realidade.
Nenhum de nós é absolutamente puro ou digno, nenhum de nós é absolutamente moral ou ético; no entanto nos comportamos e procuramos parecer devidamente indignados e radicais na exigência deste comportamento de outros como se nós também fôssemos absolutamente íntegros e nobres.
Esta trapaça constante com os fatos visa talvez a preservar nossa auto estima. Se admitíssemos nosso, chamemos assim, lado negro, talvez não nos sentíssemos muito bem para dar conta de tocar o dia, digamos assim. Talvez entrássemos em um estado de complacência com o erro alheio que faria retroceder em séculos a busca por uma sociedade melhor.
Por outro lado, conhecer e reconhecer nosso outro lado, a Sombra Junguiana, aquele lado de nós não muito digno, não muito nobre, nos tornará apenas seres humanos normais, mais humildes, menos arrogantes, mais tolerantes e não necessariamente complacentes, porque admitir que somos capazes da mesmas indignidades que reprovamos em outros apenas não implica em reproduzi-las.
Ser capaz de e fazer são coisas absolutamente diferentes.
Dependemos da autorização de uma instância mais alta em nossa personalidade, nossa consciência, que nos autorizará ou não a materializar esta ou aquela ação menos nobre, menos digna.
Existe o consenso que o rigor excessivo leva a auto destruição, que um certo grau de permissividade mantém a sanidade.
O equilíbrio não está em tudo reprimir, em busca de uma perfeição suposta, em desacordo com o nível de exigência de nossos padrões morais.
E este é o fator humano. A humanidade em nós não nos garante nobreza, mas a possibilidade da nobreza. A dignidade perfeita sempre será uma meta, possível de ser alcançada, como o horizonte, mas sempre distante em relação a nossa posição atual.
Por isso, a noção de que somos uma fraude não seria correta. Deveríamos entender que enquanto seres humanos todos nós somos um processo de avanços e recuos, de ajustes e desajustes, dinâmico e ininterrupto, difícil senão impossível de ser objetivado, congelado para rotulação, já que é processo, fluxo permanente, oscilação constante.
O erro não está em saber-se não perfeito, mas em supor-se a perfeição e a completude como metas estáticas, espacialmente localizadas e alcançáveis em determinado período de tempo.
Perfeição é equilíbrio entre o que somos e o que desejaríamos ser, reconhecendo nosso contexto e nossas limitações sem nunca, mas nunca mesmo deixarmo-nos limitar ou bloquear por este reconhecimento.
Quem exige menos de si, exige por conseguinte menos dos outros. Espera menos dos outros e sabe que o outro não o ameaça com uma perfeição insuportável que ele nunca conseguiria obter.
O outro é uma extensão de nós mesmos, preso a conflitos equivalentes aos nossos se bem que com outras formas de apresentação, mas tão inquietantes quanto os nossos são para nós mesmos.
Compreender a nós mesmos, aceitando-nos, é compreender aos outros e aceitá-los, como são, e não como querem parecer ser.
Nisto consiste o humanismo verdadeiro. O resto não tem importância.
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quarta-feira, 3 de março de 2010

O MERGULHO




O MERGULHO
Início do outono no hemisfério sul

Crítica filosófica do conceito de "Queda Adâmica"






“E tu também, que buscas o conhecimento,é apenas uma senda e uma pegada da minha vontade; em verdade a minha vontade de poder caminha com os pés da tua vontade de conhecer a verdade!”
F.Nietzsche,
“Do superar de si mesmo”
em “Assim Falou Zaratustra”,
Tradução de Mario da Silva,
Círculo do Livro,1977




Prefácio

Porque criticar tão insistentemente o tema e o termo “Queda”?
Por que o termo em si me incomoda e aborrece.
Não só por sua imprecisão, mas por faltar à verdade dos fatos.
Pior que um termo ruim só um símbolo ruim.
Os valores que guiam os seres humanos são representados por estes signos presentes na nossa tradição.
Se não nos esforçarmos por melhorar sua clareza estaremos condenando os nossos descendentes a um esforço de exegese desnecessário já que todos concordamos que as coisas não se passaram bem assim.
O outro aspecto é psicológico.Jamais me satisfiz com a simbologia , interessante, mas primária, do gênesis hebreu , mesmo ressaltando a sua beleza imagética.
Antes de qualquer coisa , tal arranjo simbólico está carregado de culpa e dor em vez de mostrar, mesmo que simbolicamente, a maravilhosa dinâmica interna do Universo.
E é isto que move o místico: decifrar entre símbolos herméticos os princípios que podem representar um incremento no seu conhecimento e em seu poder sobre a criação.
Não há culpa no místico, mas sim curiosidade. Ele é o cientista do Eterno.
O místico não é um religioso, embora esteja imerso na religiosidade. Não lhe interessam histórias sobre demônios e infernos e ranger de dentes. O universo para o místico é límpido, poderoso, mas benigno, e seu Deus não lhe é hostil nem aterrador, mas sim um eterno Companheiro de Viajem, esta viajem que todos experimentamos e que eu gosto de chamar de mergulho na carne .
Por isso precisamos avançar as formas de simbolizar e de descrever nosso passado,de forma que , mesmo metaforicamente , expressões como corrupção, queda ou pecado original sejam banidas da nomenclatura mística por completa inadequação à compreensão atual que temos da criação e da nossa relação com o nosso Criador.

Mario Sales FRC,S.:I.:,M.:M.:







Introdução





“Eis a cena. Ela se passa em um instante (que mais tarde os exegetas dividirão em cinco partes). Marcos e João nada dizem sobre ele. Mateus o menciona de passagem. É Lucas quem o descreve em doze versos. Uma menina sozinha. Um anjo aparece e lhe diz algo assustador. Ela duvida, pergunta. O anjo explica. Ela aceita. O anjo parte”.
Poucos instantes são iguais a esse..É o instante em que nasce um novo monoteísmo; em que o velho testamento chega ao fim; que anuncia ,com nove meses de antecedência,uma nova era; em que, teologicamente, o eterno penetra na história; em que uma virgem se torna mãe.
O dia 25 de março,equinócio da primavera no calendário Juliano. Daí em diante, no hemisfério norte os dias serão mais longos do que as noites. Haverá mais luz que escuridão. Segundo uma tradição retomada pelo maior teólogo do século 6. Bernardo de Claraval, Nazaré, o nome da cidade em que se deu a cena, significa flor. Num jogo místico, São Bernardo escreve que a flor divina quis nascer de uma flor, no ventre de uma flor, na época das flores.
Na cena há dois personagens e um animal: a menina, o anjo e a pomba. É a antítese da Queda, em que também há dois personagens e um animal: Adão, Eva e a serpente. A serpente é um animal telúrico, do fundo da terra, que sobe enroscando-se numa árvore, ressentida por não poder chegar ao céu. Sua mensagem sobe do chão. Traz veneno. A pomba é um animal celeste. Sua mensagem desce do alto e traz graça.
Na Queda há uma árvore entre Adão e Eva. Ela divide o masculino do feminino. E a natureza selvagem, a produção anárquica do mundo vegetal, o instinto ainda não disciplinado pela razão. Na iconografia clássica da Anunciação há uma coluna entre Maria e o Anjo. Ela divide o divino do humano. É expressão da Ordem alcançada pelo uso da Razão, o rigor geométrico da arquitetura humana.
Santo Tomás de Aquino escreveu um opúsculo sobre Maria como a anti-Eva: com Eva, o pecado; com Maria, no momento da Anunciação, o contrário da maçã, a destruição da maçã. Ao entrar, o Anjo Gabriel saúda Maria com as palavras que, mais tarde, serão repetidas pelos fiéis: “Ave Maria,Gracia plena. Dominus tecum...O hino medieval “Ave Maria Stella” nos diz: “Ao ser pronunciado este Ave /pelos lábios de Gabriel/foi nos dado a paz/ao ser trocado o nome de Eva.”
Ave, a primeira palavra do Anjo, inverte Eva, como viram os antigos.
Desfaz o mal. ”

Trecho de um ensaio de João Moreira Salles para o Estado de São Paulo,26 de março de 2006, sobre o quadro a Virgem Anunciada de Antonello de Messina, em exposição no Museu Metrpolitan de Nova York.



A HERANÇA DO GÊNESIS

As doutrinas martinista e martinezista são tributárias do simbolismo bíblico.
É lá , no livro santo , que vamos encontrar as primeiras referências à queda do homem ,de um estado superior, angélico ,sem pecado , para um estado de dor e sofrimento.
O gênesis hebreu poderia ser , em certas passagens um Livro do Medo.
Causa medo o Deus que cobra de Adão a promessa de não comer da árvore do bem e do mal. Causa medo o Querubim de espada flamejante que expulsa o casal primordial do chamado paraíso.
Tudo é culpa e erro.
Nesta visão, homem e mulher são arquitetos da infâmia diante de um Deus benigno e Onisciente , no entanto, estranhamente incapaz de antecipar a serpente.
A simbologia moisaica , embora interessante , já há muito dá sinais de senilidade.
Evoluímos, de certo que não muito , como povo e como cultura, uns mais que outros.
Mesmo assim é hora de revisar e de proceder a uma atualização mística das imagens e dos símbolos que guiaram outrora um povo nômade e bárbaro , num período bárbaro e primitivo , para um novo tipo de momento histórico , de compreensão intelectual e de situação sócio científica.
E talvez devamos começar pelo conceito de “Queda”.

A mudança de paradigma

Só a sincronicidade de Jung pode explicar.Eu já tinha terminado este ensaio quando me caiu nas mãos o ensaio de João Moreira Salles sobre um quadro de Antonello de Messina (no qual , aliás , a Virgem Maria faz um gesto semelhante àquele que todos os martinistas fazem ao pedir permissão para falar durante um conventículo, mão esquerda no coração e a palma da mão direita estendida para frente) , ensaio que, em sua maravilhosa introdução , descreve como a Anunciação de Maria desfez em nós o mal ao inverter , pela boca do anjo , o nome da primeira mulher - EVA- na saudação a Maria, mãe do redentor – AVE.
Diz mais : no momento da Anunciação, dá-se também o fim do Velho Testamento, dos velhos símbolos.
É o início de uma nova e eterna aliança.Não falaremos mais em Queda.Agora discutiremos a Ascensão.


Discussão crítica do conceito de Queda

Perguntemos inicialmente: o que fez o ser , onipotente ,onisciente , criar um universo em camadas, com uma parte que podemos chamar divina e outra que podemos chamar humana , separadas aparentemente?
A resposta martinista e mística seria a necessidade de criar tensão.
Entre um e outro pólo da criação , entre as colunas de Jaquim e Boaz , o ser e a criação flutuam , suspensos entre os contrários e na energia criada entre estes pólos opostos.
A realidade é dual em estrutura e trina em manifestação,relata o breviário Rosacruz.
Assim , pela vontade de Deus,tudo que foi criado apóia-se em duas colunas essenciais , fundamentos de tudo que existe.
É pela existência destes dois pilares que se criam as condições para a manifestação da vida , não só entre o que está em cima e o que está embaixo , mas , de forma mais marcante , pelas condições criadas naquela região entre a esquerda e a direita da criação.
O terceiro ponto , nós mesmos, seres humanos , só existimos se instalados neste território dual e instável , aparentemente estável ,que chamamos REALIDADE.
Estabilidade para a qual contribuímos com nossa consciência , contribuição que é mais intensa quanto maior é o nosso grau de discernimento do papel que temos nesta interação de forças.
Ali , nesta região onde o fluxo de prótons,nêutrons,elétrons e de fótons é mais rico e denso,existimos.
Ali, naquela região instável e movediça, evoluímos.
E ,ao evoluirmos , cumprimos nossa maior missão como seres vivos que somos: servir como sensores do Todo Poderoso em seu próprio corpo , a Criação.
Sim, Deus se apalpa conosco,para se conhecer melhor.
Deus se toca, para perceber seus contornos e avaliar suas dimensões.
Nós somos os dedos das mãos do Todo Poderoso num exercício quase narcísico de autoreconhecimento.
É pela vontade Dele que Seus dedos atravessam o vazio e vem tocar a Sua pele sagrada.
É pela Divina Vontade que entramos nestes corpos de carne para experimentar as sensações de estar entre colunas.
É, portanto por Sua Sagrada vontade, que estamos neste plano de investigação , deleitando-nos com a colheita de todas as informações que pudermos conseguir para nosso Criador, sobre ele mesmo.
Não estamos neste mundo por acidente,mas voluntariamente.
Não somos seres deserdados por seu Pai, mas Luzes em missão, soldados obedecendo as ordens de seu comandante.
O que nos aconteceu,segundo o manuscrito 7 , página 7,do grau de associado, “...foi somente uma expansão do campo de operação necessária para englobar o desenvolvimento das faculdades do homem , que buscavam avidamente novas experiências de crescimento...”
Não caímos neste mundo , fomos lançados nele e , portanto , não estamos neste estado por que perdemos outro melhor , mas por que mergulhamos nele , de bom grado.
Nossa glória não está no espírito , mas na carne.
Nela conheceremos , através dela evoluiremos , e conosco , o Deus que nos enviou.
De forma alguma, esta é uma afirmação materialista.
Se pensarmos bem a noção de matéria é , em si, fantasiosa.
Supomos que existe um local idílico onde éramos só espírito , e este aqui , onde estamos, cheio de dor e sofrimento, onde somos só matéria.
Tais concepções são apenas um trauma aristotélico.
O mundo não é feito em pedaços. O mundo é um só.
A criação é unidade.
Não existe separação entre o mundo dos anjos e o nosso senão aquela que nosso grau de consciência da Unidade estabelece.
Estamos em um “...estado fictício de exílio ...” (Manuscrito 7 pág.7).
O que é em cima é embaixo,disse Trimegistus.
E eu completo que o que está em embaixo está em cima.
Deus está entre nós.Nós somos Deus manifesto.
Olhar nos olhos do outro é olhar nos olhos de Deus; mais que isso: se Deus também está em mim , quando olho para outra pessoa , Deus olha para Si mesmo.
Cabe ao martinista superar o que os Yogues e o Sankya chamavam de Maya , a ilusão da separação, a ilusão de sermos algo diferente D’ele.
Só quando o homem percebe em si a mesma divindade que o criou pode-se falar em iluminação.
Estamos num oceano de Consciência e energia em constante tensão e movimento, no meio das colunas.
Somos,todos nós e tudo que existe , o terceiro ponto.
E aqui chegamos como conseqüência da Vontade de Deus, portanto da nossa própria vontade,não por acidente , mas por necessidade.
A primeira condição para restabelecermos nossa consciência de Deus em nós é percebermos que nunca estivemos fora dele , que não há necessidade de regeneração já que não há degeneração, mas cumprimento de uma vontade de auto conhecimento do Todo Poderoso ao mergulhar-nos neste estado rico e variado, este vasto laboratório de conhecimento chamado mundo material.
A expressão mais adequada é “aumento da conscientização de estarmos nele como ele está em nós”, numa palavra, Unidade .


Suzano,25 de março de 2006
Mario Sales

SUPERSTIÇÃO

Superstição : Crença ou noção sem base na razão ou no conhecimento que leva a criar falsas obrigações, a temer coisas inócuas, a depositar confiança em coisas absurdas, sem nenhuma relação racional entre os fatos e as supostas causas a eles associadas; crendice, misticismo.

Dicionário Houaiss da Língua portuguesa ,pág. 2642 , 2001, 1ª edição


“Guran: -Fantasma , você não deve ir nesta missão, é muito perigoso. E se você insistir , eu lanço um feitiço em você ”
Fantasma “- (Rindo) Ora Guran, deixe de bobagem. Eu sou um bruxo. Eu não acredito em bruxaria.”

Diálogo entre o Fantasma, o Espírito que Anda, e seu fiel amigo Guran, feiticeiro da tribo Bandar, dois personagens de uma famosa história em quadrinhos.

A superstição, ou crença em poderes sobrenaturais de objetos ou coisas, ou números, ou mesmo em sacrifícios religiosos, sempre foi associada às camadas mais pobres da raça humana. Países onde a miséria e a desorganização social aparecem em destaque são, tradicionalmente, o berço de culturas extremamente supersticiosas, com é exemplo do Haiti, das Antilhas Holandesas, ou países da África Central como Nigéria, Zâmbia etc.
Embora não se possa negar a existência de uma socio-antropologia da superstição, relação estreita entre miséria espiritual e material, esta não é nem nunca foi prerrogativa de países pobres.
Encontramos cultos baseados em poderes dos objetos e no medo desses poderes em todos os países da face da Terra, tanto nos países nórdicos (com a revitalização do culto dos druidas) quanto na Europa e EUA (com o advento do culto Wicca)
As crendices não são apenas produto da pobreza, mas sim da ignorância, que induz ao medo infundado de maldições ou efeitos pirotécnicos de rituais os mais obscuros.
A história da superstição é antiga. Há relatos na Bíblia da adoração de estátuas de deuses, como o bezerro de ouro destruído por Moisés, ou o sacrifício de animais (cordeiros) na intenção de agradar o Deus de Israel, no Velho Testamento, e na prova de Abraão que leva seu próprio filho para o sacrifício acreditando estar assim obedecendo a uma ordem divina, detido pouco antes de executar tamanha barbárie por um anjo.(Gênesis,22:12)

Infelizmente, por uma imprecisão semântica, nas definições de dicionário , como vimos na epígrafe deste texto, relaciona-se o termo misticismo com esta prática , deixando claro que, na mente das pessoas racionais, todas as práticas supersticiosas são práticas místicas, ou pior, ao contrário, todas as práticas místicas são supersticiosas.
Ora , misticismo é apenas a expressão da religiosidade no homem, para além da religião.
A necessidade da expressão de uma religiosidade ou da vivência de algo transcendental está em todos os seres vivos.
Mesmo aqueles que recusam-se a crer na existência de um Ser Supremo, todo poderoso, inundados por um intelecto rígido, acabam manifestando esta busca do transcendental na filosofia.
Por isso, ter, de alguma forma, a necessidade do religioso, não implica em superstição, obrigatoriamente.
A Ordem Rosacruz e outras Ordens místicas lidam com esta dicotomia.
Parte importante do seu trabalho é esclarecer a distinção entre superstição e conhecimento, entre o ocultismo e o oculto, entre mistificação e misticismo.
O exemplo mais simples é o do Mago e seu cajado: a diferença entre o mago verdadeiro e o aprendiz de feiticeiro, é que o primeiro sabe que seu poder não vem de seu cajado, mas dele mesmo, ou de outra forma, que seu poder não está na varinha de condão, mas em si mesmo.
Estas distinções simples, claras, ilustram o trabalho árduo que é a luta contra a superstição dentro do meio místico.
O processo alquímico de transformar uma pessoa comum em um místico, e depois o místico em Mago, pode levar mais de uma vida e é uma chave de poder difícil de ser conseguida.
Não é uma coisa simples. A noção de simplicidade em si é um conceito perigoso. “Simplicidade” não quer dizer, na maioria das vezes, evolução, mas sim mediocridade espiritual.
A alma “simples” dá mais valor aos símbolos do que aquilo que eles simbolizam.
Por isso confunde a vela, objeto sem vida e feito de cera, com a luz que ela representa.
A única forma de desfazer este equívoco é pela educação cuidadosa, progressiva, tanto no aspecto místico como mundano. O ser humano só se enriquece com o conhecimento, ainda mais se atrela a este conhecimento a sensibilidade artística, porque, como todos podem compreender, a arte, principalmente a música, é o caminho mais direto para a percepção do Eterno.
Psíquico, Psicológico e Psicanalítico


A superstição geralmente se encontra tão fundo na nossa mente que não conseguimos identificá-la e até relutamos em admitir que somos supersticiosos.
O melhor profissional para lidar com isso é o psicólogo , não uma escola mística, já que, o psíquico e o místico estão misturados com o psicológico mundano, em nossa mente, a ponto de não vermos separação entre um e outro. Na verdade, despir-se de crenças sem o auxílio de um profissional treinado em extrair as causas ocultas por trás dos comportamentos é muito difícil.
Freud ,na psicanálise , falava em decifrar a “gramática do inconsciente.”
Achamos que fazemos certas coisas por que queremos, ou que somos como somos apenas por que somos. Segundo aquele médico austríaco, na verdade, nossa educação familiar, o relacionamento com nossos pais e pessoas de convívio doméstico, os traumas de infância associados, moldam em nós as bases de nosso comportamento social.
Aquilo que achamos que é decisão livre e pessoal, na verdade, muitas vezes, é conseqüência da educação, programações inconscientes de nossa mente que nos fazem reproduzir comportamentos de outras pessoas (pais e mães) como se fossem nossos.
A única forma de quebrar esse círculo vicioso é o conhecimento científico, a auto-análise ou a análise com auxílio profissional e a cultura intelectual. À medida que vamos estudando a psicologia comportamental e entendendo os mecanismos que nos fazem ser do jeito que somos , tornamos-nos capazes de isolar os componentes de nossa personalidade e administrá-los melhor.
Não há nada de errado em parecer com seu pai ou com sua mãe.


O problema é quando reproduzimos comportamentos sem critério de distinção entre aquilo que é fundamentado na nossa reflexão e o que é apenas produto de hábitos de compreensão adquiridos.
Assim, com o auxílio do conhecimento psicológico, começa a desconstrução de nossa personalidade e o estudo de seus componentes: qual parte de nós reflete a influência de nossa mãe, qual reflete a influência de nosso pai, qual reflete a influência da convivência com nossos avós, qual parte vem de nosso ambiente sócio econômico cultural, etc.
A importância está em não reproduzir sofrimentos. Algumas estatísticas mostram que filhos de pais separados tendem a ter mais dificuldade em estabelecer relações matrimoniais estáveis bem como filhos de pais alcoólatras, ou tendem a ser alcoólatras ou a casar com alcoólatras, reproduzindo o ambiente doméstico em que cresceram.
Assim prevenidos pela educação e auto análise, podemos evitar repetir situações como conseqüência de simples programações que, devidamente esclarecidas podem ser deletadas de nossa personalidade.
O Terror do Umbral
Da mesma maneira, condicionamentos de infância nos levam a crer em superstições, e não é fácil distinguir quando fomos condicionados para isto. Repetimos crenças de família pela força emocional que envolve este tipo de influência. Crer naquilo que a minha mãe me ensinou a crer é não apenas normal em nossa cultura como parte de nossa formação de caráter.
Pela educação a posteriori poderemos recusar este ou aquele condicionamento, mas nunca estaremos totalmente purificados de todas as influências que recebemos na infância, e nem é bom que assim seja pois são essas influências que nos fazem ser o que somos, que nos torna aquilo que nos tornaremos com cidadãos estudantes, etc. Precisamos nos livrar, isto sim, da parte ruim desta educação e deste condicionamento, aquela que nos induz a crer em coisas absurdas e no poder de objetos mortos, ou mesmo temer certas circunstâncias apenas porque para isto fomos treinados.
A parte mais importante da transformação do HOMEM COMUM em um MAGO, é a depuração alquímica de sua personalidade mundana e a parte mais importante desta depuração é a auto-análise, a busca de motivos ocultos na memória do subconsciente.
Não é um trabalho fácil. Um psicólogo profissional pode ajudar e muito.
Afinal de contas, não vamos identificar apenas memórias intelectuais, mas, principalmente, memórias emocionais.
Estas estarão misturadas dentro de nós e desfazer este emaranhado exige paciência, humildade , tempo e qualificação.
Sem este esforço, infelizmente, a verdadeira senda mística será praticamente impossível de ser percorrida.
Na cabeça do buscador tantos serão os conflitos, as dúvidas, os medos, que ele não terá energia psicológica suficiente para empreender a jornada.
Jamais passará da primeira iniciação pois não poderá vencer o “Terror do umbral”.
Terror , esta é a chave.
O Medo , este é o grande inimigo da luz.
É o medo que o faz invocar, em cerimônias bizarras, forças ocultas que o ajudem a combater as ameaças para ele assustadoras as quais distingue a sua volta, sem que ele perceba que é exatamente o mesmo medo que provoca essas alucinações assustadoras em sua mente, tornando sua vida um verdadeiro inferno de ansiedade e inquietação.
O psicólogo falará dos medos da infância, não superados: o medo da solidão no berço, o medo da escuridão, o medo da dor inexplicada.
A vida para o indivíduo que não teve um desenvolvimento psicológico completo, é sempre assustadora.
Esta imaturidade psicológica é base para a superstição.
Para o supersticioso, por exemplo, o ritual místico não é um drama iniciático, como uma peça de teatro montada para criar um certo estado na alma daquele que a assiste.
O ritual místico não é um meio para um fim.
É o próprio fim em si.
Repetindo a imagem: a vela é mais importante do que a luz que ela representa.
OS PARADOXOS DA SUPERSTIÇÃO
A superstição em si guarda alguns paradoxos . Primeiro ela vai contra a auto-estima pois o supersticioso acha que os objetos que o cercam são mais importantes do que ele, as coisas, portanto, são mais importantes que o ser humano.
Por isso ele coleciona amuletos, cristais, pequenas estatuetas, achando que o acúmulo desses objetos é muito mais importante para ter poder do que melhorar a si mesmo.
Por outro lado, a superstição encerra um sinal de intenso orgulho e soberba, pois faz com que o supersticioso suponha que, de posse dos objetos certos, ele pode comandar a criação a sua volta, ou seja, o supersticioso quer controlar a divindade e toda a criação, tornar-se mais poderoso que Deus.
É comum ver-se tribos da Nigéria invocando espíritos contra seus desafetos, numa espécie de convocação de guarda costas do astral que por sua ordem irão realizar algum desejo seu. Esta crença está representada na história de Aladim e a lâmpada mágica, uma versão árabe dos cultos africanos.
Em ambas as situações, invoca-se um ser, escravizado por algum poder àquele que o conjura, para que ele faça pelo conjurador aquilo que ele acha que não pode fazer.
E, feito o encantamento, supõe o supersticioso que o ser fantasmagórico, rápida e eficientemente vai realizar o seu desejo.
Esta é outra característica do supersticioso.
Ele crê que espíritos os quais ele é capaz de comandar, inferiores a ele, portanto, sejam capazes de fazer por ele aquilo que ele não conseguiu ou acha que não pode fazer.
Claro que estes paradoxos, que não resistem análise mais simples, nem são considerados pelos supersticiosos.
Suas crenças estão tão arraigadas que dificilmente, sairão para a luz do conhecimento com facilidade.
Superstições são os verdadeiros vampiros: vivem na escuridão de nossos receios, sugam nossa energia, se alimentam de nosso medo e, quando expostas ao sol da verdade, se desfazem como pó.
Místicos e mistificadores
Os supersticiosos são presas fáceis de seres inescrupulosos, que cientes de suas inseguranças manipulam-nas com a intenção de conseguir benefícios financeiros ou de outra ordem.
E para isto o esforço não é muito grande já que basta o domínio da palavra e alguns truques teatrais para sugestionar uma massa imensa de pessoas.
Hitler fazia isto. Outros atualmente também o fazem.
O líder místico verdadeiro também tem habilidade em encantar as pessoas com seu magnetismo pessoal.
Nada o difere do charlatão a não ser suas intenções, em seu coração as quais não podem ser contempladas.
O critério do homem comum, incapaz de uma distinção mais sutil entre um e outro, é o critério financeiro.
Alguns acham que o místico verdadeiro jamais manipulará qualquer bem material e muitos místicos tem um cuidado especial com este aspecto, sabendo do preconceito contra a matéria que a Igreja implantou na mente de todas as pessoas ao longo dos séculos, transformando paradoxalmente a miséria material no único sinal de dignidade de um ser humano.
Por causa disto, místicos que não se apresentam em farrapos e que não vivem em pobreza e penúria, enfrentam muita desconfiança das pessoas comuns.
E aqueles que se aprenentam em miséria e penúria, vivendo em condições físicas e de higiene indignas de um ser humano, atraem a atenção de muitos apenas por causa disso, independente da mensagem que traga em seu discurso.
É, portanto, um trabalho muito difícil separar o místico do mistificador.
O estranho é que sempre que um charlatão como Simão , o mágico da Bíblia, que pensou poder comprar com moedas os segredos místicos dos apóstolos, no Pentecostes, aparecer apregoando que tem um conhecimento poderoso e que o venderá para quem quiser pagar uma alta soma por ele, haverá alguém disposto a comprar.
Era assim naqueles tempos e é assim ainda hoje.
As pessoas são realmente muito estranhas.
A psicoterapia, com a análise das noções de valor e das correlações e preconceitos que temos quanto a esta ou aquela categoria de comportamento, seria útil em nos prevenir sobre erros de julgamento que podemos cometer ao seguir padrões do tipo “o pobre é bom e o rico é mau”, ou do tipo “pessoas ignorantes são mais dignas por serem “simples”, do que aquelas que tem grande conhecimento intelectual”, as quais, por serem cultas, inspiram desconfiança.


O Processo Iniciático como alternativa


O que concluímos? Que todo místico deve fazer psicoterapia antes de ser místico? Seria um contra-senso, ainda mais se considerarmos que a psicoterapia como instrumento terapêutico é extremamente recente.
Nenhum místico antes do advento psicoterápico poderia ter se saído bem, já que não havia este recurso.
Antes das pessoas analisarem a si mesmas em busca do aumento de seu autoconhecimento existia a religião e a educação do caráter, forjadores de espíritos sólidos e estruturas morais equilibradas. Era um outro mundo. Não pode haver comparações. O que podemos dizer é que dentro daquelas limitações de época religião e educação do caráter, seja na família ou na escola, , eram os recursos de formação de uma personalidade temente a Deus e devotada ao serviço da humanidade.
Tudo é muito relativo. Com certeza antigamente os homens não eram melhores do que hoje.
Toda esta educação de religião e fé não impediram práticas sociais abomináveis como a escravidão dos negros, considerada natural até dois séculos atrás, ou o machismo , que reservava a mulher um papel secundário na sociedade.
Da mesma forma o rigor do caráter não impedia a hipocrisia da época em relação a moral e a sexualidade, ou a ingenuidade acerca de noções rígidas do que é bem e do é mal.
Sim, havia mais caráter e religião, aparentemente, mas era um mundo, não só física, mas psicologicamente mais primitivo e ingênuo do que aquele que hoje conhecemos.
Só um conhecimento existia na época que poderia ser usado para elevar o nível de consciência das pessoas, homens ou mulheres, pobres ou nobres, e que ainda existe hoje, claro , de modo aperfeiçoado: o processo iniciático.
As iniciações, com seu apelo ao emocional, com sua provocação de transformações íntimas, através de símbolos e rituais, lembram o processo psicoterápico, na sua característica mais importante: ir mais fundo do que a linguagem e do que o intelecto na natureza do ser.
Se a psicoterapia funciona como uma iniciação laica, profana, a iniciação, por sua vez, funciona como uma psicoterapia sagrada, esotérica.
Se a psicoterapia, com seus métodos de busca interior, pode ser entendida como um tipo de processo iniciático profano, o processo iniciático, por sua vez têm funcionado todos esses séculos como uma psicoterapia esotérica.
O stress emocional é um fixador de conhecimento, é o cimento entre um e outro conceito. Conceitos meramente intelectuais não são sólidos até ter entre eles a liga da emoção, do significado humano daquela informação.
Seja este stress emocional a necessidade de responder a um desafio acadêmico, seja o fato deste conhecimento significar a nossa sobrevivência, o fato é que todo conhecimento revestido de emoção se consolida em nós, passa a fazer parte de nós.
As iniciações usam este conceito. Pelo drama teatral iniciático, o indivíduo é levado, pela via emocional, a perceber valores que o intelecto não poderia lhe transmitir. E pela beleza da iniciação, pela sua riqueza cênica, ele fixa com mais intensidade estes valores ali apreendidos. Tudo que é dito pela arte, pela emoção, cala mais fundo dentro de nós.
Infelizmente, a superstição também é assim. Ela nasce exatamente no local onde estamos mais frágeis e sujeitos a influência psicológica, numa palavra, à sugestionabilidade: a nossa família, a nossa cultura de berço, a cidade onde nascemos. Quando perseveramos uma superstição, damos continuidade a um tipo de comportamento que entrou em nós antes que tivéssemos instrumentos críticos para dizer não aquilo que não nos parece correto, do ponto de vista científico ou do ponto de vista do simples bom senso. Por que quando somos crianças, todos os acontecimentos são iniciáticos, tudo nos marca como experiências emocionais, e aprendemos pelo coração e não pelo cérebro, tal qual deve ser na infância e tal qual deve ser no processo de iniciação.
A marca que fica em nós é difícil de tirar, como a hera que entra pelo muro, e do qual só sai se o quebrarmos e derrubarmos.




Misticismo x Superstição


Assim antes de ser místicos, somos seres humanos, fomos crianças, ouvimos histórias de nossas mães e pais e avós, e mesmo com uma formação educacional sólida, estas informações estão arraigadas em nós e é muito, muito difícil arrancá-las de nosso coração.
Por isso somos presas fáceis desse tipo de comportamento, e não fosse pela educação, seríamos também prisioneiros de charlatões de toda espécie.
Não haveria charlatões se não houvesse supersticiosos sedentos para serem iludidos.
A construção de uma mente equilibrada é difícil e exige tempo, mas com certeza o resultado final é um tesouro impossível de ser comprado ou vendido.
É preciso , para levar a termo este empreendimento, superar não só nossa ignorância, mas também sacrificar algum tipo de conhecimento que tenhamos em nós, não como uma reeducação, mas como uma deseducação, um descondicionamento de programas instalados em nós quando não tínhamos antivírus em nosso disco rígido mental.
Cada mente que consegue superar os limites da superstição obtém uma vitória tão importante em termos evolutivos quanto solitária. Ninguém pode viver por nós ou realizar nada por nós .
A maturidade ensina que tudo que nos acontece, resulta de nossa responsabilidade e de nossas escolhas.
Atalhos sempre nos serão propostos e estamos livres para tentar ir por eles, mas a vantagem desta estrada verdadeira é segui-la, até o fim, aprendendo com cada centímetro percorrido.
Saltar etapas , ou supor que isto seja possível, através de amuletos ou pactos com seres invisíveis, só nos atrasará mais e mais e aumentará o tempo do percurso.


Transformar-se em um Verdadeiro Mago depende diretamente de maturidade emocional e psicológica e de saber que , como diz o personagem dos quadrinhos ,o Fantasma , o Espírito que Anda , que um bruxo verdadeiro não pode acreditar em bruxaria.
Então , como podemos finalmente conceituar a diferença básica entre misticismo verdadeiro,como praticado em várias escolas de mistério e a charlatanice pura e simples, supersticiosa que encontramos todos os dias?
São, de alguma forma, as técnicas místicas, supersticiosas ?
Essa excelente e oportuna questão é fundamental.
A diferença básica entre uma técnica mística e a superstição é a mesma entre a superstição e o conhecimento científico. O que torna científico um conhecimento é o fato de ele atender duas características:
1.Reprodutibilidade : as técnicas místicas devem ser reproduzidas por tantos quantos tentem fazê-lo, desde que sejam dadas as condições necessárias para isso .
2.Verificabilidade : Uma técnica mística deve ser testada e verificada quanto à sua autenticidade.
Nenhuma técnica mística deve deixar de ser verificada quanto a sua propalada eficácia por quem quer que a use. Ela não deve depender de fé, mas de confiança resultante dos resultados alcançados de forma consistente e repetitiva.
Toda técnica mística é reproduzível e verificável, não dependendo de humor ou fé, sendo por isso capaz de demonstrar sua eficiência por si mesma, sempre que for necessário.
É desse modo, que os Rosacruzes são alimentados, através das monografias que recebem com um conhecimento sólido, fundamentado na Tradição Rosacruz, que os ajudará a mudar a qualidade de suas vidas.
As monografias nos trazem dois tipos de informações: aquelas de natureza educacional, que aprimoram nossa sensibilidade e cultura, e aquelas de natureza técnica, que nos dão instrumentos para proceder a uma existência mais rica e digna, do ponto de vista humano e material.
Sem a educação, nossa rigidez mental e nossas crenças não aceitariam as técnicas propostas, considerando-as banais e inverossímeis, mas adequadamente flexibilizado pelo desenvolvimento da sensibilidade o espírito se mostra mais apto a experimentar o novo e recusar o antigo, que em hipótese alguma é melhor apenas por ser antigo.
Esta é a mais importante função da educação rosacruciana.
E se a psicoterapia puder ajudar neste processo educacional, não devemos recusá-la, como não devemos em são consciência recusar qualquer recurso que nos ajude a melhorar nosso autoconhecimento.

A FÉ NA RAZÃO E AS RAZÕES DA FÉ











MISTICISMO E CIÊNCIA


Considerações sobre o divórcio histórico entre o pensamento racional e a religiosidade e sobre a possibilidade de uma guinada epistemológica a partir da visualização de energias muito sutis.






As Três colunas que nos sustentam

“Já afirmamos que a ciência moderna não nasceu pronta da cabeça de alguns sábios. Ela é um produto da cultura. Seu lugar de nascimento e sua morada não se situam num céu qualquer de idéias. Tampouco se encontram instalados em um vago mundo das chamadas “verdades científicas”. Pelo contrário, enraízam-se na própria sociedade, num solo irrigado por múltiplas e variadas determinações. Nele, os cientistas são reconhecidos como produtores de idéias, de teorias, de experiências.” [1]

Desse modo meu antigo professor, Hilton Japiassú, começa o capítulo IV de seu livro “A revolução científica moderna”, mostrando a relação entre produção científica e sociedade.
A ciência, uma das três colunas que sustentam a sociedade, não é um fenômeno a parte e destacado do processo social, mas emerge de suas entranhas, de tal forma entrelaçada com ele que seria difícil estabelecer os contornos de um e de outro.
Só existe ciência por que existe o homem, ser vivo, pensante e com necessidades imediatas ou não a satisfazer. Neste sentido é uma expressão legítima do gênero humano.[2]
A outra coluna do fenômeno humano, que compõe a tríade da vida social, é a religiosidade, a sensação nítida, intensa, de que não somos seres desgarrados ou produto de ação aleatória de forças naturais, mas sim partes de uma idéia, de um fenômeno guiado e orientado por uma inteligência mais complexa que a nossa, que ainda hoje zela por nossas necessidades, uma certeza sem fundamentação objetiva, mas tão intensa que se equipara em significado aos resultados de quaisquer experimentos controlados possíveis de imaginar.
Então, se estas duas coisas são partes integrantes da vida social, se ambas nos sustentam em nosso cotidiano, porque então não caminham harmoniosas, lado a lado, como metades de uma mesma idéia, de uma mesma concepção global do mundo?
Talvez a resposta esteja na terceira coluna: o poder.
Tanto a religião como a ciência sempre estiveram a reboque do terceiro lado do triângulo, que diz respeito à força, a sustentabilidade da sociedade como entidade.[3]
Sabedoria, força e beleza.
A religiosidade (e não a religião) pode ser entendida como simbolizada na sabedoria; a beleza está na ciência e na arte, pois é arte o pensamento correto ou corrigido pelas regras do bem pensar; e a verdadeira ciência produz uma vida estética e equilibrada, ao contrário do estereótipo do vulgo, que vê no processo científico apenas frieza e assepsia.
Resta, no entanto, a força, que se expressa na política e no militarismo, o poder pelo constrangimento das armas ou pela imposição de idéias muitas vezes maniqueístas, mas de fácil e rápida assimilação, capazes de arrastar multidões, incapazes de considerações mais demoradas e profundas, ou pelo menos não dispostas para tal esforço. Por mais desconforto que nos possa causar, tal aspecto da vida em sociedade não pode ser negado, dada a demanda de grandes populações pela ordem necessária ao convívio.
Talvez, após estas considerações, possamos concluir que na verdade as forças em confronto não são ciência e religião, porém conhecimento e ignorância e que este confronto seja mediado pela sede de poder. Uma conclusão tanto óbvia quanto insuficiente para um desenho de causas mais detalhado, bem ao gosto de um pensador criterioso.
Em sua defesa digo que embora óbvia, não é falsa. Este é o conflito básico que deve nortear o raciocínio de qualquer indivíduo que tente esclarecer os motivos e os rumos que esta tensão milenar tem tomado na história da sociedade humana.
Religião contra a ciência: este binômio, sim, é falso, já que pressupõe que homens de conhecimento não têm um espaço para a religiosidade em seu interior ou que homens de religião não tenham espaço para a ciência em suas vidas. Os exemplos contra esta visão se sucedem na história do pensamento científico: Padre Mendel e seu trabalho na genética; Kepler[4], o luterano conservador e seu trabalho precioso na concepção da órbita elíptica dos planetas, ou padre Giordano Bruno e seus textos de grande expressão na compreensão da noção do infinito, tão importantes e incômodos aos poderosos de então que morreu por causa deles.
Talvez seja a aparente homogeneidade dos dois grupos que dão a falsa sensação de que estamos verdadeiramente diante de dois monolitos ideológicos: um científico e outro religioso.

A Homogeneidade dos Grupos é Uma Ilusão

Como bem sabemos não é desse modo que se comportam os grupos humanos. Eles se organizam em um primeiro momento baseados em algumas semelhanças de compreensão entre seus membros, mas uma vez reunidos, surgem naturais divergências e enfrentamentos que serão resolvidos ou não dentro de seus muros, e se não forem, darão origem a subgrupos, de um lado e de outro, que por sua vez também se subdividirão.
É como se grupos ideológicos, religiosos ou científicos, sofressem uma digestão social, de forma a que sejam quebrados pouco a pouco em partes mais simples para que sejam finalmente absorvidos pela humanidade como um todo e se transformem em um patrimônio cultural e informacional comum.
A ciência deve-se dizer, tem lidado melhor com este fenômeno. Ela produz um tipo de material que desde o nascimento já é fadado a ser modificado, metabolizado pela sociedade, desde que assim se mostre necessário.

A Verdade Científica

O conhecimento científico resulta não de uma grande verdade, mas de pequenos trabalhos e descobertas, de uma série de investigações e de resultados que pouco a pouco, ao longo de anos, são assimilados pelo senso comum e se transformam em parte do nosso dia a dia.
As verdades científicas, em si, não possuem rigidez ou estabilidade nesta condição de Verdade. São submetidos ao crivo da comunidade científica e devem sobreviver de per si às múltiplas análises e testes que lhe serão aplicados. Nenhum cientista defende uma tese científica. Ao longo do tempo, ela se defenderá sozinha, mostrará sua sustentabilidade desde que se mantenha sólida diante das verificações que sofrerá.
A verdade científica, portanto, é consensual[5] e temporária, não definitiva, e as chamadas leis da ciência só o são enquanto permanecerem satisfatórias. Sua aplicabilidade e estabilidade é que lhe garantem o respeito e a confiança dos muitos cientistas espalhados por todo o planeta e não outra coisa.

A Verdade Religiosa
Já os valores da religião não tem esta flexibilidade. São impostos por instituições que se arvoram em detentoras da “Verdade”, uma “verdade” geralmente não sustentada em fatos, mas em discursos e medo.
A religião não representa a religiosidade de forma satisfatória, mas apenas a canaliza, lhe dá uma vestimenta, uma expressão.
O homem comum tem em si sentimentos que são espontâneos em relação a sua relação com o universo, mas na incapacidade de expressá-los delega a outros, mas habilidosos do que ele com palavras e pensamentos, a autoridade de dar forma a esses sentimentos em palavras.
Desse modo se organizam as religiões. Elas nascem do discurso de um profeta, mas se desenvolvem materialmente através de uma estrutura hierárquica e de poder.
Uma vez organizada hierarquicamente, se consolida, se enrijece, e perde o frescor de seu início. Com isso mata sua ligação com seus fundadores e transforma-se em uma empresa como qualquer outra, providenciando aqueles que a procuram um determinado tipo de produto, definido e rotulado, pronto para o consumo.

Religião e Religiosidade

Isto não significa que a religiosidade humana em si seja errônea. Como vimos, a religião é uma questão de poder, não de fé. E mesmo dentro de religiões organizadas é possível encontrar manifestações legítimas de religiosidade.
Talvez pelo fato de que a compreensibilidade e expressão das nossas percepções e intuições espirituais serem tão complexas quanto aquela da realidade e do Universo pela ciência, a questão do conhecimento elaborado novamente se impõe como um divisor de águas entre os diversos tipos de seres humanos.
Embora não seja condição sine qua non para tal é melhor ter cultura para expressar bem tanto as visões do coração quanto as visões do intelecto.


A vida como elemento comum a ambos os campos

Perceber Deus como uma realidade exige pouco, do ponto de vista humano. Expressar esta percepção é que torna esta vivência mais rebuscada.
E como a área científica responsável por dar alguma objetividade ao subjetivo em nós, a psicologia, falhou na elaboração de um quadro simbólico de consenso para toda a civilização humana, ainda estamos mergulhados no inferno científico: a ausência de referenciais estáveis o suficiente para ao menos iniciar este debate.
O Caos neste campo não é, felizmente, completo. Existem algumas constantes. Sentimos coisas que não conseguimos explicar em relação ao nosso papel no mundo e no Universo, na maioria das vezes, sensações não demonstráveis nem fáceis de explicar, só que mesmo assim sensações muito fortes para serem ignoradas.
E ignorá-las não parece uma boa estratégia, como não podemos deixar um fenômeno sem explicação apenas porque de início não o compreendemos. E o senso de religiosidade é uma dessas sensações.
Uma das questões que talvez interesse a ambos os lados e que represente a síntese desta questão seja o conceito de Vida. A idéia em si é uma daquelas noções óbvias difíceis de definir, mas que encerra em si questões fundamentais.
Em um conjunto de textos publicado originalmente em espanhol, organizado pelo professor Mario Bunge[6], o prof. A. A. Brito da Cunha descreve o conceito de organismo vivo da seguinte maneira: “O conceito de ser vivo, ou de organismo, apresenta-se na vida diária, na ciência pura e aplicada e nas humanidades, desde a Biologia até as biotecnologias e desde as ciências sociais até a Filosofia. (...) é tão ubíquo que pode ser considerado tanto científico como filosófico.”
A Vida com suas características oferecem um excelente ponto de convergência para a questão “a quem pertence o corpo e a mente do homem?”.
Por anos as Ciências Da Vida testemunharam, invejosas, o progresso da física em conseguir atrair corações e mentes para suas causas, transformando o físico moderno no novo sumo sacerdote científico, principalmente se sua área for Astrofísica.
Se as Ciências Da Vida conseguissem manifestar uma alteração no padrão de compreensão do Universo seria a alteração e subjugação de um modelo que privilegia números e aparelhos por outro que valoriza pessoas e sentimentos, dito de uma forma passional, mas compreensível na boca de um médico.

A Convivência Pacífica dos Sábios Científicos com o Conceito de Deus
A maioria das pessoas, entre estes alguns cientistas renomados, tem certeza de que existe uma inteligência superior que intervém no andamento da natureza e das nossas vidas, embora discordem sobre o que seja a Vida e quanto ao nome desta Inteligência. [7]
Alguns defensores do ateísmo defendem que a crença nesta concepção provém da ignorância e da falta de cultura científica, mas esta afirmação não se sustenta dado que muitos pensadores científicos usam o conceito de Deus, Einstein, por exemplo, em suas reflexões sobre a natureza e o Universo. E pode ser até que não se concorde com sua crença, mas chamar o elaborador da teoria da relatividade de homem sem cultura científica e ignorante é no mínimo insano.
É que a realidade se assemelha à história do copo cheio pela metade. Valorizamos o que queremos e o que podemos valorizar.
Se homens de ciência, do calibre de Einstein, falam de Deus sem pudor, e se homens de religião fazem ciência também, o que falta para que estes dois universos se encontrem é muito pouco.


Um Novo modelo epistemológico como forma de acelerar o encontro entre Ciência e Religião
Talvez o surgimento de um novo modelo epistemológico, nas Ciências Da Vida, um pouco mais avançado, que ultrapasse as fronteiras do mecanicismo newtoniano que ainda nos governa, como uma espada de Dâmocles[8] sobre nossos pescoços intelectuais, fosse o tiro de misericórdia nesta aparente divisão entre estes dois campos, o da Ciência e o da Religião.
Quando me refiro a este novo modelo, penso nas implicações filosófico-científicas de uma nova compreensão do fenômeno da Vida, de seus fundamentos, de sua natureza.
Como exemplo disso, a constatação da sustentação da existência biológica por uma energia muito sutil de difícil detecção no momento, seria a base de uma grande guinada de paradigma fisiológico e terapêutico.
A comprovação da existência de uma energia que estivesse no ar, nos alimentos, na luz do sol e no corpo seria um feito científico verdadeiramente integrador.
Quem conhece algo sobre a acupuntura compreende esta linha de raciocínio.

A Energia Ch´i e suas possibilidades epistemológicas
Talvez a conseqüência mais perversa da compreensão mecânico-hidráulica da realidade seja a sua inerente fragmentação do real. Na área da medicina isto teve repercussões boas e más.
A compreensão do homem como máquina, a chamada “máquina perfeita”, fez com que automaticamente ele fosse dividido em peças, não estanques nem independentes, mas bem definidas quanto as suas ações. Isto fez com que um sem número de profissionais se dividissem no estudo de cada uma dessas partes, com o advento das especialidades médicas que cada vez mais sabem mais sobre menos.
Do ponto de vista científico tal estratégia tem se mostrado extremamente interessante. Do ponto de vista da prática da clínica médica, não tanto.
Já que são muitas as partes a ser tratadas, além de vasto o conhecimento sobre cada uma das partes, nenhum médico pode mais, sozinho, ser detentor de todas as informações e suas nuances sobre quaisquer dessas áreas.
Isto gera um sem número de procedimentos incorretos ou incompletos, que privam o indivíduo de ter um atendimento no mínimo de acordo com os atuais conhecimentos científicos. A prática médica não ficou inviabilizada, mas especializou-se de tal forma que não podemos mais falar em Medicina, mas em Medicinas, no plural, com áreas de comportamentos tão peculiares que às vezes não conseguem dialogar.
Este modelo exposto no campo médico se estende a todas as áreas, com menor prejuízo, no entanto, mas com a mesma compartimentalização. Em física, matemática, sociologia, história, biologia, as subáreas se multiplicam de tal modo e a tal velocidade que um verdadeiro diálogo interrelacionador entre elas tornou-se quase inviável e o conceito de mais prestígio entre os pensadores do conhecimento, a interdisciplinaridade tornou-se uma abstração platônica, mas adequada ao mundo das Idéias que ao das coisas.
Ora, se existe esta problemática de diálogo entre os diversos campos da ciência, que mais e mais necessitam deste diálogo, e mais dificuldades sentem em realizá-lo, fácil fica compreender o enorme desafio de um projeto de diálogo entre ciência e o que há de mais místico no ser humano, a religiosidade.
Facilitaria em muito um modelo científico não mecânico, um modelo de fluxo, energético, mais dinâmico e mais sutil, que permitisse novas ilações quanto ao relacionamento do homem com as forças universais.
A própria noção de campos diferentes, um da religiosidade e outro da ciência, não deixa de ser conseqüência do modelo epistemológico mecânico-hidráulico do real, cheio de válvulas e peças isoladas em trabalho sincrônico, mas sem perder suas individualidades enquanto peças.
Precisamos de uma realidade ou de uma compreensão do real e do mais importante e misterioso fenômeno científico, a própria Vida, mais energética que mecânica e, embora se acumulem evidências no mundo atômico de que a realidade tem fundamentos mais instáveis do que o mundo macromolecular nos faz supor, estas evidências não conseguiram ainda gerar uma mudança de paradigma na compreensão do macrocosmo, seja pelo cientista ou pelo homem comum.
Uma evidência macroscópica de fluxo e instabilidade na realidade biológica poderia gerar um precedente empírico extremamente interessante e perturbador para compreensões ainda por demais compartimentadas.

O 4° Sistema Circulatório
A constatação de um 4° sistema circulatório no corpo humano (além do liquórico, do linfático e do sanguíneo) composto de um material menos denso que o ar e capaz de causar modificações importantes na qualidade da vida biológica, causaria forte impacto epistemológico, já que a reboque traria a discussão do conceito integrador que caracteriza esta energia.
Como muitos sabem, a Acupuntura baseia suas técnicas na existência de canais aonde esta energia muito sutil circula. São canais pouco densos, tão sutis que não são visíveis a olho nu. E já que não existe tecnologia para torná-los visíveis, sua existência foi descartada e atribuída a lendas e mitos regionais.
No entanto, os efeitos das agulhas são indiscutíveis de tal forma que a Organização Mundial de Saúde, ligada a ONU, determinou que a Acupuntura fosse integrada aos conhecimentos médicos ocidentais de forma regular e ensinada em regime de pós graduação de dois anos, a qualquer médico que desejasse praticá-la, perdendo seu caráter de técnica alternativa e transformando-se em área ortodoxa de especialização.

A anamnese de toda uma vida
Uma das coisas que mais chamam a atenção daqueles que chegam até a Acupuntura após uma formação médica ortodoxa, é a maneira como a anamnese[9] é feita.
Se o médico ortodoxo, ao entrevistar o paciente em questão, busca levantar os sintomas de uma doença específica para chegar a um diagnóstico, para o acupunturista cada doença ao longo da vida do paciente é apenas um sintoma de um quadro mais global. Portanto, o conjunto de doenças ou manifestações patológicas passam da condição de diagnósticos separados a condição de sintomas de um grande diagnóstico, que descreve como a energia de um indivíduo, que recebe o nome de Ch´i, fluiu ao longo de sua existência, influenciada pela sua dieta, pensamentos e atividade física.
Desta maneira a perspectiva muda em profundidade e amplitude, ganhando uma dimensão insuspeita para o médico ortodoxo. E para o paciente sua vida como um todo recebe uma importância que estaria longe de supor, mas que intuitivamente sabia existir.
E aí vem a parte mais significativa.
Como os canais ou meridianos [10](14 principais e milhares de outros secundários) praticamente cobrem todo o organismo, as manifestações das doenças obedecem a esses fluxos e suas correspondências com as funções vitais (respiração-pulmão; digestão - estômago; circulação - vasos sanguíneos, etc.)[11] tendo pontos em toda a superfície da pele, fazendo com que uma dor de cabeça possa ser tratada através de um ponto presente nos dedos da mão; ou dores nas costas, através de pontos nos tornozelos.
Outra coisa acerca desta energia, como definida pelos seus defensores, é de que ela não só permeia o homem, mas todo o universo, e que flui a partir do universo para o homem através da luz solar, do alimento e da respiração, não confundindo este elemento com o oxigênio atmosférico.
O que integra estes dois componentes da equação (elemento a ser tratado e ponto a ser considerado e agulhado) são os fluxos dessa energia invisível, e até o momento, considerada fantasiosa pela ciência ortodoxa.
E este ceticismo da ciência é coerente e correto. Faltam evidências da existência de tais canais e do fluxo de energia apregoado por antigos documentos; e é simplesmente impossível a um cientista minimamente responsável trabalhar baseado em crenças não demonstradas.
Se, no entanto, pudéssemos tornar visíveis estes canais e este fluxo, se conseguíssemos elaborar uma tecnologia ótica para isso, duas coisas de imediato, aconteceriam:
1° uma revisão da noção de saúde como resultado de processos eminentemente físicos químicos e mecânicos hidráulicos.
2° uma abandono da compreensão de que o universo está devidamente dividido em peças, e a percepção de que ele é produto de energias sutis que o interligam e que nos interligam a ele.

Implicações filosóficas da Visualização das Energias Muito Sutis

Há implicações não só científicas nisto, mas também religiosas. A presença de uma energia sutil como essa nos mostraria, a nós, seres humanos, finalmente, como seres extremamente sensíveis a mudanças energéticas em nosso interior e ao nosso redor, mostrando de forma inquestionável que o invisível é maioria como dizia o Buda; e mais: que este invisível tem mais significado para a manutenção do visível do que supõe nossa vã epistemologia.
Talvez eu tenha aparentemente perdido minha objetividade ao fazer essas especulações.
Só que embora não tenha como demonstrar a existência dos canais, estou absolutamente convencido da sua existência como também dessa energia sutil, o Ch' i, já que vi a eficácia da técnica estagiando por dois anos no ambulatório de Acupuntura do Hospital do Servidor Público Municipal de São Paulo, na capital paulista.

Talvez o ateísmo humano seja capaz de retardar por muitas décadas uma pesquisa séria dessas energias, ou quaisquer dessas conseqüências que eu antevi neste ensaio.
Quero supor, entretanto, que será um duro golpe em uma compreensão materialista de mundo, e terá repercussões no imaginário social abrindo uma porta para o diálogo entre religiosidade e ciência que seria impensável antes dele.
O mais curioso é que embora tenhamos tecnologia de ponta[12] na pesquisa e identificação de energias muito sutis, capaz de em algum tempo, talvez dez, vinte anos, tornar esta possibilidade uma realidade, poucos esforços tem sido feitos nesta direção.
Falta de patrocínio ou de interesse comercial, não importa, mas é um terreno deserto esperando ser ocupado por quem se interessar. Demandará esforços científicos sérios e pode servir de modelo para outras pesquisas neste campo, o campo das energias muito sutis.


A necessidade de intervenção de Cientistas Místicos








E que grupo de cientistas poderia se interessar por tal área de atenção? Aquele grupo que estivesse exatamente a meio caminho das duas partes em disputa, que somassem em si características de sensibilidade e religiosidade, sem a carapaça organizacional da religião, e, ao mesmo tempo, estivesse em harmonia com valores científicos como a busca de resultados experimentais fidedignos capazes de ser aceitos pela comunidade científica internacional.
Não consigo pensar em melhor grupo para isto do que os cientistas rosacruzes da AMORC.
Eles têm fundamento ético e técnico para isso. Além de poder ter nessa área de pesquisa um objetivo definido e realizável, que demandará tempo e trabalho, mas que se levado a bom termo transformará a AMORC e os rosacruzes em um modelo místico a ser seguido.
Se quisermos um espaço de diálogo entre ciência e religião este será o espaço da energia muito sutil, pois com a sua visualização tornada possível, outras energias também muito sutis poderão, quem sabe, ser visualizadas, o que daria sustentação a algumas das práticas que há milênios os rosacruzes têm difundido entre seus membros.
Eis o desafio que lanço ao frateres e sorores que queiram se aventurar. Devemos este trabalho a nossa Ordem. Uma realização atual, historicamente importante de modo indiscutível, e que recuperará as possibilidades de avanço científico e espiritual para toda a humanidade.
É possível. Basta visualizar e trabalhar. Este é o modo rosacruz de fazer ciência, uma ciência digna do século XXI.









[1] A revolução científica Moderna, Hilton Japiassú, Rio de Janeiro, Ed Imago, 1985, págs 115
[2] “O desejo de saber o porquê e o como chama-se curiosidade, e não existe em qualquer criatura viva a não ser no homem. Assim, não é só por sua razão que o homem se distingue dos outros animais, mas também por esta singular paixão”, afirma Hobbes, no Leviatã.
[3] Para aprofundar o tema sugiro consulta a edição digitalizada da revista Nures no endereço http://www.pucsp.br/nures/revista3/3_edicao_editorial.pdf.
[4] Johannes Kepler (Weil der Stadt, perto de Stuttgart, 27 de dezembro de 1571 - Regensburgo, 15 de novembro de 1630) foi um astrônomo. Formulou as três leis fundamentais da mecânica celeste, conhecidas como leis de Kepler. Dedicou-se também ao estudo da óptica.(fonte Wikipedia)

[5] Como proposto pela escola de Frankfurt, da qual o mais eminente representante ainda vivo é Jurgen Habermas.
[6] Epistemologia, Mario Bunge, Curso de Atualização, EDUSP, 1980
[7] Quanto a isso, indico a leitura do livro póstumo Variedades da experiência Científica- Uma visão pessoal da busca por Deus, de Carl Sagan.
[8] Dâmocles, ao que parece, era um cortesão bastante bajulador na corte de Dionísio I de Siracusa - um tirano do século IV a.C.em Siracusa, Sicília. Ele dizia que, como um grande homem de poder e autoridade, Dionísio era verdadeiramente afortunado. Dionísio ofereceu-se para trocar de lugar com ele por um dia, para que ele também pudesse sentir o gosto de toda esta sorte. À noite, um banquete foi realizado, onde Dâmocles adorou ser servido como um rei. Somente ao fim da refeição olhou para cima e percebeu uma espada afiada suspensa por um único fio de rabo de cavalo, suspensa diretamente sobre sua cabeça. Imediatamente perdeu o interesse pela excelente comida e pelos belos rapazes e abdicou de seu posto, dizendo que não queria mais ser tão afortunado.
A espada de Dâmocles é uma alusão freqüentemente usada para remeter a este conto, representando a insegurança daqueles com grande poder (devido à possibilidade deste poder lhes ser tomado de repente) ou, mais genericamente, a qualquer sentimento de danação iminente.( fonte: Wikipedia)

[9] Anamnese (do grego ana, trazer de novo e mnesis, memória) é uma entrevista realizada por um profissional da área da saúde com um paciente, que tem a intenção de ser um ponto inicial no diagnóstico de uma doença. Em outras palavras, é uma entrevista que busca relembrar todos os fatos que se relacionam com a doença e à pessoa doente.
Uma anamnese, como qualquer outro tipo de entrevista, possui formas ou técnicas corretas de serem aplicadas. Ao seguir as técnicas pode-se aproveitar ao máximo o tempo disponível para o atendimento, o que produz um diagnóstico seguro e um tratamento correto. Sabe-se hoje que a anamnese, quando bem conduzida, é responsável por 85% do diagnóstico na clínica médica, liberando 10% para o exame clínico (físico) e apenas 5% para os exames laboratoriais ou complementares.
Após a anamnese é realizado o exame físico, onde se procuram os sinais e sintomas da doença.(fonte:Wikipedia)

[10] Meridiano é um dos nomes pelos quais são conhecidos os "canais de energia" utilizados na acupuntura e outros métodos terapêuticos da medicina tradicional chinesa.
Estes canais, são citados abundantemente na literatura chinesa. Como por exemplo, no "NEI CHING", atribuído a Huang Ti, em mais ou menos 500 a.C.

[11] Ver apêndice ao final do ensaio.
[12] Basta se reportar a história da detecção dos chamados raios cósmicos que na verdade são sub partículas atomicas, e as suas inererentes dificuldades técnicas.Na Wikipédia lemos o seguinte: “ Por volta de 1900, Charles T. R. Wilson, Julius Elster e Hans Geitel, notaram que a condutividade de ar contido num eletroscópio de folhas de ouro permanecia constante, apesar de serem retirados íons por meio de campo elétrico. Estudando o assunto, concluíram que algum agente desconhecido produzia constantemente novos íons. A principio se pensou que a ionização do ar fosse causada pela influência de matérias radioativas. Sendo assim, a ionização deveria diminuir com o aumento de altitude.
Entre 1911 a 1913, Victor F. Hess e Kolhörster, observaram que, à medida que um contador Geiger se afastava da superfície da Terra e dos isótopos radioativos que nela ocorrem naturalmente, a contagem de radiação diminuía. Na Torre Eiffel, por exemplo, a contagem era inferior à da superfície. Para investigar esse fenômeno, ele foi levando os contadores a altitudes cada vez maiores, por meio de balões carregados de detectores de radiação. A partir de certa altura, ele verificou que a contagem de radiação aumentava fortemente e não poderia estar saindo da Terra, deveria vir de algum ponto do espaço. Hess concluiu, após as suas investigações, que a ionização observada era devido à ação de uma radiação desconhecida, altamente penetrante, provinda do espaço sideral. Deu, por isso, o nome de “raios cósmicos”, como são conhecidos até hoje e recebeu o Premio Nobel de Física em 1936 por sua descoberta.
No Brasil, a pesquisa dos raios cósmicos começou em 1934 com a produção de trabalhos de dois importantes centros de pesquisa, o Instituto Nacional de Tecnologia no Rio de Janeiro e Universidade de São Paulo (USP). No Rio de Janeiro, o instituto era coordenado por Bernardo Gross, que se dedicou inicialmente aos estudos teóricos dos raios cósmicos. Em São Paulo, o Departamento de Física na USP foi organizado por dois cientistas estrangeiros, o ítalo-russo Gleb Wataghin e italiano Giuseppe Occhialini, direcionando as pesquisas experimentais e teóricas para as áreas de radiação cósmica e física nuclear.
Após paralisação na Segunda Guerra Mundial, as pesquisas sobre raios cósmicos foram retomadas e vários físicos brasileiros foram trabalhar no exterior. Em 1946 César Lattes, físico brasileiro, foi convidado por Giuseppe Occhialini para trabalhar na Universidade de Bristol, na Inglaterra, no grupo de Cecil Powell. Em 1947, Lattes, Powell e Occhialini, a partir de análises de raios cósmicos, descobriram um méson, a subpartícula foi chamada de méson-pi, ou "pion". Logo após, Lattes descobriu como fazer a produção artificial dessas subpartículas em um acelerador. Lattes ajudou na criação de novas instituições científicas no Brasil, como o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) e o Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq).